05/03/13 - Loucos por comida, 'foodies' gastam até 60% do salário em restaurantes

 

Rodrigo Saraiva, 29, sempre ouviu do pai que não se deve economizar com comida. "Acho que estou elevando esse conselho para outro patamar", brinca o diretor de arte de cinema, que gasta cerca de 40% do salário em restaurantes. Embora sempre tenha gostado de comer, o paranaense intensificou o hábito de frequentar restaurantes há um ano, quando passou a viver em São Paulo. Ao lado do namorado paulistano, sai, em média, cinco vezes por semana atrás de novos lugares.

Rodrigo gosta de comer, conhece lugares caros, gasta dinheiro com isso. Mas não é exatamente um gourmet -segundo o "Houaiss", aquele "que se regala com finos acepipes e bebidas".

Para definir tipos como ele, se popularizou na Inglaterra, nos anos 1980, o termo "foodie", que descreve aficionados de comida que não escolhem o restaurante pelo preço. Segundo o americano Paul Levy, coautor do livro "The Official Foodie Handbook" (manual oficial do "foodie"), de 1984, o significado se mantém atual. "Gourmets são elitistas e antiquados", afirmou.

Em comum, os "foodies" paulistanos têm menos de 30 anos, ganham salários entre R$ 3.500 e R$ 12 mil e não têm filhos. Esse é o perfil dos entrevistados que se assumiram como viciados em comida. Em vez de gastar com carros, eletrônicos ou arte, "investem" em entradas, pratos principais e sobremesas. Alguns chegam a dedicar até 60% da renda mensal para bancar experiências gastronômicas.

 

A cidade, famosa pela gastronomia desde o século 19, favorece esse hábito. Hoje, segundo a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), temos 13 mil restaurantes. Para Nina Horta, escritora e dona do bufê Ginger, São Paulo é a terra dos "foodies". "Isso está mudando, mas no Rio, por causa do calor, o forte são os botequins", afirma a colunist..

Já para Marcelo Traldi, professor e pesquisador de gastronomia do Senac, a capital tem uma caracterização diferente em termos de comportamento de consumo -aqui, o mercado é muito desenvolvido. "A cidade tem docerias baratas e caras, especializadas em brigadeiro, quindim... O mercado maduro faz com que o consumidor aceite experimentar coisas novas."

E é o que o ele tem feito. A publicitária Mariana Ferreira, 23, troca balada, cinema e teatro pelo ritual que se desenrola entre o momento em que chega a um restaurante e o instante em que paga a conta. Gosta especialmente de saborear pratos feitos com cuidado e conversar com a pessoa à sua frente. "É um tempo que me escapa no dia a dia", afirma Mariana, que dedica 40% da renda mensal ao hábito. Quando viaja, separa 70% para isso.

A estilista e "cool-hunter" Ana Paula Tieko, 28, mora em São Paulo, mas se divide entre temporadas de trabalho em Tóquio, Hong Kong e Xangai. Na semana anterior à conclusão desta reportagem, almoçou no The Gourmet Tea (Pinheiros) na segunda, jantou no Takô (Liberdade) na terça e, na quinta, comeu no Lamen Kazu (Liberdade) e no Suri (Pinheiros).

A estilista evita fins de semana para escapar da espera. Entre os entrevistados, é consenso que os melhores dias são terça, quarta e quinta. No domingo, só com muita disposição.

 

Fonte: Folha de S.Paulo