06/02/13 - Fotografias de pratos são bem-vindas em restaurantes de SP

 

FLÁVIA PINHO

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Postar a foto do prato antes da primeira garfada virou um hábito cada vez mais difundido. Ao contrário de alguns chefs americanos que contaram recentemente ao jornal "The New York Times" que não gostam desse tipo de exposição, os restaurantes de São Paulo aplaudem e pedem mais.

Usuários de primeira hora do Instagram, um dos aplicativos mais populares para compartilhamento de fotos, o casal Julia Andrews Cardoso, 28, e Fabio Cardoso, 27, sempre segue o mesmo ritual. Nas duas ou três noites por semana em que jantam fora, os dois competem para ver quem consegue tirar a melhor foto do mesmo prato.

Eles preferem correr o risco de a comida esfriar a perder o registro. "Quando comemos rápido e nos esquecemos de tirar a foto, ficamos chateados depois", diz Julia.

As imagens, capturadas com a câmera do celular, são imediatamente compartilhadas pelo casal. Ela tem 235 seguidores; ele, 245. "[Nos restaurantes], jamais nos olharam com cara feia por isso."

Os chefs paulistanos estão longe de se incomodar com as fotos tiradas por seus clientes. Dos 16 chefs e empresários do ramo ouvidos pela Folha, que comandam de restaurantes de luxo a lanchonetes, todos afirmaram que aprovam a divulgação de fotos nas redes sociais sem restrições.

O chef Leonardo Botto, sócio da Casa Nero, do Chez Lorena e do Chez Mis, garante que jamais flagrou um "cliente fotógrafo" incomodando os demais. "Flash e tripé? Nunca vi", afirma. "Acharia até engraçado."

O "restaurateur" Beto Giorgi, dono do Tutto Italiano e da rede Garage Burger, admite que também aproveita para sacar a câmera quando se vê na posição de cliente, sobretudo quando está viajando.

O mesmo faz o chef Henrique Fogaça, do restaurante Sal, e o proprietário do Biondi, Bruno Previato. "Uso como inspiração, pois elas [as fotos] viram referência para nossas casas", diz Giorgi.

A publicidade gratuita está entre os benefícios mais óbvios para os profissionais. "As mídias sociais nos ajudam muito a conquistar clientes, é um belo marketing gratuito", diz a chef Renata Vanzetto, do Marakuthai.

 

VAI UMA HASHTAG AÍ?

Mas há outras vantagens. Comentários espontâneos, por exemplo, podem ser uma preciosa fonte de informações sobre hábitos e preferências da freguesia tudo de graça.

"Também é uma forma de ganhar crédito pelas criações", acredita o chef Paulo Barros, sócio do grupo Egeu, proprietário dos restaurantes Girarrosto, Italy, Kaá e General Prime Burger.

Por essas e outras, há quem já estimule os cliques. O publicitário Igor Puga, sócio da hamburgueria Vapor, na Vila Madalena, pede no cardápio que a clientela use a hashtag #vaporburger nos posts. "Compartilhar impressões nas redes sociais é um processo irreversível, acho reacionário tentar evitar", diz.

Na rede Per Paolo, que tem como sócio o chef Carlos Bertolazzi, a participação vale prêmio: imagens postadas com a hashtag #momentoperpaolo são submetidas a voto popular, e a escolhida do mês leva R$ 150 em produtos da rotisseria.

Com jeitinho, até mesmo as críticas negativas podem ser usadas a favor do restaurante, como instrumento para melhorar o atendimento.

Aconteceu com Wagner Resende, do Chef Rouge: na cozinha, o celular apitou alertando sobre um post que citava a casa. "O cliente estava reclamando sobre a demora de um prato. Na mesma hora, fui ao salão, pedi desculpas e remediei o problema."

 

EM NY

Segundo reportagem do "The New York Times" publicada em 22 de janeiro, clicar pratos com o celular ou máquinas fotográficas já não é permitido no restaurante Momofuku Ko, de David Chang, e Bouley, de David Bouley.

Neste último, quem faz questão de clicar seu pedido é convidado a fazê-lo no balcão da cozinha.

Outros endereços conceituados, como o Per Se, de Thomas Keller, não chegam a tanto, mas sinalizam que fotos não são muito bem-vindas: lá, é proibido usar flash, como nos museus.

Entre os motivos alegados está o incômodo que a prática pode causar aos vizinhos de mesa.