23/01/13 - Reajustes servidos à mesa

 

Onda de aumentos faz preços subirem até 22% em restaurantes, bares e lanchonetes do DF. Índice é quase quatro vezes maior que a inflação acumulada em 2012. Empresários elegem como vilões a mão de obra, as bebidas, as carnes e as verduras

O vale-refeição vai durar menos neste início de 2013. Comer fora de casa ficou mais caro, o que deve pesar e muito no orçamento dos brasilienses. Os aumentos começaram no fim do ano passado e, segundo os próprios empresários do segmento de alimentação, ainda não terminaram. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Distrito Federal (Abrasel-DF) estima uma alta média de 10% na virada do ano. Alguns estabelecimentos, porém, chegaram a reajustar os cardápios em até 22%, quase quatro vezes a inflação oficial acumulada nos últimos 12 meses.

Em discurso unânime, donos de bares e restaurantes dizem ser quase impossível não mexer nas tabelas: as variações dependem do tipo de negócio e do tamanho da margem de lucro aplicada pela empresa. Eles elegem como principais vilões as bebidas de maneira geral, a carne, os legumes e as verduras. Reclamam, ainda, da carga tributária de produtos como o vinho (que corre o risco de encarecer cerca de 15% nas próximas semanas) e do impacto da folha salarial, responsável por algo entre 20% e 30% do custo operacional de um restaurante.

A decisão de elevar os preços acirra a concorrência no mercado gastronômico da capital federal. “A situação preocupa bastante porque está todo mundo querendo mais clientes, e os reajustes vão no caminho inverso”, comenta o presidente da Abrasel-DF, Rodrigo Freire. Há cerca de 10 mil estabelecimentos de alimentação espalhados pelas regiões administrativas do DF. Os primeiros a reajustarem os valores, ainda em outubro de 2012, provocaram uma onda de aumentos. “Só vai segurar os preços quem estava trabalhando com uma margem (de lucro) muito folgada”, completa Freire.

Pós-ano-novo

Passado o réveillon, o quilo de comida em um self-service do Setor de Indústrias Gráficas (SIG), aos fins de semana e feriados, saltou de R$ 37,90 para R$ 41,90: alta de 10,5%. Durante a semana, o valor subiu para R$ 39,90. “Não há expectativa de que o preço dos alimentos diminua, está ficando complicado”, afirma o proprietário, Dornelles Vasconcelos. A costela de porco, exemplifica ele, ficou 30% mais cara nas últimas semanas de 2012.

Quase todo dia a vendedora Daiane da Silva, 25 anos, e os colegas de trabalho almoçam em restaurantes do Plano Piloto. Ela gasta em média R$ 18 por refeição, incluindo a bebida. “Já é tudo muito caro, a gente fica sem muita alternativa”, desabafa a moradora de Taguatinga, que considera inviável comer em casa. “O ideal seria levar alguma marmita: economizaria e ainda seria mais saudável. Mas também fica difícil”, diz.

No fim do ano passado, a Ambev, a maior distribuidora do Brasil, anunciou um aumento médio entre 9% e 9,5% no valor da cerveja. Parte desse reajuste chegou aos consumidores. “Tranquilo, o pessoal não reclama”, tenta minimizar Narciso Marinho, sócio-proprietário de um dos mais tradicionais bares da Asa Sul, onde uma garrafa de 600ml já beira os R$ 9. Os pratos também encareceram no estabelecimento.

Os aumentos ainda não foram percebidos pelo brasiliense Vitor Marques, 33, acostumado com a alimentação fora do domicílio. Apesar dos reajustes, ele não pretende mudar a rotina. “Sai mais barato do que ir em casa todo dia”, calcula o analista de sistemas que trabalha na Esplanada e mora em Águas Claras. Os amigos Francinaldo Marques, 32, e Eduardo Ramos, 47, pensam da mesma forma e, antes do dia 15 de cada mês, já não possuem mais vale-refeição disponível.

Em uma franquia de pratos prontos, a opção de 200g de filet mignon com dois acompanhamentos e um molho saltou de R$ 27 para R$ 33 em novembro passado, alta de 22,2%. “Não podemos repassar os aumentos com a mesma velocidade que eles chegam para nós, mas não tem outro jeito”, justifica o sócio-proprietário Felipe Evaristo. “Se não adaptarmos os preços, não conseguiremos sobreviver”, emenda Rafael Benevides, sócio de uma pizzaria refinada da cidade, que, na mesma época, aplicou reajuste médio de 5%.

Os aumentos generalizados — também observados em cafeterias e lojas de chocolates — estimularam um restaurante japonês com unidades no Lago Sul e no Jardim Botânico a ajustar o preço ao da concorrência. “Tenho que acompanhar o valor praticado no mercado”, diz Andréa Cordeiro, proprietária do estabelecimento onde o rodízio de sushi de sexta-feira a domingo pulou de R$ 49,90 para R$ 59,90 (incremento de 20%) e a lata de refrigerante, de R$ 3,90 para R$ 4,50 (alta de 15,4%).

 

Para que as refeições fora de casa não pesem tanto nas contas do mês, o servidor público Cezar Luciano Cavalcanti Oliveira, 59, muda de restaurante quando percebe preços mais altos no cardápio. “Deixar de comer na rua é muito difícil”, reclama. Pelo menos três vezes por semana, ele sai de casa para almoçar ou jantar. Valores de um mesmo item, percebe, variam de um lugar para o outro. “Já paguei de R$ 8 a R$ 15 em uma caipirosca”, afirma, uma diferença de quase 90%.

Setor diz que repassa custos

Os empresários do segmento de alimentação atribuem à folha de pagamento boa parte dos reajustes da virada do ano. Este mês, a convenção coletiva da categoria determinou aumento de 9% — mesmo índice usado para definir o novo salário mínimo — no piso dos trabalhadores, que passou a ser de R$ 725,46, sem contar a comissão. “É um impacto muito grande. Só não repassamos todos os custos integralmente porque a demanda não comporta”, diz o vice-presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do DF (Sindhobar), Nadim Haddad.

Entidades representativas do segmento negociam com o governo a redução de impostos trabalhistas. “Se isso ocorrer, pode até haver queda de preço”, garante o presidente da Abrasel-DF, Rodrigo Freire. Bares e restaurantes da capital do país empregam cerca de 70 mil pessoas. O vice-presidente do sindicato dos empregados, Orlando Cândido, rechaça a tese de que eles seriam vilões dos recentes aumentos. “Isso não existe. Nosso salário, incompatível com a nossa profissão, nunca teve esse impacto todo na vida dos empresários”, sustenta.

Fonte: Correio Braziliense