09/10/12 - Restaurantes ganham status de grife e invadem corredores de shoppings

 

Paulistanos são os visitantes mais assíduos, os que mais comem nos shoppings e, nessas refeições, os que, em média, mais gastam com comida ou bebida

Restaurantes estrelados da cidade ganham cada vez mais espaço nos corredores dos shoppings. Inaugurado em 2008, o Cidade Jardim nem sequer tem uma praça de alimentação.

Menos radical, o JK Iguatemi, aberto em junho, embora tenha uma praça, cedeu pontos exclusivos aos seus destaques gastronômicos, como Varanda, Ráscal e Tre (a nova marca do Tre Bicchieri), entre outros.

"Opções fora da praça se tornaram uma necessidade para atender a um público mais elitizado", afirma o presidente da Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers), Luiz Fernando Pinto Veiga.

Pesquisa feita pela associação neste ano apontou que, entre seis capitais brasileiras, São Paulo é a que concentra o maior percentual de consumidores das classes A e B entre os frequentadores de shoppings (76%).

 

Paulistanos também são os visitantes mais assíduos, os que mais comem nos shoppings e, nessas refeições, os que, em média, mais gastam com comida ou bebida.

Fabio Mariano, consultor em tendências e estudos de mercado da InSearch, aponta que outro motivo para a demanda por casas espalhadas é o aumento do interesse do público por comida autoral e por grifes culinárias.

E esse é um movimento que veio para ficar, segundo o professor de marketing e comportamento do consumidor da PUC-SP Francisco Antônio Serralgo. "Parte desse público se dispõe a gastar mais tempo e dinheiro quando tem conforto, segurança e maior qualidade do serviço e do produto", explica.

 

Toma lá, da cá

As vantagens que antes costumavam ser privilégio de lojas de grife agora fazem parte da estratégia dos empreendimentos para atrair marcas de alimentação a espaços privilegiados fora das praças. Os shoppings não revelam os detalhes das negociações, mas donos de restaurantes enumeram as facilidades.

Há 30 anos negociando com shoppings, Roberto Bielawski, ex-dono do Viena e proprietário do Ráscal (cinco em corredores de empreendimentos paulistanos), diz que a relação descontos no aluguel, direito de escolha do ponto, adaptação arquitetônica, novos modelos de contrato e financiamentos a juros mais baixos viraram praxe nas transações.

"Hoje, bons centros comerciais têm equipes que cuidam só de negociações e oferecem suporte ao lojista. Nos anos 1970 não era assim. Quase quebrei construindo um restaurante num ponto que mais parecia um buraco", conta.

Em 2006, Ida Maria Frank, dona do italiano Due Cuochi, foi convidada para levar seu restaurante de rua ao Cidade Jardim, ainda na planta.

"Insistiram para que eu visse a maquete. Não gostei e propus um outro espaço, aberto e com jardins. Na reunião seguinte, vi que o projeto tinha sido modificado e o que eu havia imaginado estava lá", lembra a "restauratrice".

Para abrir a unidade, em 2008, outro fator foi determinante. "Tive parte dos investimentos financiada pelo shopping a juros menores do que os praticados no mercado", revela Ida Maria. No mês que vem, ela inaugura outra casa no mesmo shopping, a franco-italiana Rive Gauche.

Sylvio Lazzarini, dono do Varanda, também aproveitou a onda e abriu neste ano uma unidade no JK Iguatemi, sua primeira em shopping. O convite inicial era para um centro comercial em Brasília. "Neguei, mas fiz a ressalva de que repensaria se fosse no JK. No fim, ofereceram um ponto de destaque", conta o empresário.

"Eles não só aceitaram como fizeram um contrato misto, com o qual posso vender comida e produtos que também ofereço na matriz [como peças de artesanato]."

Cid Simão, um dos donos do Tre Bicchieri, instalado desde 2010 na rua General Mena Barreto, no Itaim Bibi, diz que nunca havia sido convidado por um shopping. "A família Jereissati [dona do Iguatemi] é cliente do restaurante e, por isso, o convite nasceu assim, meio de boca", conta.

Simão diz que, convite aceito, o JK exigiu que o projeto fosse feito por um dos três arquitetos sugeridos por eles. Como a obrigatoriedade foi cumprida, aumentando os gastos, agora ele busca, para os primeiros meses, isenção do aluguel da nova casa, cujo ponto também não foi cobrado.

Luiz Fernando Pinto Veiga, presidente da Abrasce, resume: "Não há segredo, são negociações feitas na mais antiga e clássica lei de mercado, a da oferta e procura".

 

Fonte: Folha de São Paulo