Catarinense considera sua missão cumprida e segue defendendo a modernização do turismo, desta vez no Estado de São Paulo

Após quase nove meses na pasta, o ministro do Turismo Vinicius Lummertz se prepara para deixar o cargo e assumir um novo desafio, como secretário de turismo do Estado de São Paulo, no governo de João Doria (PSDB).O catarinense de 57 anos, nascido em Rio do Sul, tem amplo conhecimento técnico no setor e assumiu o ministério em abril deste ano. Antes, acumulou experiências como secretário Nacional de Políticas de Turismo dentro do próprio Ministério do Turismo, de setembro de 2012 a maio de 2015, e à frente do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), de junho de 2015 até sua posse como ministro.

Em entrevista ao jornal Notícias do Dia, Lummertz fez uma avaliação de sua gestão, falou sobre os entraves para o crescimento e modernização do turismo brasileiro e suas expectativas em relação à nova pasta que assumirá em janeiro. Vinicius Lummertz assumirá a pasta de Turismo no Estado de São Paulo.

Como o senhor avalia sua passagem pelo Ministério do Turismo?

Olhando para trás, considero que a manutenção do turismo como um dos ministérios do novo governo federal é um sinal de que o setor foi colocado na agenda econômica brasileira, que era uma das minhas metas.Também acompanhamos a reforma trabalhista que beneficia o turismo com a inclusão da modalidade do trabalho intermitente, e algumas medidas que tramitam na Câmara, como a abertura de capital das companhias aéreas brasileiras que acirram a competição, o que é benéfico porque acaba baixando o preço dos voos. 

Já temos voos mais baratos que vêm do Chile, por exemplo, custando por volta de 60 dólares, e de Paris para Fortaleza por 500 dólares. Queremos essa competição dentro do mercado também com companhias americanas e de outros países, como a Noruega.Cito também o fato de termos implantado o visto aéreo eletrônico que aumentou em 40% o movimento de visitantes dos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Japão. E no próximo ano começam os testes do visto eletrônico terrestre em Uruguaiana (RS) para turistas vindos da Argentina. A medida agiliza e desburocratiza a entrada de turistas no Brasil, sendo mantida a operação de escaneamento para segurança.

O ambiente de negócios também melhorou com a desregulamentação dos voos charters e o aumento de 90 para 180 dias nos vistos de trabalho das tripulações de navios de cruzeiro. Conseguimos impedir a caça das baleias na nossa região (SC) e um decreto para liberar o avistamento embarcado desses animais. Outras 11 licitações para criação de parques naturais estão em andamento, além da liberação de 8 mil quilômetros de trilhas pelo Brasil.

O que ficou por fazer e é imprescindível para que o turismo avance no Brasil?

No Brasil, temos medos imaginários, como o medo de visitantes em parques, medo de marinas, coisas que estão superadas no mundo. Temos barcos, mas não temos marinas, temos beleza natural, mas não temos parques, todas essas atividades geram emprego, mas há muito preconceito. O Japão, por exemplo, liberou os cassinos em ressortes, 93% dos países de primeiro mundo regularizaram isso, mas nós temos medo. Na verdade, o jogo existe só que os brasileiros gastam o dinheiro no exterior ou em jogos ilegais. Com isso, perdemos uma receita de R$ 60 bilhões, sendo R$ 20 bilhões em impostos. As marinas sofrem todo o tipo de desincentivos sobretudo na insegurança jurídica. 

Justo em Santa Catarina que produz mais de 50% dos barcos de lazer do país. A sustentabilidade é interpretada como contrária ao desenvolvimento, mas o primeiro pilar dela é o desenvolvimento econômico, porque a pobreza não despolui. É preciso ter desenvolvimento para ter proteção, para criar mecanismos para que isso aconteça.Há muitos entraves também?Retiramos os impostos de importação de equipamentos de parques temáticos, pois há 20 anos não abrimos parques no Brasil . e agilizar a liberação de concessões ambientais. Apenas em Santa Catarina temos mais de R$ 70 bilhões em projetos aguardando licenças, é tudo muito lento o que acaba afugentando investidores e criando ocupações irregulares em torno das cidades. 

Temos sete milhões de brasileiros trabalhando no turismo e o Brasil tem o maior potencial natural e o oitavo potencial cultural do mundo para desenvolver o segmento. Porém, somos o pior em estrutura e nosso ambiente é instável para investidores estrangeiros. Essa insegurança jurídica intimida a criação de marinas e parques naturais, por exemplo. Nos EUA, são 330 milhões de visitações em parques naturais, enquanto no Brasil são 11 milhões de visitantes, mas temos três vezes mais cobertura vegetal que eles - e mais parques, a maioria fechado à visitação. Em Santa Catarina é idêntico. Temos que ser mais produtivos. 


Estamos em 123º lugar no ranking de competitividade, embora tenhamos subido 20 posições no último ano. Toda essa pauta é importante. E há outras medidas para desburocratizar o segmento, como o PL 2.724 que faz 154 mudanças na lei geral do turismo e a transformação da Embratur em uma agencia de promoção do Brasil no exterior, prevendo mais recursos. Deveríamos ter “ medos reais”. Medo do desemprego dos jovens , medo das drogas e da criminalidade. Hoje, o principal desafio de Santa Catarina é organizar estas potencialidades para receber investimentos. Todas estas questões já foram resolvidas nos países desenvolvidos - e se queremos melhorar de vida temos que agir como eles, inclusive aprendendo com os erros cometidos por eles.

Qual a importância do turismo no desenvolvimento econômico do país?

A agricultura e a indústria se automatizaram e produzem mais, com menos pessoas. Portanto, o emprego virá cada vez mais do setor de serviços. A cesta de consumos nessa área também mudou, por conta de mudanças comportamentais: os jovens querem viajar mais, querem mais experiências e menos coisas materiais. Ao contrário dos outros setores, a tecnologia gera empregos no turismo (facilitando a emissão de passagens, através do check in eletrônico, possibilitando criar pacotes de viagens mais baratos, etc. O turismo ainda ajuda a fomentar outras indústrias, como a de alimentos, a imobiliária, a de vestuário etc. 

Em Santa Catarina, os três meses de temporada de verão devem movimentar cerca de R$ 12 bilhões. O Ministério do Turismo já prevê R$ 550 milhões por ano em orçamento voluntário, sem contrapartida de estados e municípios, o que deve continuar. Mas com o Prodetur + Turismo [programa de acesso ao crédito para o fomento e estruturação do setor de turismo criado em abril], garantimos investimentos de R$ 5 bilhões pelo BNDES. Santa Catarina já pediu cerca de R$ 700 milhões e está previsto a liberação de mais de R$ 1 bilhão para os municípios catarinenses em 2019. Gaspar já garantiu R$ 60 milhões. 

O programa mudou o patamar do financiamento do turismo para os municípios e para os Estados e deixa um legado que vai se ampliar nos próximos anos.  Portanto, é fundamental planejar, melhorar o ambiente de negócios tornando-o seguro para investimentos e melhorar a produtividade do setor.

O senhor falava em criar 2 milhões de empregos com o programa Brasil + Turismo. Isso aconteceu?

Isso é possível desde que as medidas de liberalização necessárias sejam mantidas no próximo governo. Precisamos de mais investimentos privados, porque embora tenhamos saído da crise que assolou o país nos últimos dois anos e meio, os governos ainda tem baixa capacidade de investimentos. Parcerias público-privadas e concessões são vitais para continuarmos crescendo e precisamos captar investimentos externos, porém a regulamentação atual inibe a criação de resortes, parques naturais, etc.. Precisamos avançar ainda mais. 

Qual sua expectativa como secretário de turismo do governo de SP? 

O convite de João Dória não foi feito só para mim, mas para seis ministros do governo Temer, então me sinto muito reconhecido e não é fácil chegar lá. Santa Catarina tem uma raridade histórica de fazer ministros, e nenhuma história pregressa de secretários no governo de São Paulo. O Estado também é a maior rota de entrada de turistas no Brasil e sempre que possível vou fazer pontes com Brasília para atrair investimentos que beneficiem o país, mas vai depender do ambiente de negócios. Santa Catarina tem grande vocação turística e espero que o novo governo se concentre em criar um ambiente estável para atrair os investimentos necessários. Minha tarefa como ministro está cumprida, já apresentei meu plano de ação para o governo de João Doria e conversei com o futuro secretário de Turismo de Santa Catarina, que deve levar adiante essa vontade de fomentar o setor no Estado. Então, estou muito otimista com Brasília, com as perspectivas do Estado de São Paulo e com o futuro do turismo em Santa Catarina.

Fonte:
Notícias do Dia