O país tinha 6,987 milhões de subocupados no trimestre até outubro, 6,4% a mais do que nos três meses imediatamente anteriores

Depois que a empresa na qual trabalhava faliu em 2016, Aline Nunes da Silva, 27 anos, passou um ano procurando emprego, até desistir. Em setembro, ela decidiu sair de casa e recomeçar. Hoje vende doces em uma barraca nas ruas do Centro do Rio. São seis horas por dia sob sol ou chuva, período suficiente para vender cerca de 200 unidades por R$ 1 cada. O ganho é dividido com três parentes que preparam os doces.

"Trabalho seis horas porque não compensa dedicar mais tempo. Deixei currículos em diversas empresas e agências, mas não tem oportunidade, disse Aline Nunes, que gostaria e aceitaria um emprego com mais horas em troca de uma remuneração melhor. Eu tenho ensino médio completo e tem sido difícil conseguir emprego. Antes da crise, eu conseguia encontrar".

A comerciante vive a situação que o IBGE chama de subocupado por insuficiência de horas, um contingente que bateu recorde no trimestre encerrado em outubro, segundo o órgão. São pessoas que trabalham menos de 40 horas semanais e dedicariam mais tempo ao trabalho, se houvesse condições e oportunidade. O país tinha 6,987 milhões de subocupados no trimestre até outubro, 6,4% a mais do que nos três meses imediatamente anteriores.

É o maior nível desde os 7 milhões alcançados no trimestre de 2012. Dali em diante, o número de subocupados caiu de forma constante, para voltar a crescer em meados de 2014. Na comparação com o mesmo período do ano passado, o número é 10,5% maior. A subocupação foi uma parcela relevante das 1,24 milhão de ocupações surgidas no Brasil de agosto a outubro deste ano.

O movimento reduziu a taxa de desemprego nacional para 11,7% no período, abaixo do verificado nos três meses anteriores (12,3%) e do mesmo período do ano passado, de 12,2%. O país tinha 12,351 milhões de desempregados no período. Segundo especialistas, a escalada do número de trabalhadores subocupados está relacionada ao perfil da ocupação que cresce no país, majoritariamente informal e precária.

De 1,24 milhão de ocupações surgidas no país, na comparação com o trimestre anterior, 534 mil foram no setor privado sem carteira assinada. Outros 367 mil ocupações surgiram no trabalho por conta própria sem CNPJ. São em geral pequenas empreitadas individuais, como camelôs, pintores, manicures etc.

Economista da consultoria Tendências Thiago Xavier descarta que o crescimento da subocupação por insuficiência de horas esteja relacionado ao contrato de trabalho intermitente, modalidade surgida com a reforma trabalhista no ano passado. Segundo ele, além de parte dos trabalhadores intermitentes não desejar trabalhar por mais horas, a geração desse tipo de ocupação permanece pouco representativa.

Xavier afirma ainda que a redução da subocupação depende da aceleração do ritmo de recuperação da atividade econômica e da qualidade do emprego. Para ele, o mercado de trabalho já começou a dar sinais mais positivos de melhoria neste segundo semestre, o que significa que a redução da subocupação pode não estar tão distante assim.

A população ocupada continua a crescer. O saldo do emprego formal do Caged [Cadastro Geral de Empregados e Desempregados] também veio positivo nos últimos meses. A porta do mercado de trabalho continua sendo a informalidade, mas existem sinais de relativa melhora nesta segunda metade do ano. Confirmada a aceleração da atividade, com menores incertezas, o ímpeto de contratar vai voltar, avalia.

A comerciante Aline Nunes da Silva diz que não tem atualmente expectativa de deixar a barraca de doces no Centro do Rio. Moradora de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, ela usa a renda recebida para manter o filho de oito anos. Mas a perspectiva para o futuro próximo a preocupa. No verão, as vendas de doces caem. "No calor, quem quer comer brigadeiro, quindim? As pessoas querem tomar sorvete", imagina.


Fonte: Valor Econômico