Projeto é voltado para mulheres se sentirem mais à vontade para sair sozinhas

Viviane Kahtalian, 60, gosta de uísque caubói. E se irrita quando sai desacompanhada e alguém insiste em lhe pagar uma bebida —em geral, algo mais suave, como uma taça de champanhe. Pensando nisso, ela idealizou um bar cujo conceito, atendimento e decoração constrangem esse tipo de comportamento. O Eugênia, em Pinheiros, homenageia a jornalista e atriz mineira Eugênia Álvaro Moreyra (1898-1948), tida com uma das primeiras feministas do Brasil. Decorado com retratos de Amy Winehouse e Clarice Lispector, o sobrado tem três ambientes. A saleta aos fundos abriga uma prateleira que só acomoda livros de escritoras, de Simone de Beauvoir à filósofa Hannah Arendt.

Com piso elevado, o salão do meio, iluminado por um letreiro em neon no qual se lê "grl pwr", acomoda um piano vertical. Faz as vezes de palco para shows protagonizados por mulheres (vozes masculinas não fazem parte da trilha sonora). À exceção do namorado da Viviane, sócio dela, o staff é feminino. "Aqui ninguém olha torto quando uma mulher chega sozinha. E, provavelmente, ela não será alvo de cantadas insistentes. Ficamos de olho", diz.

À entrada, o balcão é comandado pela paulistana Flavia Suppi. Ex-funcionária do Riviera, a barwoman de 36 anos assina sua primeira carta de drinques. "Nunca me deram espaço nesse meio para colocar minhas ideias em prática", diz. A reclamação de mulheres do outro lado do balcão é recorrente. A sommelière argentina Cecilia Aldaz, 36, diz que, volta e meia, precisa se desvencilhar de cantadas no restaurante em que trabalha, o Oro, no Rio de Janeiro. Um cliente quis dar a ela uma caneta Montblanc, alegando que era para ela "brilhar ainda mais no salão".


Também no Rio, a bartender Jéssica Sanchez, 29, do Vizinho Gastrobar, relata que penou até ser levada a sério na coquetelaria. "Nos meus primeiros trabalhos, em bares e casas noturnas, só me deixavam lavar louça", diz. A paulistana Beatriz Ruiz, 31, sommelière de cervejas e gerente de marketing da Goose Island, engrossa o coro das queixas. "Tem homem que simplesmente não aceita que mulher pode entender mais do assunto", diz ela. Por isso, em abril do ano passado, tomou a iniciativa de fundar uma confraria feminina, a Goose Island Sisterhood. O grupo se reúne todos os meses para debater a igualdade de gêneros no universo da cerveja.

Os encontros também dão origem a chopes sazonais. O número um, o Carolina, presta tributo à mineira Carolina Maria de Jesus (1914-1977), uma das primeiras negras do país a fazer sucesso nas letras. Única mulher do trio de cervejeiros do pub, a paulista Marina Pascholati, 28, se encarrega da produção. Interessadas em participar devem se inscrever na comunidade do projeto no Facebook. O lucro com os chopes da confraria é revertido para instituições sociais com projetos que envolvem o bem-estar da mulher.

Fonte: Folha de S. Paulo