Lugares dedicados ao rock têm uma certa resiliência a toda sorte de intempéries

Se alguém quisesse encontrar jaquetas pretas e camisetas do ACDC, o casarão histórico na Avenida Iguaçu era um dos destinos mais infalíveis em 2001. O Crossroads, aberto quatro anos antes, já havia se consolidado como agenda obrigatória dos roqueiros curitibanos no fim de semana. Porém, quando um curto-circuito causou um incêndio que destruiu totalmente a casa no domingo de Páscoa daquele ano, causando um prejuízo de centenas de milhares de reais a seu proprietário, Alessandro Reis, o destino do casarão parecia selado. “O bar não tinha seguro”, relembra Reis. “Minha mãe havia trabalhado por 30 anos na Caixa [Econômica Federal] e tinha se aposentado uma semana antes. Ela pegou o dinheiro que ela juntou nessas três décadas e colocou na minha mão. Disse: ‘Eu acredito em você, sei do seu potencial e pelo menos uma parte do seu prejuízo você vai recuperar; sei que vai reconstruir isso aqui’”, conta. Profecia de mãe. A fênix roqueira ressurgiu e caminha hoje para seu 21º aniversário, comemorado no último sábado (14).

A história do Cross, apelido que ganhou dos frequentadores nas últimas duas décadas, mostra uma marca dos bares curitibanos dedicados ao rock: uma certa resiliência a toda sorte de intempéries. Se o senso comum – e os números das associações que representam a classe – aponta que uma casa noturna tende a viver poucos anos (cinco, para boa parte dos analistas), quando se trata do gênero, a coisa muda de figura. Curitiba tem uma boa porção de casas que passaram a barreira das décadas e sequer dão sinais de falta de gasolina no tanque. “A mortalidade de alguns bares, acontece por falta de inovação e gestão, normal também em outros setores”, destaca Luciano Bartolomeu, diretor executivo da Abrasel no Paraná. “Normalmente os bares temáticos conseguem fidelizar com mais facilidade um público. É o caso dos bares de rock, que além do tema abrangente, possibilitam decorações quentes e bonitas e possuem um público apaixonado por esse tipo de música”, desvenda o profissional.

Um exemplo é o Hermes Bar, que desde 1961 movimenta a cena autoral da cidade. Pelo casarão onde funcionou historicamente, na Avenida Iguaçu, passaram artistas que moldaram o rock paranaense, como Relespública e Blindagem. Hoje a casa tem um novo espaço, no Rebouças, e aposta em grandes shows, alguns de projeção nacional, como os de Zakk Wylde (realizado no ano passado) e os de Toy Dolls e Napalm Death (programados para este ano). Também histórico, o Lino’s Bar, dos anos 1980, continua tocando abrindo espaço para shows de bandas alternativas da cena local.


A lista é longa e passa pelo reduto underground do 92 Graus, fundado em 1991 e imortalizado em uma gravação de uma das bandas punk mais importantes da história, o Fugazi. Passa também pelo Seba’s Bar, de 1996, que há mais de 20 anos leva uma legião de roqueiros ao Boqueirão. Seguem forte também Empório São Francisco (1997), Jokers Pub (2001) e Tuba’s Bar – um ícone do largo da ordem, fundado nos anos 1990. Em comum, todos eles têm mais do que uma mera fórmula para a longevidade. É questão de trabalho duro e amor ao rock ‘n roll. “É um estilo que não tem data de validade ou restrições, mas passa por muitos altos e baixos. Vem moda e vai moda, mas o rock está sempre lá”, diz Alessandro Reis, do Crossroads.

Mas ele aponta que todos estes endereços terão novos desafios pela frente. “Não existe mais essa história de público fiel. Antes tinha o roqueiro que não ia a um lugar de outro estilo. Hoje é comum ver o roqueiro aqui, na outra semana em um festival de sertanejo ou música eletrônica. A gente tem que se reinventar. Eu já passei pelas mais diversas crises do país. De uns dois anos para cá as coisas complicaram. O perfil do consumo mudou com a abertura dos complexos gastronômicos, com os bares de rua. Acabamos nos tornando um modelo até um pouco antigo, de lugar que a pessoa tem que entrar e pagar”, diz. “O Cross já está indo para a segunda geração, por isso nos preocupamos em ter sons mais atuais. Tem que se reinventar. Ter a equipe treinada, cardápio bacana, som mais atual. A galera que frequentava há dez anos já não vem com tanta frequência. Por isso criamos a Thunderstruck [um evento aos domingos, no fundo do bar, com food trucks e bandas tocando ao ar livre]. A pessoa vem, traz a família, os amigos”, aponta.

Fonte: Gazeta do Povo