Com aceitação que extrapolou as expectativas iniciais, estabelecimentos começam a exportar modelo para grandes centros do país por sistema de franquia

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A velha fama de que “se deu certo em Curitiba vai funcionar em qualquer lugar” vai muito bem a calhar com o momento no qual vivem quatro gastrobares que caíram nas graças do público da capital paranaense nos últimos cinco anos, quando começaram a ser inaugurados. Choripan, Mr. Hoppy, Porks e Sirène chegaram com um conceito de comida de rua, inicialmente disseminado pelos food trucks, porém, sem deixar de oferecer o mínimo de comodidade permitidos pelas estruturas de bar.

O combo produto de qualidade, atendimento, ambiente descolado e preço acessível levou a uma grande aceitação e inevitável expansão, com abertura de novas unidades aqui mesmo em Curitiba e em outros pontos estratégicos, extrapolando as divisas do Paraná e com chances até de ultrapassar as fronteiras do país. Os negócios, que começaram despretensiosamente, com investimento inicial baixo, mais por paixão do que unicamente pelo interesse em cifras, passou a render milhões em tempo recorde, pedindo mais espaço para crescer.

Passada a fase de erros e acertos, os direitos de uso do modelos formatados destas marcas demandam investimentos entre R$ 50 mil e R$ 250 mil, considerando itens como taxa de franquia, capital de giro e instalações (uma franquia de fast food, por exemplo, pode variar entre R$ 300 mil e R$ 600 mil). Para um dos principais especialistas brasileiros em franquias Marcelo Cherto, a ocasião reuniu a melhor situação: as pessoas certas, no lugar certo, na hora certa e com a ideia certa.

“O público curitibano é muito crítico e é cada vez mais difícil ser inovador. É preciso ser muito criativo para dar resultado”, afirma. Segundo Cherto, praticar preços acessíveis em momento de crise é muito lucrativo, mas mais do que isso, o segredo é a busca por valor e não somente preço, o que os empresários conseguiram com maestria. “Há um abandono da ostentação e desejo por mais experiência. Ao oferecer produto de qualidade, preço justo, ambiente agradável e excelência em atendimento você ganha o mercado e o desejo de ser replicado de modo muito natural”, destaca.

É quando entram os candidatos a franqueados, que encontram no modelo a fórmula do sucesso pronta, já eliminados os riscos de falhas e garantido o trunfo dos acertos. No ramo da alimentação eles são muitos. Este é o quarto setor mais procurado, atrás de Hotelaria/Turismo, Serviços e Entretenimento/Lazer, com crescimento de 0,8% das unidades no primeiro trimestre de 2018, em relação ao mesmo período de 2017, segundo levantamento da Associação Brasileira de Franquias (ABF). Em termos de faturamento, o segmento da alimentação é um grande líder, rendendo a maior parte de todo o dinheiro que entra no franchising. Foram R$ 10,59 bilhões no primeiro trimestre do ano – 6,6% a mais que o primeiro trimestre de 2017.

“Geralmente a franquia de alimentação é procurada por pessoas que querem empreender em um negócio lucrativo, mesmo que tenham que trabalhar bastante. Em geral, deixaram ou perderam seus empregos e resolveram investir em algo próprio”, explica o consultor de franquias Erlon Labautut. Os millennials – ou nascidos entre meados das décadas de 1980 e 1990 – surgem com destaque e são observados com atenção pelas redes como potenciais franqueados, diz. “São jovens que já querem começar a vida profissional empreendendo e com segurança.” Outro nicho é de pessoas que moravam em outros países e exergam no modelo uma oportunidade confiável para retornar ao Brasil.

Juntos, Choripan, Mr. Hoppy, Porks e Sirène estimam faturar mais de R$ 20 milhões em 2018 e abrir dezenas de unidades em vários cantos do país nos próximos anos. Somente o Mr. Hoppy, especializado em hambúrgueres e chopes artesanais, é responsável por boa fatia dessa meta – R$ 14 milhões –, o que representa um crescimento de 120% em relação ao volume de vendas do ano passado. A rede dos sócios José de Araújo Netto e Vinícius Sampaio inaugurou há pouco mais de dois anos, com um investimento de R$ 50 mil na primeira loja, na Rua Mateus Leme, considerando que o imóvel já era próprio.

Hoje são 11 unidades da marca, sendo cinco em Curitiba. A maior operação, porém, está fora do Paraná: Belo Horizonte. As duas lojas mineiras representam por volta de 25% do faturamento da rede, ao gerar R$ 500 mil por mês, enquanto as cinco unidades da cidade sede da marca comercializam R$ 200 mil no mesmo período, não por questão de aceitação, mas por uma diferença meteorológica e de infraestrutura entre as capitais.

Com uma população 30% maior que Curitiba, a capital mineira comporta ainda mais três lojas da marca, na avaliação de Netto. As demais unidades do Mr. Hoppy estão em Recife (duas), São Caetano do Sul e Joinville. Destas, oito são próprias e três são franquias. Outras duas franquias serão inauguradas nos próximos meses em Foz do Iguaçu (PR) e em Mogi das Cruzes (SP).

Apesar de todo o expertise de mercado de Neto por ser proprietário de outros restaurantes de Curitiba, o Mr. Hoppy era para ser apenas mais uma casa do portfólio de negócios. A ideia inicial era dar função a um imóvel que estava parado, oferecendo os chopes que já eram vendidos em Kombis, em eventos com food trucks, primeiro modelo adotado pela marca. Os hambúrgueres artesanais foram agregados para complementar a operação. “Em menos de seis meses era aberta a segunda unidade do Mr. Hoppy, 100% com lucro da primeira loja”, revela.

Até o final do ano, a estimativa é chegar a um total de 20 lojas. Os processos de abertura estão adiantados em Natal (RN), Salvador (BA) e Itajaí (SC). Estão previstas ainda duas outras unidades em Curitiba e pontos no interior do Paraná, com cidades como Maringá, Cascavel e Ponta Grossa no radar. Para 2019, os sócios estimam ao menos cinco novas lojas (podendo chegar a dez) e um crescimento de pelo menos 30% em faturamento.

Pegada regional e cultural

As pequenas e as microempresas têm grande capacidade de formatar conceitos e partir para modelos de franquia porque conseguem se destacar com diferenciais de atendimento e modelos de negócios, avalia o coordenador estadual de franquias do Sebrae-PR, Luiz Antonio Rolim de Moura. Foi o que aconteceu com o Choripan, que dedica sua cozinha ao pão com chorizo, o tradicional pão com linguiça tão apreciado pelo povo argentino.

Após passar por cozinhas de diversos países, como Inglaterra, Espanha, Suíça e, inclusive, do Cirque du Soleil, o chef e um dos proprietários do Choripan, João Scalzo, junto com o sócio e bartender Carlos Fracaro, criou a receita exclusiva das linguiças artesanais do gastrobar. Elas são produzidas com carnes nobres, autorizadas pelo Ministério da Agricultura e dentro dos critérios de qualidade exigidos pela Vigilância Sanitária. As cinco toneladas anualmente preparadas têm o selo da fabricante local Defumados Ganchinho. “Conseguimos oferecer um produto de qualidade, que os brasileiros adoram e por um valor completamente acessível”, comenta Scalzo. Os sanduíches custam R$ 15.

O descolado imóvel localizado no São Francisco, recebeu R$ 70 mil iniciais há cinco anos. A segunda unidade, no bairro Rebouças, foi possível com recursos de 50% do faturamento da primeira – cerca de R$ 200 mil, três anos depois. Até o final do ano será aberta a terceira unidade do Choripan na capital paranaense, no Juvevê. Fora do estado, há negociações avançadas em Bauru e Joinville. “A preferência é expandir para regiões centrais do país e cidades com temperaturas mais elevadas, onde o público naturalmente faz um melhor aproveitamento dos espaços da cidade”, afirma Scalzo.

Locais do interior do Paraná, como Maringá, Toledo e Cascavel, são alvos, assim como municípios da região metropolitana de Curitiba, como Araucária, São José dos Pinhais e Pinhais, revela o empresário. “Elas são interessantes, pois estão crescendo muito e demandam cada vez mais por produtos de maior qualidade.” O Choripan tem um faturamento mensal de R$ 185 mil e fechou o ano de 2017 com um volume de R$ 2,2 milhões em vendas. A estimativa é crescer cerca de 50% a cada ano, nos próximos anos, com a abertura de três a cinco lojas por período.

Porco no menu

O modelo do Porks, gastrobar especializado em pratos com carne suína, já começou exportado. A primeira unidade da marca foi inaugurada em Belo Horizonte em agosto de 2017 e dois meses depois é que foi lançado em Curitiba. O estabelecimento é dos mesmos sócios do Mr. Hoppy, que conhecem bem o mercado mineiro. Motivados pelo sucesso da combinação hambúrguer e chope na capital paranaense, resolveram adaptar o modelo ao paladar local.

Fonte: Gazeta do Povo