Empresas que não trabalhavam com dinheiro em espécie costumavam ser raras, mas agora elas estão se tornando a norma em partes de Nova York


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Dia desses, no Dig Inn, um restaurante em Manhattan, Shanya Bryant cometeu um sério deslize de etiqueta de consumo: pediu um arroz orgânico com inhame e carne de frango e, quando chegou ao caixa, tentou pagar com uma nota de US$ 50 (R$ 161). "Desculpe", a caixa respondeu. "Não aceitamos pagamento em dinheiro." Não era questão de falta de troco para a nota de US$ 50. O restaurante não trabalha com dinheiro, e ponto. "O quê?", questionou Bryant.

A caixa explicou que o restaurante aceitava cartões de crédito e débito, bem como pagamentos por meio do app do Dig Inn. Mas o todo-poderoso dólar era impotente ali. "Isso nunca tinha me acontecido", disse Bryant, 20, assistente de um designer. "Acho que estamos vivendo uma nova era."


Ela está certa. Empresas que não trabalhavam com dinheiro em espécie costumavam ser raras, mas agora elas estão se tornando a norma em partes de Nova York. O sistema, porém, ainda não é encarado como completamente normal, por enquanto. Por isso, a caixa do Dig Inn quebrou o galho de Bryant. "Só dessa vez, você não precisa pagar", disse, entregando o pedido. "Mas fique avisada, no futuro." Algumas pessoas já vivem nesse futuro em que dinheiro não existe. Não veem coisa alguma de estranho em pagar por um pacote de chiclete com um cartão. Se você é uma dessas pessoas, e se por acaso tiver lido este artigo até aqui, deve estar pensando "e daí, onde está a novidade?".

No Two Forks, Kristin Junco, 34, auditora no Departamento de Educação do Estado de Nova York, disse que já fazia uma semana que ela não pagava compra alguma em dinheiro. No extremo oposto estão pessoas que foram criadas com a crença de que pagar pelas compras com cartão de crédito significa acumular dívidas -algo a ser evitado sempre que possível- e condicionadas a reservar o cartão apenas para grandes despesas. "Fiquei chocado", disse David, 66, um contador que havia ido ao Dig Inn almoçar algumas horas antes de Bryant. (Ele não quis que seu sobrenome fosse publicado por ser "um cara reservado".)

Não surpreende que as operadoras de cartões, que faturam com cada transação realizada no crédito, aplaudam a tendência. A Visa recentemente passou a oferecer a varejistas seletos uma recompensa de US$ 10 mil (R$ 32 mil) caso eles privem seus fregueses da opção de pagar como quiserem. Um executivo da Visa explicou a ideia à rede CNN como uma forma de "libertar" os consumidores da necessidade de carregar dinheiro.


Fonte: Folha de S.Paulo