Neste 2018, teremos mais de 3 milhões de turistas por dia dando voltas pelo mundo. Um fenômeno massivo que não tem precedente na história da humanidade

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Neste 2018, teremos mais de 3 milhões de turistas por dia dando voltas pelo mundo. Um fenômeno massivo que não tem precedente na história da humanidade. E, como de costume, é desencadeado por uma só visão: a do dinheiro. Deveríamos fazer uma pausa e analisar seu impacto social, cultural e ambiental, e remediar esta situação, que está se tornando seriamente negativa se deixamos as coisas como estão.


O jornalista indiano Sameer Khapoor confeccionou para Triphobo Trip Planner uma lista de 20 lugares que foram devastados pelo excesso de turismo, que se pode ver neste link. O famoso Taj Mahal, um monumento construído pelo amor do imperador mogol Shah Jahan à sua esposa, vem perdendo o brilho do mármore branco leitoso original, passando a um tom mais amarelado. O monte Everest está cheio de lixo ao seu redor, deixado pela invasão de visitantes e aventureiros.


A Grande Muralha da China tem sido tão maltratada pela quantidade massiva de turistas que já começa a mostrar sinais de desmoronamento em algumas partes. As famosas praias de Bali também estão repletas de lixo, além do tráfego infernal, por estradas que se deterioram rapidamente. Machu Picchu tem um número tão grande de visitantes que os arqueólogos estão preocupados por sua preservação. Uma vez existia um trem que levava a um pequeno povoado, chamado Águas Calientes, e dali era preciso seguir o caminho a pé ou em mulas. Agora é possível chegar ao enigmático bastião sagrado inca de ônibus com ar condicionado. Águas Calientes passou a ser um núcleo urbano de 4 mil pessoas, com hotéis de cinco estrelas.


A famosa barreira de recifes australiana já perdeu um terço de seus corais. As ilhas Galápagos, onde Charles Darwin concebeu sua famosa teoria da seleção natural, recebe tanto visitantes que incidem em seu frágil equilíbrio ecológico que em 2007 a UNESCO a colocou na lista de locais de patrimônio mundial em perigo de extinção. Em vão.


O Partenon sofre com os muitos visitantes que tentam tirar pedaços de rochas e ruínas, ou rabiscar nos pilares antigos, o que levou as autoridades a reforçar o policiamento do local. A maravilha de Angkor Wat, no Camboja, está enfrentando o mesmo problema, assim como o Coliseu de Roma, onde toda semana alguém é preso por tirar um pedaço de coluna ou tentar escrever nas paredes.


Porém, o maior exemplo do impacto negativo do turismo é Veneza. Oficialmente, a cidade tem hoje 54 mil residentes. Eram cerca de 100 mil em 1970. Cada ano, mil residentes se mudam à parte continental, porque os aluguéis, o custo de vida em geral, continua subindo, e as hordas de turistas tornam a vida impossível. A prefeitura precisa renovar continuamente a quantidade de varredores e empregados de limpeza. Os barcos gigantes continuam percorrendo o delicado microssistema da lagoa, mas a pressão dos lobbies é muito forte. Insistem em defender a presença de seus transatlânticos no centro da cidade, ou mais de 5 mil empregos estariam em perigo.


Existe atualmente um claro conflito entre os lugares que vivem do turismo e os que têm outros trabalhos. Por exemplo, em Barcelona, onde muitos residentes agora se manifestam contra o turismo massivo. Veneza em breve se transformará quase numa cidade fantasma, como o povoado de Monte Saint-Michel, a urbe medieval da Normandia, repleta de milhares de visitantes, que querem ver a famosa maré de alta velocidade. Pela noite, 42 pessoas dormem lá.

É extraordinária a rapidez com a que este fenômeno vem crescendo. Em 1950, o número total de turistas era de 25 milhões, quase dois terços deles buscavam a Europa, outros 29,76% preferia as Américas e um mero 1,98% visitava a África, enquanto o Oriente Médio e a Ásia-Pacífico ficavam com 0,79%. Em 2016 – ou seja, 66 anos depois –, o número de turistas pulou para 1,2 bilhões, a Europa caiu a 50%, as Américas a 16.55%. A África já recebe 4,52%, e o Oriente Médio 4,7%. A região da Ásia-Pacífico é a que mais cresceu nesse período, e agora chega a 24,2%, a segunda mais visitada no mundo. O que mais impressiona é ver o que sucederá em 2030, segundo as projeções da Organização Mundial do Turismo (OMT) das Nações Unidas. Em pouco tempo, ascenderemos a 1,8 bilhões: isso significa 5 milhões de turistas a cada dia. A Europa perderia mais espaço e ficaria com 41% desses visitantes, as Américas com 14%, a Ásia-Pacífico subiria um pouco mais, e chegaria a 30%, África a 7% e o Oriente Médio a 8%. Um mundo totalmente invertido em comparação com 1950.


O turismo já é hoje o maior empregador do mundo: uma pessoa de cada onze trabalha no setor. A China já supera os Estados Unidos como a maior nacionalidade entre eles. Em 2016, os chineses gastaram 261 bilhões de dólares em viagens, e gastarão 429 bilhões em 2020. A OMT destaca que em 2025 a China terá 92,6 milhões de famílias com uma renda entre 20 mil e 30 mil dólares por ano, outras 63 milhões com renda entre 35 mil e 70 mil dólares por ano, e mais 21,3 milhões com renda entre 75 mil e 130 mil dólares por ano. Se espera que uma grande parte deles viaje e gaste dinheiro. Quantas pessoas falam chinês e conhecem algo sobre sua idiossincrasia?


A proliferação de postos do McDonald´s, Pizza Hut e outras cadeias de fast food (comida rápida) nas partes mais belas das cidades levou o jornalista italiano Carlo Petrini de volta à sua terra natal, o antigo povoado piemontês de Bra, de tradição gastronômica. Lá, ele iniciou um movimento chamado slow food (comida lenta), que defende a frescura do produto, que deve ser da região, preservando a cozinha original e tradicional. A iniciativa agora conta com mais de 100 mil membros em 150 países, que defendem a identidade contra a globalização. Está claro que não se deve permitir que 1,8 milhões de pessoas perambulem no mundo sem introduzir algumas regulações globais sobre como limitar os aspectos negativos do turismo e relacioná-lo não só com o lucro, mas sim com a educação, a cultura e o desenvolvimento pessoal.


Entrar em contato com diferentes culturas, civilizações, alimentos, hábitos e realidades deve ser uma experiência que não deve se limitar somente ao dinheiro. Um paradoxo do mundo atual, que rechaça os imigrantes devido às diferenças culturais, mas aceita com gosto as pessoas que chegam como turistas e não como refugiados. O outro paradoxo são os dois mundos paralelos que coexistem: um, o real, sobre a pobreza e a violência que vemos nos noticiários, e outro do lugar que existe só para os turistas, as belas praias, a maravilhosa natureza e os fantásticos hotéis. Agora já se pode visitar o Vaticano depois do fechamento, pagando a modesta tarifa de 100 euros por pessoa, para fazê-lo tranquilamente, em grupos pequenos.


O futuro do turismo será baseado em dois diferentes parâmetros, com o dinheiro sendo o fator divisório? É óbvio que devemos vincular o turismo com a educação e a cultura. Uma proposta simples seria pedir a cada turista que quando compre uma excursão, uma passagem de avião ou solicite um visto, que compre também um livro bastante simples e esquemático onde pode aprender o máximo possível sobre o lugar que vai visitar em pouco mais de 10 horas. Uma pequena comissão formada por um professor de história, um de geografia e outro de arte, se estabeleceria em qualquer cidade, pequena ou grande, onde vive a grande maioria da população. Em todas elas há escolas com estes estudos. Realizariam um pequeno exame, cobrando uma pequena tarifa por um certificado para justificar seu trabalho extra. Os turistas podem escolher se sujeitar ou não à comissão. Ela pode esclarecer algumas perguntas extremamente simples, tais como: “qual é a capital dos países que vai visitar?”, ou “é um país independente?”, ou “é uma monarquia ou uma república?”, ou “quais são suas fontes de renda?”, ou “seus monumentos e sua arte representam diferentes momentos em sua história?”.



Fonte: Carta Maior