A resolução dos conflitos em diálogo direto entre as partes, os avanços legais e tecnológicos, tornam 2018 o ponto de inflexão


Os bares e restaurantes começam a ingressar em uma nova era. Passam a ter, gradativamente, um desempenho sem precedente, em face do aumento da produção e da redução de custos. Ou seja: com maior produtividade e eficiência, decorrentes da modernização trabalhista e do incremento da tecnologia em seus negócios. É o que diz o economista Fernando Marcondes de Mattos, proprietário do resort Costão do Santinho, em Florianópolis, que tem 600 apartamentos, 800 empregados, quadras de tênis, campo de golfe, cinco restaurantes temáticos e três bares. 

A opinião dele é compartilhada por três integrantes do mundo Abrasel, respectivamente donos de restaurantes em Belém, Brasília e Curitiba: Rosane Oliveira, Rodrigo Freire e Marcelo Pereira. Mas, segundo o professor de Economia da USP e especialista em relações de trabalho, Hélio Zylberstajn, a reforma trabalhista traz consigo uma conquista adicional. Além dos ganhos de eficiência e produtividade para as empresas, a reforma promove, como acentuou, uma “fantástica quebra de paradigma”: a possibilidade de se resolverem as divergências entre patrões e empregados no próprio local de trabalho. 

Ricky Marcellini, um dos sócios do Grupo Chalezinho, disse que, de fato, as mudanças introduzidas na legislação trabalhista, sobretudo quanto à primazia do acordado sobre o legislado, tendem a aproximar os empresários e os empregados na mesa de negociação, algo absolutamente novo em um país no qual se criou um suposto antagonismo, sob o falso pressuposto de que “o empregador sempre queria levar a melhor”. Quando concedeu a entrevista a esta revista, Marcellini estava em Boca Raton, na Flórida, onde o Grupo Chalezinho tem um dos seus dois restaurantes, sendo o outro localizado em São Paulo.

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O ano de 2018 marca o início de um Brasil com menos Estado e mais cidadania

O proprietário do Costão do Santinho considera que a modernização da legislação trabalhista, combinada com a “curva exponencial da tecnologia dentro dos estabelecimentos”, faz com que o Brasil, “até que enfim, comece a pisar no século XXI com 18 anos de atraso”. Está aberta, como antevê, a temporada de um “país mais oxigenado pelo empreendedorismo, em particular nessa área de bares, restaurantes, hotelaria, eventos corporativos ou de entretenimento, e, enfim, dos negócios do lazer e do turismo”.

Ex-professor de Economia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ex-secretário estadual de Planejamento, entre outros cargos que ocupou na esfera pública, Marcondes Mattos elaborou o planejamento do Costão do Santinho, para 2018, projetando a expansão de 2% no Produto Interno Bruto (PIB) nacional. “O Brasil vai, pouco a pouco, retomando o crescimento, o que cria um ambiente eleitoral propício às ideias progressistas, a começar pela reforma da Previdência, porque, sem ela as contas nacionais não fecham, de jeito nenhum”.

Em 2016, ele investiu R$ 5 milhões na reestruturação do Centro de Eventos do Costão do Santinho. Localizado no norte da ilha de Florianópolis, o resort a beira mar, de 750 mil metros quadrados de área verde e 200 mil quadrados de área construída, tem um complexo de piscinas aquecidas (internas e externas), oito quadras de tênis (de saibro), dois campos de futebol (society e oficial) e mais de 20 salas para eventos, com montagens que podem acomodar até 4 mil pessoas. O campo de golfe possui nove buracos, com iluminação para a prática noturna do esporte. “Já estamos sentindo os reflexos positivos da economia. A nossa expectativa é ter no Natal uma taxa de ocupação de 85% e, no Réveillon, de 95%. Isso significa, em ambos os casos, dez pontos percentuais acima do ano passado”, diz Marcondes de Mattos, ao acrescentar: “Estamos registrando, ainda, muita procura para eventos corporativos, nos segmentos da indústria farmacêutica, das montadoras de veículos e dos bancos. Nós nos preparamos para tanto, inclusive no que diz respeito às tecnologias. Os hotéis estão se transformando em uma indústria de tecnologia. Temos internet de alta velocidade nos apartamentos, Wi-Fi inclusive na praia, e todo o sistema de gestão informatizado. Agora, estamos colocando 20 totens para que as pessoas possam ter todos os tipos de informação: a hora da trilha, a programação do teatrinho, quais os restaurantes encontram-se abertos”. 

Ele disse que sentiu de imediato os efeitos das mudanças da legislação trabalhista no diálogo com a área sindical. “O nosso relacionamento, especificamente do Costão do Santinho, com o Sindicato dos Empregados da Indústria de Hotéis, Bares e Restaurantes, já melhorou. O diálogo mudou. Antes, era áspero. Há 10 dias, assinamos um acordo do banco de horas, chegando a um consenso do jeito que não conseguíamos anteriormente”. 

Há, de acordo com o proprietário do resort, um terceiro fator (além da melhora na legislação trabalhista e da utilização intensiva de tecnologia nos empreendimentos), que fará do ano de 2018 o princípio de um novo capítulo na história do setor de bares, restaurantes e hotelaria. “Os movimentos em defesa do meio ambiente, da revitalização das áreas públicas, em prol da cidade sustentável e criativa, como o realizado pela associação FloripAmanhã, que reúne todos os segmentos da sociedade, como empresários, sindicatos e professores, estão cada mais ativos. Criou-se a consciência de que o camarada não pode ficar de pijama, em casa. Tem de ir para a rua”.

Os brasileiros passam a admitir que conflitos fazem parte da vida

Para Hélio Zylberstajn, o Brasil inicia uma virada cultural de profunda repercussão no equacionamento dos seus problemas. É que, pela primeira vez em sua história, admite-se que os conflitos são normais no dia a dia das pessoas, e podem ser solucionados em uma conversa franca e aberta, disse ele no programa GloboNews Painel, apresentado pelo jornalista William Waack. Agora, com a reforma trabalhista, como argumentou o professor da USP, o Brasil passa a dar condições para que as partes dialoguem e cheguem ao seu acordo, sem ter de remeter as questões para a instância do judiciário, como se faz desde a década de 1940. 

“O nosso sistema sempre negou o conflito entre o capital e o trabalho. Há, evidentemente, entre o patrão e os trabalhadores uma convergência de interesses. Os dois querem que a empresa vá bem, que o emprego permaneça. Mas, há também divergências. O trabalhador gostaria de ganhar mais e trabalhar menos. E o empresário gostaria de pagar menos e ter mais trabalho do empregado. Essa divergência está na base da relação. Não é, porém, uma divergência que leva as pessoas a se metralharem”.

Em entrevista telefônica à Bares & Restaurantes, Zylberstajn conclamou os empresários da alimentação fora do lar para que fiquem atentos à Medida Provisória que o presidente Michel Temer vai editar, “detalhando mais um pouco essa questão do trabalho intermitente”. E acrescentou: independentemente da MP, no entanto, “está criada essa categoria de contrato. Para o setor de alimentação, de bares e restaurantes, é maravilhoso, porque, hoje, todo trabalho intermitente tem que ser informal. A CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) não prevê esse tipo de trabalho. Agora, um restaurante pode ter um trabalhador intermitente. Isso vai ser legal, pode formalizar, ele vai ter todos os direitos”.

Fonte: Revista Bares & Restaurantes, edição 118. A matéria na íntegra, está disponível na versão impressa. 
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