Três garçons mudaram o rumo de um restaurante e de suas vidas após aceitarem uma proposta repentina do antigo chefe

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Atender as mesas, repassar os pedidos para a cozinha e garantir a cerveja mais gelada para os clientes eram parte das tarefas diárias de Jucélio Fernandes, Jailson Medeiros e Mário de Souza, então garçons da Barraca do Caranguejo, na praia de Ponta Negra, em Natal, no Rio Grande do Norte. Em agosto de 2009, uma proposta inesperada deu a eles oportunidade de se tornarem sócios-proprietários do negócio, mas foi preciso apostar alto. Para fazer dar certo, os três usaram os anos de experiência na brigada de frente a favor deles – e do empreendimento.


Mário de Souza se lembra bem de quando aceitou assumir o restaurante, junto com os colegas. O estabelecimento, que já funcionava há 19 anos, passava por uma crise, com dívidas acumuladas, que fez com que o então dono propusesse passar o negócio para os três funcionários. O preço combinado foi o pagamento de todas as dívidas da casa que, de acordo com o ex-garçom, chegavam a quase R$ 600 mil.  Havia ainda uma condição: só os três seriam aceitos na nova sociedade. “Tentamos colocar mais uma pessoa, mas ele não aceitou”, confessa Mário, se referindo ao antigo patrão, que frisou que o convite era direcionado de acordo com a confiança que ele tinha no trabalho do grupo. A oportunidade foi a porta de entrada para os garçons no mercado empreendedor.


Para os novos proprietários foi preciso coragem para aceitar a proposta. “Foi assustador, mas sabíamos do potencial da casa, porque já trabalhávamos lá há algum tempo”, conta Mário. Para dar continuidade às atividades do estabelecimento, cada um investiu como pôde. Jailson vendeu o carro e Mário, além de fazer um empréstimo de R$ 5 mil com a própria filha, retirou o banco traseiro de seu automóvel para ter mais espaço e fazer as compras para o restaurante.


Investimentos


Somada toda experiência de Jailson, Jucélio e Mário, são aproximadamente 80 anos de trabalho no setor de bares e restaurantes; não só em Natal, mas também em outros estados do nordeste e sudeste do país. A convivência com diferentes públicos e visões administrativas, além de conhecimento sobre o funcionamento da própria Barraca do Caranguejo foram fundamentais para que identificassem o que precisava mudar na casa. “Sabíamos onde estavam os erros e onde atacar primeiro para fazer com que desse certo”, comentam.


Uma das primeiras providências foi investir na equipe. Os empreendedores queriam que o atendimento Barraca do Caranguejo fosse considerado excepcional e conhecer de perto as pessoas que trabalhavam lá e suas necessidades foi importante para reter bons funcionários quando os três assumiram o restaurante. Além disso, eles buscaram novos fornecedores e colocaram em ordem a gestão financeira do negócio que, na percepção de Márcio, precisava de ajustes.


Para colocar o restaurante de volta aos trilhos, os novos donos precisavam se garantir em áreas que não conheciam com profundidade, como ambiente legislativo do setor, gestão financeira e de recursos humanos. Cientes disso, convidaram Sandra XXXDantas, uma ex-funcionária, para cuidar destes assuntos. Mário conta que ela foi peça fundamental no processo de evolução da casa. “A Sandra passou tudo para gente. Não sabíamos por onde começar e ela montou a parte financeira, fiscal e pessoal. Se não fosse por ela, não saberíamos para onde ir”, admite.


A partir daí, dividiram as funções entre os três. Mário ficou responsável pelo financeiro, Jucélio pelo atendimento e Jailson pelas compras, dando um suporte nas outras duas áreas. Para eles, é essencial a presença no salão. “Ficamos no salão como se fossemos maitres e gerentes. Gostamos de saber como está o padrão da comida, o atendimento. Pouca gente sabe que somos donos”, pontua Mário.


Outras ações foram colocadas em prática para melhorar o negócio. Compraram maquinário novo, adquiriram câmara fria, trocaram o mobiliário e o piso, e fizeram uma reforma na cozinha. Mas, para eles, o mais importante foi voltar com alguns produtos para o cardápio depois do fim de um contrato de exclusividade com um antigo fornecedor. Atentos às demandas dos clientes, providenciaram também, por meio de uma parceria com alguns hotéis, um serviço diferenciado de translado.


No início, os sócios trabalhavam cerca de 16 horas por dia. Em quatro meses, os salários atrasados foram quitados e, com 1 ano, já tinham dado baixa em todas as carteiras e assinado, sem pendências, a dos que ficaram na nova empresa. Hoje, segundo Mário, a dívida da Barraca do Caranguejo está praticamente quitada. O empresário comenta ainda que, inspirado no exemplo dos três sócios, alguns funcionários decidiram investir em negócios próprios. Para aqueles que querem seguir a mesma trilha, ele aconselha: “Não desista. Se você tem o seu sonho, vá atrás. Não queira começar de cima, com humildade a coisa dá certo”.


Mesmo diante de um cenário onde boa parte do setor sofreu as consequências de sua pior crise, eles apontam que o atendimento de excelência, pelo qual a casa é conhecida entre o público, foi o principal ingrediente para manter o negócio na ativafuncionando. É justamente nesse ativo que eles apostam para construir um futuro melhor para o restaurante e para aqueles que fazem da Barraca do Caranguejo um caso vitorioso em Natal.

 

Serviço

Barraca do Caranguejo

Endereço: Av. Erivan França, 1180 – Orla da Ponta Negra – Natal/RN 

Telefone: (84) 3219 5069

Site: www.barracadocaranguejo.com


Reportagem originalmente publicada na edição 118 da revista Bares & Restaurantes