Artigo de opinião de Paulo Solmucci para o site Destrinchando


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O Inhotim faz parte do mapa mundial das artes. Está blindado. Os que veem a vida com o olhar sempre tendendo ao pessimismo, acham que o privilégio de Minas, por sediar um dos maiores museus a céu aberto do planeta, acabará sendo tão breve quanto uma chuva de verão. Os que são naturalmente inclinados ao otimismo anteveem que o idealizador do Inhotim acabará se desvencilhando de qualquer punição da Justiça.

As pessoas ligadas às artes plásticas (estejam elas em Belo Horizonte, no Brasil afora e além-fronteiras) receberam com espanto a notícia de que Bernardo Paz, o empresário que criou o Instituto Cultural Inhotim em 2004, foi condenado pela Justiça Federal, em primeiro grau, a nove anos e três meses de prisão, sob a acusação de lavagem de dinheiro, no montante de US$ 98,5 milhões. O advogado Marcelo Leonardo já recorreu da sentença. Situo-me entre os extremos do otimismo e do pessimismo. E, nesta condição, aqui faço minhas conjecturas. Ei-las. Pode até ser que Bernardo Paz tenha de cumprir alguma sanção judicial. Realmente não disponho de conhecimento da área advocatícia para dizer se isso acontecerá ou não.

Mas, de qualquer modo, a gente sabe que os todos os que se enredam no cipoal da Justiça brasileira dificilmente escapam ilesos, inclusive porque os processos geralmente se arrastam por anos. É muito difícil se livrar inteiramente dos incômodos, ainda que o alegado réu seja um inocente. A lerdeza das decisões judiciais é, por si só, uma punição para qualquer pessoa, mesmo aquela que, no final das contas, nada deve à lei.

Quanto à sobrevida do Inhotim, aí não tenho a menor dúvida. Ele é eterno. Essa magnífica mistura de museu com jardim botânico, habitada por 700 obras de artistas de mais de 30 nacionalidades, tornou-se um patrimônio global da arte contemporânea. Espalhadas em uma área de 140 hectares, lá estão obras de grandes nomes, como, entre tantos outros, os de Hélio Oiticica, Amílcar de Castro, Cildo Meireles , Adriana Varejão, Franz Ackermann e Larry Clark.

O Inhotim impulsionou o turismo internacional de Belo Horizonte e região, tornando-se o ponto de partida para roteiros que incluem Diamantina, Ouro Preto, Tiradentes e, naturalmente, o complexo arquitetônico da Pampulha. O magnífico parque temático da natureza brasileira e das artes plásticas contemporâneas, incrustado em Brumadinho, a 60 quilômetros da capital mineira, é um dos sinais mais positivos da Minas Gerais de hoje. 

O deslumbrante museu está em linha com a modernidade do agronegócio mineiro, cujas receitas com as exportações cresceram 280% nos últimos doze anos. A cafeicultura é a estrela de primeira grandeza desse pujante universo da economia estadual. Minas, sozinha, responde por 54% da produção brasileira de café. O Inhotim segue o tom da melhor orquestra brasileira de música erudita, a Filarmônica de Minas Gerais. O museu/parque de Brumadinho alinha-se com o internacionalíssimo Grupo Corpo.

Dialoga com o Vale da Eletrônica de Santa Rita do Sapucaí, e com as mais de 300 startups do San Pedro Valley, no bairro de São Pedro, vizinho à Savassi. Deve-se sublinhar que Minas tem a segunda maior concentração nacional de empresas de biotecnologia, sendo superada apenas por São Paulo. Minas e os mineiros não abrem mão de nada disso. É assim que o nosso Estado põe os pés no século XXI. O Inhotim é um dos faróis que clareiam o presente e iluminam o amanhã de Minas e do Brasil. Independentemente do que tenha acontecido na gestão de seus negócios, o fato é que Bernardo fez florescer um vigoroso contraponto de inteligência, sensibilidade, fraternidade e paz, neste mundo de agora, às vezes tão carente de esperança e fé.

Talvez Bernardo tenha cuidado demais dos afetos, desdenhado os números. É bastante provável que dentro dele haja crescido, desmedidamente, a alma de artista. Há um menino, um moleque colecionador de quadros, morando dentro do seu coração.

A Justiça até pode ser cega. A gente, nunca.

*Artigo originalmente publicado no site Destrinchando