Artigo do presidente da Abrasel em São Paulo, Percival Maricato



Estamos muito atrasados com relação a cultura e consumo do vinho no país. Ainda é ínfima a parte da população que opta pela bebida, e menor ainda a de estabelecimentos que a servem, ou pelo menos que a servem com razoável qualidade na diversidade de marcas, serviço etc. Bares e restaurantes - mesmo padarias, lanchonetes e similares - são obrigados, para bem atender, fidelizar clientes e aumentar a receita, a disponibilizar algumas marcas de vinho de boa relação custo-benefício, acrescido de informações sobre a bebida. E não só garrafas de 750 ml, comumente usadas, mas também pelo menos um tinto e um branco para serem servidos em taça, como meia garrafa ou até de menor porte (125ml). Não se pode reclamar, como no passado, que estas não são fáceis de acessar ou com preços inadequados. Há de tudo no supermercado da esquina, não faltam vendedores circulando, há centenas de possibilidades na internet. O que nos parece faltar é motivação e informação.

É comum adentrar um desses estabelecimentos, pedir vinho e deparar-se com entraves a uma escolha satisfatória, seja pela falta de serviço em taça e meia garrafa, ou pela falta de variedade em diversidade, qualidade e preço. Há milhares de pontos de vendas mesmo em cidades grandes, em bairros nobres, onde botequins de classe não tem um vinho adequado – ou às vezes até têm o produto, mas aí falta o serviço. Muitas casas se servem de supermercados bem abastecidos, mas escolhem duas ou três marcas populares e ficam nisso.

O vinho tem um imenso potencial de crescimento, mas poucas organizações dispostas a lutar por esse mercado. Algumas poucas entidades associativas frágeis, recebem apoio de alguns poucos produtores conscientes e atingem poucos consumidores. As importadoras são muitas, dispersas, preferem competir entre si e agir individualmente; disputam apenas clientes de maior renda, estabelecimentos charmosos e os poucos formadores de opinião que conhecem bem a bebida. Ninguém ataca pelo meio, não se muda de tática. Quando se vai à degustações de vinho, encontramos, anos a fio, sempre os mesmos convidados; tropeça-se aqui ou acolá com um dono de botequim famoso, um entre milhares deixados do lado de fora por não fazerem parte dessa elite (no bom sentido). 

Como resultado, em São Paulo, se alguém resolver descer da Avenida Paulista em direção aos Jardins ou no sentido inverso, para o Centro, e entrar num restaurante de média qualidade ou bar de qualidade, pedir uma carta de vinho, mesmo que ela exista, estranhará a falta de informação do garçom sobre – as poucas – variedades disponíveis, os preços disparatados etc. Note-se que estamos falando do coração da cidade que é capital econômica e gastronômica do país, que concentra o maior número de consumidores potenciais da bebida, que tem clima propício a ela ao longo do ano. 

É normal que se entre nesses bares em determinada ocasião e se tenha disponível duas ou três marcas e se volte no mês próximo e se encontre outras duas ou três totalmente diferentes. Muitas vezes, elas não mudam e são as chilenas Concha y Toro, Santa Helena e Gato Negro, que fizeram trabalho competente e agressivo em anos anteriores, ou outras três compradas no supermercado, aproveitando promoções tipo compre 2 e leve 3. Não seria melhor optar por vinhos de marca desconhecidas e com boa relação custo-benefício, ao qual se somaria informações, despertando curiosidade e a vontade do cliente degustá-los?

O que faltam são, pois, informações para esse tipo de intermediário: proprietários de pequenos e médios estabelecimentos e que poderiam, por meio deles, chegar aos clientes. É uma tarefa imensa, mas se quem lida com o mercado de vinho, tem que pensar em uma estratégia, em táticas e campanhas de educação e marketing que atinjam o andar de baixo.