Com uma equipe comprometida e um público fiel, o Suricato tem a fórmula que conecta os significados e valores da cidade com o bar

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Além de serem fontes de geração de renda, bares e restaurantes cumprem uma valorosa missão social nas comunidades em que estão inseridos. O bar é um ambiente de socialização no âmbito profissional e pessoal, local de compartilhamento cultural e de promoção à qualidade de vida. Em Belo Horizonte, “capital dos botecos”, um estabelecimento singelo vem chamando a atenção e conquistando um público engajado por assumir tão bem esse papel.

Localizado no bairro Floresta, zona leste da capital mineira, o Suricato além de reunir gastronomia e arte, é espaço de um belo trabalho de inclusão social. Já no primeiro contato com o bar, os clientes notam um ar diferente dos estabelecimentos convencionais. A fachada de uma casa simples e um caminho livre até o quintal dos fundos, formam um ambiente familiar e acolhedor. Mas o principal diferencial do bar, nota-se sutilmente, ao longo da noite.  Quebrando estigmas sociais, a casa, com supervisão de uma terapeuta ocupacional, é mantida apenas por funcionários com algum diagnóstico de transtorno mental. Pessoas que buscam no trabalho uma outra forma de tratamento para os distúrbios psíquicos. O toque mais humanizado que caracteriza o serviço, combinado com uma boa oferta de apresentações artísticas e receitas saborosas, tem cativado muitos clientes. 

Implementação

O Espaço Cultural Suricato, no qual foi implementado o bar, é uma extensão de um dos núcleos que compõem a Associação Suricato, fundada em 2004. A entidade surgiu como resultado de uma necessidade manifestada pelos próprios frequentadores da Rede de Saúde Mental de Belo Horizonte, que buscavam um tipo diferente de tratamento. Em um movimento de luta antimanicomial conseguiram o apoio da Prefeitura e o projeto passou a ser desenvolvido, sendo instituído em quatro núcleos de produção: marcenaria, mosaico, costura e culinária.

Em 2014, surgiu a possibilidade de expandir o trabalho realizado nos núcleos para um lugar onde as produções pudessem ser apresentadas e comercializadas. Marta Soares, terapeuta ocupacional da Prefeitura de Belo Horizonte e madrinha do projeto, conta que a ideia era “abrir as janelas e dialogar com o mundo”, uma maneira de sensibilizar as pessoas para o trabalho realizado pela Associação. A ideia do bar encaixou perfeitamente neste propósito. “Pessoas que em outros tempos estariam internadas em hospitais psiquiátricos, isoladas do seu meio social, do grupo familiar, agora são tratadas na comunidade, com a possibilidade de participar da vida da cidade, sendo incluídas pela via produtiva”, argumenta Marta. Assim, surgiu o Espaço Suricato, com a culinária como carro-chefe e principal forma de atrair as pessoas. 

O nome, original como a proposta de funcionamento, é uma referência ao animal suricato - mamífero africano de pequeno porte que, para sobreviver às difíceis condições predatórias da savana, vive em colônia com sistema de revezamento para vigia e proteção. Hoje, envolvidos com o trabalho no bar, estão 16 associados. 

O encontro entre cidade, cultura e loucura

No Suricato tem espaço para tudo e todos. Com um palco montado próximo às mesas, recebe de quinta à sábado diversas intervenções artísticas e culturais, da poesia à dança: artistas já reconhecidos e outros que estão em contato com o público pela primeira vez. Na música, mesmo fora dos momentos de apresentação, é possível notar a diversidade, que flui, naturalmente, do sertanejo ao clássico italiano. 

Na casa, que comporta de 80 a 90 clientes, não é difícil ter dias com todas as mesas já reservadas. Marta conta que, nessa trajetória, também começaram a fazer parcerias para a programação, como é o exemplo do Instante da Música Negra (Imune), que uma vez por mês assume o palco.  O bar se destaca também na gastronomia. Um dos pratos principais da casa é a linguiça calabresa ao molho de tamarindo, que já rendeu outras matérias na imprensa local. As tortas doces também são famosas no Suricato, desde 2015, quando começaram a produção para arrecadar dinheiro para o equipamento de som.

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Financiamento solidário

Não foi só para o equipamento de som que o pessoal da Suricato precisou planejar outras maneiras de arrecadação de dinheiro. Recebendo apenas R$10 mil por mês da Prefeitura para todos os quatro núcleos mais o Espaço Cultural, sempre que surge uma demanda extra de gastos, é necessário contar com outras fontes de renda, muitas vezes com a colaboração dos clientes. Recentemente, lançaram uma vaquinha virtual, no modelo de crowdfunding e organizaram um leilão de arte com doações para pagar a dívida de uma reforma na cozinha, que não atendia aos padrões da vigilância sanitária.
Valter de Carvalho, mais conhecido como Valtinho Folha Seca, trabalha no Espaço desde a inauguração, sendo responsável pelo som e apoiando como garçom. Diagnosticado com o transtorno da bipolaridade em 2005, conta que nunca ficou tanto tempo em um mesmo serviço e se sente orgulhoso. “Já temos os amigos da casa e da causa. Quando procuram o Suricato, não procuram só um bar, querem um lugar diferente, em que as pessoas se relacionem de uma forma diferente”, conta. 

“Apesar de lembrar todo dia porque é uma luta diária, saímos desse clima denso para trabalhar com arte, com cultura e com a alegria”, explica Valter. Segundo Marta, uma premissa da saúde mental é de que a doença seja colocada em suspensão, dando foco a outros aspectos da vida.
Marta reforça esse princípio do acolhimento e do respeito às diferenças, o que é perceptível tanto no modo de tratamento com os associados quanto no convívio deles com os clientes. Não existe aquela história de “cada um no seu quadrado”. Em um ambiente em que a cozinheira sai durante a apresentação para sambar junto ao público, todos se misturam. 

A terapeuta conta que nunca houve desrespeito por preconceito dos clientes em relação aos funcionários ou algo que prejudicasse essa convivência. Pelo contrário. O que define o clima na casa muitas vezes é a empatia. Pode-se dizer que o Suricato é um serviço duplo, pela e para a sociedade. De um lado, o bar que oferece uma experiência única de entretenimento na noite belo-horizontina, do outro, um espaço de tratamento para distúrbios que são da condição humana, aos quais todos estão suscetíveis. Afinal, de louco, todo mundo tem um pouco.

Serviço:
Espaço Cultural Suricato
Onde: Rua Souza Bastos, 175 Floresta - Belo Horizonte MG
Quando: De quinta a sábado, a partir das 19h
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