Bairros próximos da Rocinha, tiveram queda de 60% no movimento em dias de intenso confronto na favela.

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O arquiteto Rogério Mendes, 41, já foi assaltado à mão armada e teve o carro levado quatro vezes. Ele e a mulher moram no Grajaú, na zona norte do Rio de Janeiro, e reduziram as saídas à noite para bares e restaurantes. "Não vamos mais de carro para certos lugares. A preocupação é o perigo no caminho, na hora de estacionar, tudo. A gente saía na Tijuca e deixamos de ir. De vez em quando vamos para a zona sul, mas de táxi." Como alternativa, o casal chama amigos para beber em casa. "Não saímos mais com tanta frequência. Você pensa no táxi, fica caro."

A violência no Rio tem desanimado muitos cariocas, como Mendes, a sair de casa à noite, alterando hábitos e traços culturais da cidade. Os índices de criminalidade em alta, além da crise econômica, representaram um baque no setor de bares e restaurantes. Os confrontos em favelas nas últimas semanas, que afetaram principalmente moradores dessas localidades, agravaram o cenário e tiveram reflexos negativos na vida noturna de outras áreas. Bares e restaurantes de Leblon, Gávea e São Conrado, bairros próximos da Rocinha, tiveram queda de 60% no movimento em dias de intenso confronto na favela, no final do mês passado. O levantamento foi feito pelo SindRio (Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro).

O período coincidiu com o Rock in Rio, quando o setor esperava um aumento de 30% no faturamento. "Nos bairros próximos da Rocinha essa expectativa foi totalmente frustrada e houve uma queda em dobro", diz o presidente do SindRio, Pedro de Lamare, sócio da rede Gula Gula, com 14 restaurantes nas quatro zonas da cidade. O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Rio, Roberto Maciel, fala em período "desastroso". "É helicóptero, carro da polícia passando toda hora, boato. A TV o dia inteiro massacrando. Isso cria pânico."

As consequências da violência no setor, no entanto, não se restringem a esses dias ou à zona sul da cidade. O impacto é sentido em vários bairros pelo menos desde o final da Olimpíada, em agosto do ano passado, de acordo com associações. De janeiro a junho deste ano, o faturamento caiu 40%, e mais de cem estabelecimentos fecharam, segundo o SindRio. Bairros do centro, como Santa Teresa, e da zona norte, como Tijuca e Vila Isabel, também têm sofrido com a criminalidade. Apenas no boulevard 28 de Setembro, tradicional reduto do samba em Vila Isabel, 68 estabelecimentos fecharam as portas nos últimos meses.

'CLIMA ESQUISITO'

Pesquisa Datafolha no começo de outubro apontou que 72% dos cariocas diziam que, se pudessem, se mudariam do Rio devido à violência. Um terço dizia ter mudado de rotina nas semanas anteriores. Dos cariocas entrevistados pela Folha, muitos afirmam que, nos últimos meses, sentem um "clima esquisito" nas ruas quando escurece. A psicóloga Fernanda Memere, 27, mora na Tijuca e diz que, à noite, evita andar a pé. "Tem tido muito assalto, mesmo em lugares de muito movimento. Está um clima estranho. Outro dia fui comer no shopping com uma amiga, às 19h, e pedimos Uber só para não descer a rua", afirma. Fernanda explica que "arma um esquema" para não deixar de fazer atividades de noite, mas o medo desanima. "Não me impede de sair, mas é um fator contra."


Nem mesmo moradores do Leblon, bairro da zona sul com um dos metros quadrados mais caros do país, se sentem tranquilos. O psicanalista José Francisco Silva, 76, lamenta que as ruas do bairro estejam mais vazias. "Desde o início do ano, comecei a ficar preocupado de andar na minha rua a pé de noite. Então eu pego carro ou táxi, o que para mim é absurdo. Nunca tinha feito isso em 50 anos no Leblon. Ou então fico em casa, porque você perde a vontade de passear", diz.

A preocupação de clientes impacta também o horário de funcionamento de muitos restaurantes. "A noite está terminando mais cedo, às 23h ou 23h30, em função disso. Os bares são menos afetados, mas os restaurantes, que têm clientes mais velhos, foram muito atingidos", diz Maciel. Lamare, do SindRio, concorda. "Quando as UPPs na Tijuca foram criadas, o movimento em bares e restaurantes aumentou em uma hora e meia. Agora vemos o contrário." Outra tendência é a predileção por restaurantes em shoppings, por segurança. "No Rio, no turno da noite, as lojas de rua sempre venderam mais do que as de shopping. Há quatro meses isso se inverteu. É um sinal claro do impacto da violência", afirma Lamare. Segundo ele, o carioca tem uma tradição de comer e beber na rua, do lado de fora do restaurante ou bar. "É uma característica cultural muito forte, que fica comprometida."

O analista de logística Leonardo Moura, 34, se encaixa nesse perfil. Desde que foi assaltado à mão armada, há algumas semanas, ele só vai a restaurantes dentro de shopping e quase não sai de noite. "Esses eventos têm um potencial traumático muito grande. Qualquer pessoa ou carro que se aproxime eu já começo a tremer, ter taquicardia." Já a engenheira Gizelle Quintans, 37, não foi assaltada, mas também mudou os hábitos da família há cerca de três meses. "A gente saía sempre para jantar, em restaurante japonês. Agora passamos o dia no clube e de noite pedimos comida em casa", conta ela, que mora na zona sul.

Assim como Gizelle, outros cariocas estão buscando o serviço de entrega como forma de driblar a violência. "As pessoas não querem sair de casa, então o delivery, que já vinha crescendo, aumentou mais ainda", disse Maciel. O serviço de entrega pode ser uma opção, diz Lamare, mas ele se preocupa com o impacto da crise no setor a longo prazo. "O número de estabelecimentos está diminuindo e isso demora para recuperar. A questão hoje é quem vai sobreviver à crise no Rio."


Fonte: Folha de S.Paulo