Abertura de cafés e restaurantes contribuem para renovar a Vila Madalena e afastá-la da imagem negativa deixada durante a última Copa do Mundo


Representante da quarta geração de uma família ligada ao café, Bruno Souza vive pelas estradas mineiras. Passa três, quatro dias em Belo Horizonte, onde comanda a Academia do Café desde 2011, e logo se manda para a fazenda Esperança, em Campos Altos, também em Minas, em uma viagem que dura ao menos três horas.

Como a capital de Minas Gerais recebeu bem a Academia, espaço para consumo de cafés especiais e cursos sobre o tema, Souza começou a planejar a abertura de uma unidade em São Paulo. Com o projeto, veio o receio. Para o empresário e fazendeiro, que já estivera na capital paulista em breves passagens, a cidade estava associada ao excesso de trânsito e de frieza no convívio social.

Sua opinião só mudou quando conheceu melhor a Vila Madalena, depois da inauguração da Academia do Café no bairro da zona oeste paulistana, em maio deste ano. Não que ruas como Mourato Coelho e Fidalga sejam exatamente tranquilas, mas o tráfego de veículos é inferior ao de bairros próximos, como Itaim Bibi e Vila Olímpia. Comparada a essas áreas, uma vantagem da Vila Madalena é contar nos seus arredores com duas estações de metrô, a que leva o nome do bairro e a Fradique Coutinho.

Além disso, Souza logo se tornou próximo de clientes e vizinhos paulistanos. Para ele, "existe um movimento no bairro em direção a lugares mais acolhedores". Espaços pequenos, continua ele, tornam o bairro mais atrativo não apenas pela atmosfera mais tranquila. Em geral, locais assim expõem uma nítida especialidade em um produto ou em um tema. O foco é claro. "O que interessa aqui é o café. Não queremos ser uma lanchonete que também vende café." A revista sãopaulo identificou ao menos dez novas casas nesse estilo. Recém-abertas ou prestes a inaugurar no bairro, são convidativas em suas dimensões modestas.


Abertos nos últimos dez meses, esses locais —especialmente cafés— contribuem para renovar a Vila Madalena e afastá-la da imagem negativa deixada durante a última Copa do Mundo. Ao longo da competição, em junho e julho de 2014, o bairro foi tomado por milhares de paulistanos e turistas. Ruas como a Aspicuelta amanheciam imundas, mas a muvuca não deixava só sujeira. Cresceram os números de furtos, brigas e acidentes de trânsito. "Aquela vibe da Copa foi ruim para a Vila Madalena", diz Giuliano Girondi, sócio de uma start-up voltada para o marketing digital. Ele morou por quase dez anos no bairro e se mudou para o Paraíso depois de se casar. Mas continua habitué da Vila, onde vai pelo menos duas vezes por semana. A empresa de Girondi não tem uma sede, no sentido convencional da palavra. Ele e os funcionários trabalham ora em casa, ora no espaço de coworking Viveiro. A terceira unidade do Viveiro está instalada em um sobrado ao lado do Beco do Batman, onde também funciona o Isso é Café. Ambos abriram em maio.

No bem-sucedido projeto da arquiteta Rebeca Trindade, chama a atenção o segundo piso da casa, com vista para os grafites do Beco, um dos locais mais visitados da Vila Madalena. Ainda está lá a boca vermelha dos Rolling Stones, grafitada por Ron Wood, em fevereiro de 2016. Assim como a maior parte dos grãos da Academia vêm da fazenda de Campos Altos (MG), o diminuto Isso É Café oferece, sobretudo, a bebida oriunda das colheitas da Fazenda Ambiental Fortaleza, em Mococa (SP). Ambos integram essa leva de novos cafés do bairro, que acaba de ganhar outro representante. É a segunda unidade do Takko, instalado em um espaço que não vai além de 20 m² (a primeira casa fica na Vila Buarque). Voltados aos grãos bem selecionados, com variadas formas de preparo, esses empreendimentos se espalham por um bairro já associado ao café de qualidade. Aberto em 2011 na Fradique Coutinho, o Coffee Lab, da barista Isabela Raposeiras, tornou-se referência na Vila Madalena para quem faz café e para quem o aprecia.


MÚSICA

Na rua Fidalga, duas quadras depois do Takko, há um totem vermelho que não passa despercebido pelos pedestres. É uma obra do artista plástico Guto Lacaz, que anuncia a casa de shows e restaurante Tupi or not Tupi. O local indica que a inclinação do bairro para espaços intimistas não se restringe aos cafés. Nesses, o protagonista está na xícara; no Tupi, ele ocupa o palco. Com capacidade para cem pessoas, o lugar já recebeu nomes como João Donato e João Bosco. Nas próximas semanas, terá Arrigo Barnabé, Rosa Passos e Banda Mantiqueira, entre outros.


O Tupi serve café da manhã, almoço e jantar, mas o prato principal é mesmo a música brasileira. Além das apresentações, há cursos sobre o assunto. "A abertura da casa não é só um ato de resistência da Vila Madalena, mas também de resistência cultural", conta a empresária Ângela Soares, moradora do bairro há mais de 25 anos. Antes da inauguração do Tupi, em março, Ângela compartilhava com seus três sócios a preocupação com a localização da casa, no miolo da Vila. Ela tinha receio de que o pessoal mais jovem, das baladas madrugada adentro, pudesse ocupar o trecho mais tranquilo da Fidalga, onde fica o Tupi, uma casa aberta para a rua. Não é o que tem acontecido. "Nosso público tem 35 anos para cima. Não é a moçada de 20, que frequenta os bares da esquina", diz ela, em referência ao movimentado cruzamento das ruas Mourato Coelho e Aspicuelta.


Pequenos empresários à frente desses novos lugares da Vila costumam torcer o nariz para os bares de grande porte que dominam o corredor da Aspicuelta. Entre outras críticas, dizem que são massificados e não guardam identidade com o estilo mais despretensioso do bairro. "Bares como os nossos contribuem para a diversidade. A variedade de estilos é uma característica importante da Vila Madalena", responde Fabio Salomão, sócio do Posto 6, do Patriarca e do Salve Jorge, os três localizados na Aspicuelta. Inaugurado em 2002, o Posto 6 foi um dos bares pioneiros dessa vertente. Segundo Salomão, havia até consumo de crack nas imediações antes da abertura da casa. Para ele, o boom boêmio contribuiu para a revitalização desse trecho da Vila. Aliás, engana-se quem imagina que a expansão dos pequenos significa a decadência dos grandes. Às 22h da última quarta, dia 27, os bares do burburinho da Aspicuelta estavam praticamente lotados, com exceção do Patriarca.



DIVERSIFICAÇÃO


O jornalista e fotógrafo Fernando Costa Netto fez sua primeira incursão como empresário de bares justamente no Posto 6 e logo se tornou sócio de casas vizinhas. O movimento "tomou uma proporção que perdeu a graça para mim", diz ele, que se desligou há cerca de cinco anos desses estabelecimentos mais amplos e concorridos. Costa Netto identifica um avanço do bairro rumo à diversificação. "Há um fluxo de pessoas descobrindo a Vila Madalena. Vem gente para lançar megaprojetos e outros —criativos, mas com baixo poder de investimento— chegam para abrir lugares menores", avalia.

Para ele, existem problemas no bairro, como o persistente som alto de alguns bares, mas as vantagens prevalecem. Costa Netto ressalta a mistura de residências e pontos comerciais, onde se vê gente andando pelas ruas ao longo do dia e da noite. Ele está no comando da DOC Galeria, dedicada à fotografia, em sociedade com Monica Maia. Também na Vila, é claro. Mas não perdeu o fascínio pelo clima boêmio. No dia 21 deste mês, ele, Monica e cinco sócios abrem um bar próximo ao Beco do Batman e a poucos metros do Isso É Café. Uma casa em reforma, aos poucos, ganha os contornos do Bar do Beco. O espaço onde era o quintal será ocupado por mesas e cadeiras. O endereço? Rua Aspicuelta, 17. Do amplo Posto 6 ao pequeno Bar do Beco, com restaurantes, lojas, residências e um prédio de escritório entre um e outro, a Aspicuelta se revela a melhor síntese da Vila Madalena.

Fonte: Revista sãopaulo