*Por Paulo Somucci, presidente executivo da Abrasel

Quando se quer revigorar uma cidade, os arquitetos urbanistas do mundo inteiro apontam para a mistura dos usos. Ou seja: que a moradia esteja perto dos locais de trabalho, estudo, compras, recreação infantil, diversão e atendimento à saúde. A palavra-chave é misturar. Quanto mais próximos de casa estiverem o hortifrúti, a loja de ferragens, o bar, o restaurante, a escola, o hospital, a lotérica e assim por diante, melhor se torna o nosso cotidiano.

Esta é a síntese da cidade desejável. É a que não o obriga a entrar no automóvel para as tarefas de rotina, como ir às compras, ao trabalho ou à escola. Quando excepcionalmente se vai a algum lugar mais distante, a opção deve ser o transporte coletivo, não o automóvel. A cidade misturada, que favoreça a predominância dos percursos diários de curtas distâncias, requer bons sistemas públicos de mobilidade, inclusive ciclovias.

As mais fascinantes cidades do mundo são assim, não importa se dominadas por altos edifícios, como Nova York, ou por prédios de cinco andares, como Paris. Aliás, as cidades europeias são do jeito parisiense. Há muitas, também, na Austrália e no Canadá. Nos Estados Unidos, tudo foi feito para o uso intensivo do automóvel. Mas os americanos agora reveem o modelo do carro-dependência, começando a mesclar os usos urbanos, como vem ocorrendo em San Francisco e Chicago.

Os urbanistas chamam as cidades de usos misturados de cidades compactas. O oposto das cidades compactas são as cidades espalhadas. Este é o caso de quase 100% das cidades brasileiras, inclusive Fortaleza. Mora-se aqui, trabalha-se lá longe, estuda-se em outro ponto distante da moradia e do serviço. É o trança-trança de automóveis, ônibus, vans e motos. O caos é recorrente nas cidades da Nigéria e da Índia. O Brasil de hoje também se insere na geografia do subdesenvolvimento urbanístico.

Será muito útil a todo o País se alguma metrópole brasileira realizar a tão desejada mudança de cenário, substituindo a cidade espalhada pela cidade de usos mistos. Mas eis que Fortaleza preparou-se para se tornar esse notável paradigma. O Fortaleza 2040, cujo Plano de Mobilidade é coordenado pelo arquiteto e urbanista Fausto Nilo, é da maior competência. Colocado em prática, de forma gradual e contínua, extrapolará até mesmo as fronteiras nacionais. Projetará a capital cearense em uma vitrine global das soluções urbanísticas, sobretudo para as nações emergentes.

* Artigo publicado originalmente no jornal O Povo