Por Percival Maricato.

Funcionários públicos da vigilância sanitária apreenderam no Rock in Rio, centenas de quilos de queijos e linguiças sem selo, adquiridos pela chef Roberta Sudbrack, empreendedora de renome e respeitada pela qualidade e responsabilidade profissional na área gastronômica. Além do descarte dos produtos ao lixo, os ficais ameaçaram de processar a chef e os fornecedores de tais produtos e divulgaram seus nomes para a mídia. Um excesso de intransigência, em uma cidade que a sociedade já é assolada diariamente pela violência.

Nenhum agente se atreveu a dizer que os produtos estavam deteriorados. Escoram-se numa formalidade, fato que se repete pelo país: faltou o selo, o carimbo da repartição ou o jeitinho.

Como obter o carimbo ou selo que custa caríssimo, muitas vezes o caminho é longo, há obstáculos e fiscalizações federais, estaduais e municipais. Milhares de produtores artesanais são cerceados em suas atividades, facilitando o sucesso dos alimentos processados industrialmente, estes muitas vezes bem mais perigosos, porém carimbados e com SIF. Para obter-se apenas o SIF leva dois anos e impede o desenvolvimento dos pequenos produtores de queijos, doces, cachaças, vinhos, entre outros produtos. Tem que haver um meio termo, critérios de razoabilidade na avaliação do que pode ser vendido no mercado.

O episódio se passou num evento turístico de porte internacional, importantíssimo para a imagem do país, que gera divisas, empregos, tributos, atividade econômica e reconhecimento artístico, em um estado que está desesperado, de pires na mão, tentando pagar os próprios funcionários, manter abertas unidade de saúde, educação, segurança e outros serviços públicos essenciais, com riscos para toda a  população, e no limite de sua resistência e paciência.

É o retrato do país que vivemos, dividido entre aqueles que estão tentando leva-lo à frente, empreendendo, trabalhando e outros cumprindo formalidades. No caso, fazendo estragos, aproveitando-se do marketing e da hipocrisia, que parece ter se tornado moeda corrente.

Serve também para mostrar onde chega a dualidade na sociedade, pois próximo de onde isso ocorria, crianças, favelados, mães de família, desempregados, o povo de rua, reviravam lixões, vasculham sacos de plásticos usados como lixeiras, catavam restos de alimentos na rua, para comer e tentar sobreviver. Não faltam imagens que comprovam essa realidade, esse outro país sem chefs famosos, que com eles se preocupem, exceto em ocasiões especiais.

Essas fiscalizações seriam muito mais necessárias nos bairros periféricos, nas favelas, nos camelôs de alimentos, por motivos óbvios. Não há qualquer preocupação em divulgar entre o mais de um milhão de bares, restaurantes e similares do país, rudimentos da alimentação saudável. A fiscalização deve ser antes de mais nada de orientação, atender o princípio da primeira visita, e dar oportunidade do comerciante provar que o alimento é sadio, para só depois ser punitiva. E jamais visando marketing, tentando atrair foco das câmaras de TV. O país que vivemos tem seu lado miserável e como tal este tem que ser cuidado.

Esperemos que a sociedade fique vigilante para mandar para o lixo os processos administrativos abertos contra esses empreendedores e para que se abra um debate onde a divisão do que se pode produzir e comercializar deixe de ser apenas o que tem carimbo e o que não tem carimbo.

Percival Maricato é presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em São Paulo - ABRASEL SP