Por Paulo Solmucci


O belo-horizontino Fred Mata Machado, inventor mundial do comida a quilo, manteve em funcionamento, durante três anos, o primeiro dos seus quatro restaurantes, que se localizava na Rua Professor Antônio Aleixo, quase esquina com a Rua Rio de Janeiro, no Bairro de Lourdes, contíguo ao Bar do Lopes. Esse restaurante ficou aberto entre 1984 e 1987. Foi a partir dali que o conceito se espalhou pelo Brasil inteiro. Não custa repetir: só no Brasil há o restaurante de comida a quilo.

Se ele, o chef Fred, foi a pessoa que bolou o comida a quilo, colocando-o em prática por meio da rede de quatro restaurantes em Belo Horizonte, como é que o sistema se espalhou pelo Brasil inteiro? Os multiplicadores do comida a quilo foram os veranistas mineiros que, banhando-se nas águas do Atlântico, nacionalizaram a invenção do nosso Santos Dumont da gastronomia. 

O comida a quilo precursor nasceu no verão de 1984. Na temporada seguinte, em dezembro de 1985, um certo empreendedor de Belo Horizonte levou a novidade a Cabo Frio, onde abriu um restaurante tal e qual o da Rua Professor Antônio Aleixo. O chef Fred não se animava a montar uma teia de franquias. Ele tampouco se lembra, hoje, quem foi o sujeito que tomou a iniciativa de abrir as portas de um comida a quilo no balneário fluminense. 
O nosso amigo Fred é daquelas pessoas que já se sentem felizes e realizadas vendo que fez bem ao próximo. É um ser humano para lá de especial. Foi ele também o inventor da picanha na chapa, feita na calçada de algum bar, em uma churrasqueirazinha de aço. Quando a gente passa por perto, voltamos aos tempos de infância, em que, caminhando pela rua, capturávamos o maravilhoso cheiro da carne cozida ou assada saindo pela janela de alguma casa da vizinhança. 

Os sentidos de uma criança, seja o da visão, da audição, do tato ou do olfato, são extremamente aguçados. O infante logo apreende os aromas que brotam do fogão distante, até mesmo já sabendo que o bife está sendo frito com maravilhosas fatias de cebola. Isso gera uma sensação de amparo, de segurança, aconchego. É o bem-estar do território seguro dos familiares, dos amigos, dos vizinhos. Escreveu o poeta Mário Quintana: a gente sempre mora na velha casa em que nasceu. 

O chef Fred veio com essa da picanha na chapa lá pelo início dos anos 1980, quando abriu o restaurante Bartolomeu em uma garagem, na Avenida do Contorno, nas proximidades do Colégio Padre Machado. Em 1984, criou o comida a quilo. Uma coisa está ligada a outra. Ele quis transportar um pedaço do ambiente doméstico para os restaurantes de rua. Já que as pessoas não conseguiam almoçar no conforto do lar, por causa dos deveres dos seus ofícios, a mesa doméstica iria até elas. 

E assim o Fred resolveu muita coisa. A secretária ou o auxiliar de escritório que, antes do advento do comida a quilo, tinha de matar a fome encostando os cotovelos no balcão ou em uma mesa qualquer, derrotando um sanduíche ou um reles prato feito, passaram a ter, quase que milagrosamente, a opção de uma extensa e digníssima sequência de travessas, tigelas e réchauds com saladas, ovos cozidos, feijão, arroz, quibe assado, farofa, angu, quiabo, chuchu, frango ensopado, carne moída, macarronada. Tudo podendo ser colocado no prato, na exata medida do seu paladar, da sua fome e do seu bolso. 
Fred é o gênio do bom apetite. Retornarei à invenção dele no artigo da semana que vem.

Artigo originalmente publicado no site Destrinchando