26/07/2017 - A cultura agrega valores a cafés, bares e restaurantes

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A música dá visibilidade aos estabelecimentos e torna a ida a um lugar para petiscar ou jantar uma experiência ainda mais agradável

 

 

Em 26 de fevereiro do ano passado, o casal de engenheiros Eduardo e Jimena Miranda abriu o Tramonto Wine Bar em João Pessoa (PB), a quatro quadras da praia. Sabiam que, em tempos de recessão, a arrancada seria difícil. Mas, passados cinco meses da abertura do bistrô, dotado de uma das melhores cartas de vinhos da capital paraibana, os resultados mostravam-se ainda aquém dos mais conservadores prognósticos iniciais.

Haviam reformado toda a parte interna do imóvel alugado, investiram pesado no tratamento acústico, providenciaram o mobiliário mais compatível com o padrão que queriam dar à casa, contrataram uma equipe enxuta, selecionada na lupa. Mas, o movimento era pequeno. Até que em agosto, enfim, o faturamento começou a tomar o rumo ascendente, em função de uma novidade que introduziram no Tramonto: a música. Com uma ressalva: não era uma música qualquer, executada por quaisquer músicos.

Eduardo Miranda gosta de música. É violonista amador desde os tempos de estudante. Para traçar a linha musical da casa, contou com o conhecimento do publicitário Vítor Quirino, que estava cuidando da comunicação do Tramonto. Ele é formado em design gráfico e frequentou, sem completá-lo, o curso superior de música, tendo como instrumento o violão.Escolheram a dedo os instrumentistas dos quartetos de jazz que se revezariam, e, ainda, os cantores que participariam de uma programação intitulada “Música boa ao vinho”.

Foi uma virada tão bem-sucedida que o Tramonto passou a figurar entre as mais charmosas e singulares opções aos moradores e turistas de João Pessoa. Outros bares e restaurantes da cidade tentaram seguir a receita do sucesso, como diz Eduardo Miranda. “Alguns se inspiraram no nosso projeto. Não creio que tenham sido bem-sucedidos, por conta justamente de todo o projeto da casa e da acústica. A inciativa de botar música de qualidade é louvável. Tomara que a música em bares e restaurantes se propague na cidade”.

 

A mistura de várias gerações em um bar de petiscos

Em Porto Alegre, no outro extremo do país, a quase 4 mil quilômetros de João Pessoa, um piano salvou do naufrágio o Odeon, um bar de happy hour, no Centro da cidade, que já vinha funcionando há 19 anos. Havia sido inaugurado em 25 de outubro de 1985. Em 2004, no entanto, a área central da capital gaúcha passava as noites vazias de gente, fenômeno que aconteceu em todas as capitais brasileiras, excetuando-se Curitiba. É que o Centro perdeu a função de moradia, restando-lhe a movimentação diurna do comércio e dos serviços populares.

Celestino Paz Santana resolveu comprar um piano e um pequeno tablado. Assim, há 13 anos, o Odeon acabou se tornando o mais longevo e ativo núcleo da música instrumental gaúcha, na sua vertente não-erudita, enveredando-se pelo tango, jazz e choro, entre outros ritmos e gêneros. Os músicos chegam com seus instrumentos para acompanhar e ser acompanhados pelo piano: saxofone, trompete, clarinete, flauta, gaita harmônica e guitarra.

“A música não é uma exigência e uma condição imprescindível para o sucesso de um bar”, diz Celestino Santana, ou Tino, como meia Porto Alegre o chama. Será um dos fatores de sucesso - contrapõe ele - se existir alguma afinidade entre o dono e o produto musical, do mesmo modo que o proprietário precisa ter satisfação com todo o negócio, em si. “Eu, naturalmente, optei pela música de qualidade, coerente com a qualidade dos clientes que aqui vêm. O nosso arco etário estende-se dos 18 anos aos 80 anos, predominando a moçada”.

Enquanto o Tramonto está localizado em um bairro residencial, em que existem alguns outros restaurantes, o Odeon situa-se em um Centro porto-alegrense que tem vida de dia, e à noite converte-se em uma região quase erma, remanescendo unicamente apartamentos residenciais habitados por pessoas que não quiseram ou não puderam se mudar de lá. Assim como ocorre com o Tramonto, localizado em um bairro residencial de João Pessoa, o dono do Odeon diz que não registra a mínima queixa da vizinhança.Em ambos os casos, a afluência é compassada, ordeira e calma, sem impactos negativos no entorno dos respectivos estabelecimentos.

 

 

“Um bar pode prescindir de música, quando o dono não gosta de música ao vivo, ou acha que ela não é conveniente”, diz o proprietário do Odeon. “Acontece com larga frequência que um bar se consagre pelos petiscos que oferece. É o caso do Boteco do Natalício, aqui de Porto Alegre, cujo viés é o dos petiscos e pratinhos. Eles se prepararam para isso, e fazem sucesso. Lá, não se bebe vinho. Aqui no Odeon, a freguesia pede uma garrafa ou uma taça”. Já no Tramonto, há uma meticulosa carta, com o mâitre-sommelier orientando as escolhas dos fregueses.

 

"Mais charme aos bares e cafés"

“É claro que a música nos bares pode ser um atrativo maior para o Brasil”, diz o percussionista e compositor Túlio Araújo. Nascido em Passos, no interior mineiro, o artista afirma que até hoje a sua cidade está presa exclusivamente ao modelo das boates (dance clubs) dos anos 70 e 80. A onda dessas casas espalhou-se pelo país depois do sucesso do musical “Os embalos de sábado à noite”, estrelado por John Travolta. A TV Globo aproveitou aquele momento para colocar no ar, em 1977, a novela Dancin’Days. Na trilha sonora pontificava o hit Macho Man, do Village People.

Segundo o músico, os jovens querem viver as experiências do tempo de hoje. Um modelo muito contemporâneo, a seu ver, é o do Café com Letras, em Belo Horizonte, criado pelo empresário Bruno Golgher há 21 anos. Está convicto de que o simples fato de ser um café, e não um bar, torna-o duplamente favorável à presença da moçada. Lembra que Golgher já havia inaugurado o estabelecimento, em maio de 1996, com total abertura para os gays e negros, em uma época na qual o preconceito ainda estava disseminado.

Desde então, os garçons são universitários. À atmosfera da casa, em que se instalou o café, acrescentou- se a música ao vivo. O percussionista organizou um conjunto de choro, denominado “O Couro Acorda o Vento”, que lá se apresenta todos os sábados, das 18h às 20h. “Num desses sábados, um grupo de franceses estava em uma das mesas. Vieram nos cumprimentar, maravilhados com o que viram e ouviram”.

Ele considera que a “música dá um charme a mais” ao bar, café ou restaurante. Aponta como os gêneros adequados o jazz e o instrumental brasileiro, aí destacando-se o choro. “A qualidade da nossa música é excepcional. É amada lá fora. Tem um público absurdo no exterior. É necessário que, aqui dentro, a gente exponha mais a nossa música de alta qualidade, especialmente nesses locais de encontro”.

 

Fonte: Revista Bares & Restaurantes, edição 115. A matéria na íntegra, está disponível na versão impressa.

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