27/06/2017 - Na mesa do bar, uma ciência sem fronteiras

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Em bares e cafés de 22 cidades brasileiras, cientistas democratizam a informação acadêmica ao divulgarem ciência para o público em geral

 

 

Quem no dia 17 de maio foi à Cantina do Lucas, localizada no Edifício Maletta, tradicional reduto boêmio de Belo Horizonte, se deparou com algo mais que a habitual cerveja gelada e apetitosos petiscos. Além da roda de amigos e a prosa com o garçom, havia também uma interessante discussão em torno da mobilidade urbana nas grandes cidades brasileiras. O desavisado que por lá passasse poderia até imaginar que o espaço havia sido alugado para uma conferência acadêmica ou algo do tipo. Era na verdade o Pint Of Science, um dos maiores festivais de divulgação científica no mundo.

A proposta, trabalhada simultaneamente em mais de 100 cidades espalhadas por 11 países, é ter pesquisadores conversando com o público em restaurantes, cafés e bares, sobre assuntos relacionados à ciência. No lugar da música, melodia relacionada a biologia, computação, engenharia, estatística, filosofia, física, história, matemática, química, sociologia e muito mais. No Brasil, o evento, que durou entre os dias 15 e 17 de maio, aconteceu em 22 cidades.

O projeto nasceu em 2013 na Inglaterra e chegou ao país em 2015, quando o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP realizou o evento em São Carlos, no interior paulista, colocando o Brasil no mapa do Pint of Science. A palavra Pint (pronuncia-se ‘pãint’) é um formato de copo propício para beber cerveja, comum no Reino Unido e nos EUA. “Há muitos aprendizados que podemos ter analisando o sucesso dessa experiência, O primeiro deles é bastante óbvio: quem disse que o brasileiro só gosta de futebol, samba e política? O sucesso do festival em todo o País mostra que a população quer de fato saber sobre ciência”, diz Natália Pasternark, coordenadora do projeto no Brasil.

Ela, de fato, tem razão - nos três dias do evento, o Pint of Science contou com a participação de mais de 20 mil pessoas. “O público é predominantemente jovem e universitário, discutindo temas como astronomia, computação, inteligência artificial, medicamentos, microbiologia, física quântica e tantos outros. Que outra chance esses jovens têm para interagir com pesquisadores de outras áreas, de outras unidades de ensino e bater um papo descontraído, em um local agradável, com boa comida e bebida? Já imaginou poder tirar suas dúvidas sobre dieta com os professores de metabolismo do Instituto de Química da USP?”, questiona Natália.

 

Cerveja, café e ciência

Segundo ela, iniciativas como essa não são recentes. O escritor norte-americano de ciência, Steven Johnson, conta em seu livro “A Invenção do Ar”, como as casas de café de Londres em meados do século XVII impulsionaram o movimento iluminista. Não por acaso, os cafés eram o local de encontro dos cientistas. Isso possibilitava a troca de ideias, a interação entre áreas de estudo diferentes e culminou no avanço da ciência naquela época. Afinal, ainda de acordo com a coordenadora do projeto, as melhores ideias geralmente não aparecem na bancada do laboratório, mas na hora do cafezinho, quando estamos trocando ideias com os colegas. Dessa forma, os cafés, bares e pubs democratizaram o acesso à informação e ficaram conhecidos como “universidades de vintém”, já que, pelo preço de um café, qualquer um podia degustar um pouco de conhecimento.

“Outro aspecto interessante no Pint Of Science é que muitos cientistas se disponibilizam para participar do evento, mostrando o quanto nossos pesquisadores querem sair de seus laboratórios e ter contato direto com a sociedade”, diz. Acostumados a falar para seus pares, que já conhecem o jargão técnico e os conceitos básicos de uma linha de pesquisa, muitos cientistas têm dificuldades para explicar o que fazem a um cidadão comum. Após passar por essa experiência, eles relatam que é extremamente compensador ser compreendido e valorizado por seu trabalho por pessoas que não são da academia.

“Participar do festival acaba dando um empurrãozinho para que o cientista olhe para a linha de pesquisa com outros olhos. Ele é instigado a imaginar como a sociedade enxerga sua pesquisa, que dúvidas teria, como mostrar a beleza e a importância do que faz. Nossas universidades já não são espaços de discussão. Ao contrário, tornaram-se locais de isolamento por áreas, onde nos relacionamos quase tão somente com colegas da mesma linha de pesquisa e, mesmo com esses, poucas vezes conversamos e debatemos”, completa. Sendo assim, nada melhor que discutir ciência em uma mesa de bar.

 

Saiba mais em pintofscience.com.br

 

Fonte: Revista Bares & Restaurantes