04/04/2017 - Gente gosta de gente

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*Por Paulo Solmucci

 

Muito mais importante do que os eventos para as multidões é a celebração do cotidiano. De nada adianta uma cidade que, temporariamente, se enche de gente, misturando moradores e visitantes, e, logo depois, amanhece na sua insípida rotina de sempre.

Pois Belo Horizonte tem dentro si uma região que pode se converter em um espetáculo permanente, encenado com as vitrines das lojas, com os toldos dos cafés e bares, com o balé das calçadas. Esta região é a Savassi.

As cidades mais fascinantes do planeta são aquelas em que o colorido da vida permeia o seu cotidiano. Eis aí dois magníficos exemplos: Paris e Nova York. Quando alguém vai a Paris, simplesmente vai a Paris. O título daquele livro de Ernest Hemingway já diz tudo: “Paris é uma festa”. Verdade pura. Por onde quer que você nela ande, é uma festa.

Outra estupenda referência urbana é a Nova York cantada por Sinatra: a cidade que nunca dorme. E todos dormem. Ouça a voz dele: “These vagabond shoes are longing to stray” (Estes sapatos vagabundos estão desejosos de passear). Pois, então, os sapatos querem passear, nos levar a olhar e a sonhar. E se isto foi feito em Nova York, pode ser feito em qualquer lugar. Assim canta ele: “And if I can make it there, I’m gonna make it anywhere. It’s up to you. New York! New York!”.

A gente pode, se quiser, tomar a canção ícone de Sinatra como um recado à Savassi desta capital mineira. “It’s up to you” (É com você).

Só depende de nós mesmos. Como fazer acontecer? A receita é simples e, por isso, exige dedicação, talento, ciência e arte. O ingrediente essencial é facilitar a vida das principais estrelas do espetáculo das ruas, sem medo de ser feliz.

Sabemos que, ideologicamente, nova-iorquinos e parisienses representam dois polos ideológicos: uns liberais, outros intervencionistas. Mas quando o que está em questão são as ruas, os gestores urbanos de Paris e de Nova York agem da mesma maneira: criam mil possibilidades para que floresçam e sejam sustentáveis os negócios das lojas, das adegas e delicatessen, dos bares e restaurantes, das galerias de arte dos cafés e bistrôs, das floricultoras ou livrarias.

O que Paris e Nova York ganham com isso? Paris ganha uns 15 milhões de turistas por ano. Nova York ganha uns 12 milhões. Quando o visitante atravessa a sala de desembarque, começa a movimentar a economia local. É o carregador de malas, o taxista, o almoço, a compra do que se esqueceu em casa, como a pasta de dente ou o desodorante. E a roda não para de girar.

O Brasil é muito prejudicado por ruas vazias, principalmente à noite, nas madrugadas, nos feriados e nos fins de semana. A única representante brasileira constante do ranking internacional das 100 cidades mais visitadas do mundo é o Rio de Janeiro. Recebe, anualmente, menos de 2 milhões de turistas.

A imagem que o Rio transmite ao mundo é principalmente a de Copacabana. O que torna Copacabana tão especial? É como se Princesinha do Mar fosse um pedaço de Nova York: nunca dorme. Mas todos dormem. Tem gente para lá e para cá. Tem moradias, hotéis, escritórios, hospitais, escolas, comércio lojista, bares, restaurantes, cafés, “o sol na banca de revista, que me enche de alegria e preguiça”.

O segredo da cidade atraente, convidativa e plena de energia humana é este: a mistura das funções urbanas de moradia, trabalho, lazer, entretenimento, atendimento à saúde e à educação.

Pois a Savassi é naturalmente portadora do conceito da mescla das funções. Na Savassi há moradia, trabalho, lazer, escolas, gente nas ruas, o balé das calçadas. Bastam certos ajustes para que tal mescla ocorra mais plenamente, nela criando-se um espetáculo semelhante ao que se assiste e se vive em Nova York ou em Paris. É preciso que a cidade se mobilize nesta direção. A Savassi pode ser o deslumbrante cartão postal de Belo Horizonte, assim como Copacabana é do Rio.

O que impede o deslanche da Savassi é, por exemplo, o fato de em uma determinada quadra se permitir a moradia, mas não o comércio. Em outra quadra, permite-se o comércio, mas não a moradia. É um total contrassenso.

Uma quadra só de moradia é vazia de gente nas calçadas. Uma quadra só de comércio tem gente até às 18 horas, quando as lojas se fecham. A falta de gente é sinônima de insegurança. A mais efetiva segurança vem do olhar dos passantes.

O conceito de Paris e Nova York aplicou-se, em alguma medida, a Copacabana. De lá, o princípio urbanístico da mistura dos usos irradiou-se para os bairros de Ipanema, Leblon, Botafogo. Os gestores do Rio começam a se conscientizar de que esse modelo tem de alastrar para o Centro histórico e adjacências. Se há gente na rua, tudo fica mais protegido. O custo do seguro do automóvel de um carioca é mais barato para quem mora na Zona Sul. As seguradoras cobram menos, porque lá há menos roubo.

O país está com uma reduzidíssima taxa de ocupação hoteleira, em decorrência da superoferta que se seguiu à Copa do Mundo e à Olimpíada. A menor taxa, entre todas as capitais, é a de Belo Horizonte, com a média de ocupação dos quartos de 48%, quando o patamar mínimo da rentabilidade é de 70%. Uma significativa parte da rede já está dentro da Savassi.

Hospedado ali, o que turista muito terá muito o que fazer. Sairá a pé entre as lojas, galerias de arte, livrarias, cafés, pintores que vendem seus quadros a céu aberto. Caminha até o Circuito Cultural da Praça da Liberdade, vai à biblioteca, ao Cine Belas Artes. Segue-se a receita do amor, como prescreveu o compositor Johny Alf: “é só olhar, depois sorrir, depois gostar”.

 

* Artigo publicado originalmente pela revista Destrinchando

 

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