09/01/2017 - As classes média e alta no Aglomerado da Serra

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O fenômeno veio da ousadia de Zé Pretinho, ao abrir no chão afetivo de antigas favelas de sua infância um bar e restaurante

 

 

Os 28 anos na profissão de garçom motivaram-no a realizar, em Belo Horizonte, um antigo sonho: montar seu próprio negócio, supondo que, já na largada, poderia contar com uma clientela básica. Confirmou-se o presságio. Muitos dos que durante quase três décadas foram atendidos por ele, nos diversos estabelecimentos em que trabalhou, passaram a frequentar o Zé Pretinho Bar e Restaurante, instalado em uma das entradas do Aglomerado da Serra.

Em janeiro de 2014, inaugurou-se o Zé Pretinho Bar e Restaurante. Está situado bem no início de um vasto território de nove antigas favelas, convertidas em vilas e comunidades. No Aglomerado da Serra moram 50 mil pessoas, em uma ininterrupta sucessão de casas, muitas ainda despojadas de reboco e pintura. “As favelas não existem mais. Eram favelas quando aqui só existiam barracos feitos de papelão e de madeiras compensadas”, disse ele.

Começou a trabalhar em 1979, aos 15 anos de idade. Limpava o exaustor de um restaurante. Desde então, só deixou de trabalhar em bares e restaurantes durante o período de nove anos. Em 2004, empregou-se como porteiro de edifício. Em 2013, voltou ao seu principal ofício, o de garçom. Por uns tempos, havia sido cozinheiro. “O que mais gosto é ser garçom, é atender as pessoas, é me relacionar diretamente com o público”, afirmou.

Sua atuação estendeu-se a oito bares e restaurantes da Zona Sul de Belo Horizonte, região que concentra a maior parcela das classes A e B da cidade. Mais do que motivar os fregueses dessa clientela a, pela primeira vez, pisar no território do Aglomerado da Serra, Zé Pretinho acabou introduzindo na sua vizinhança pequenas - porém relevantes - melhorias. Em frente ao recém-inaugurado bar, havia um terreno baldio coberto de lixo. Junto à prefeitura, providenciou o trator para limpar a área, transformando-a em deque coberto de brita.

 

De garçom a proprietário

Desde que, em meados de 2013, tomou a decisão de montar um bar, Zé Pretinho começou a tecer a sua rede colaborativa. O desejo de partir para a empreitada veio quando caminhava por uma viela que não fazia parte de seu percurso habitual. Notou que, colada à casa da Dona Graça, havia uma laje de cimento. Parecia um caixote, com abertura frontal. Consultou a proprietária sobre a possibilidade de alugar o espaço.

Fechada a transação, passou a acionar cada um dos amigos que podiam lhe ajudar, às vezes remunerando- os na forma de futuras permutas. Pegou R$ 10 mil no banco. Instalou o relógio de luz. Fez a parte elétrica. Construiu os banheiros. Trocou o serviço do pedreiro Roberto por sua assinatura de tevê a cabo. Catou a mesa e o freezer que tinha em casa. Parcelou o pagamento de dez cadeiras.

O paisagista e amigo Du ajudou a dar ao deque um aspecto de jardim, em seu entorno cultivando capim e bambu. Grudou orquídeas nas árvores. Du ficou com o crédito de consumo no bar e restaurante. A proprietária da Taberna Baltazar, Flávia Baltazar, presenteou-lhe com fritadeira, copos, talheres e cem pratos. A família de Zé Pretinho ajudava, a começar por sua filha, Rafaela. Entraram na roda os irmãos Adílson e Valdecir.

Em 2013, Zé Pretinho trabalhava como garçom em um bar e restaurante do vizinho bairro da Serra.Fora do expediente e nos fins de semana, tocava as obras com o pedreiro Roberto e o marceneiro Aguinaldo. Havia o lixão no terreno em frente. Ligou para a Superintendência de Limpeza Urbana, conseguindo com que um tratorista recolhesse o lixo. Daí, comprou a brita do vizinho Ivan.

Após alguns meses da inauguração do bar, ocorrida em janeiro de 2014, um grupo de freguesas, junto com filhos, maridos ou namorados estacionou os carros em frente ao bar, trajando chapéus. Desembarcaram com terra orgânica, minhoca, mudas de flores e de plantas. O deque estava concluído.

Tanto nos dias de chuva quanto nos de sol intenso, armam-se tendas na área do deque. É o lugar preferido pela freguesia. Há cadeiras e mesas dentro do bar e na calçada. Zé Pretinho segue melhorando, pouco a pouco, os seus equipamentos. Começou com um fogão de quatro bocas, que seu irmão usava em cima da laje de casa. Comprou o de seis bocas. Adquiriu mais uma fritadeira.

No carnaval, o Bloco do Manjericão invadiu o deque e as áreas adjacentes, com seus 1,5 mil integrantes, animando a festa do Zé Pretinho. A Veja Belo Horizonte colocou o bar no roteiro. Os jornais O Tempo e Hoje Em Dia veicularam matérias. A Globo Minas levou ao ar a reportagem sobre o ex--garçom, quando ele foi incluído em uma premiação de empreendedorismo individual nas vilas e comunidades da capital.

“Quem faz a melhor divulgação do bar é o pessoal que já veio aqui. A melhor propaganda é a da aprovação”, afirma Zé Pretinho. Contrapõe, no entanto, que as notícias da imprensa e as postagens da rede social são fundamentais para o sucesso do negócio, sobretudo porque levam adiante a informação de que ele, um personagem conhecido entre os habitués dos botecos e restaurantes da Zona Sul de Belo Horizonte, abriu as portas do seu próprio bar.

 

 

O maior movimento ocorre aos sábados, do meio-dia às dez da noite. Aos domingos, a clientela geralmente permanece até às 18h. É costumeiro que o público presente a um ou outro evento cultural na cidade, realizado em manhãs de sábado, dê uma esticada ao Zé Pretinho. Foi o que ocorreu, por exemplo, no início da tarde de 30 de julho, após a manhã de autógrafo do livro de Roberto Vieira, arquiteto e artista plástico. Formou-se uma grande mesa, tendo Roberto Vieira e a produtora cultural Nely Rosa como figuras polarizadoras.

Constatam-se, ainda, as presenças de empresários. Entre eles, Luiz Otávio Possas Gonçalves, criador da Kaiser, da água de coco Kero Coco e da cachaça Vale Verde. No ano passado, Possas Gonçalves presenteou Zé Pretinho com uma das 800 garrafas do azeite extra virgem Vale Verde, produzido em sua fazenda Capanema, em Itabirito, no interior mineiro. Moradores da vizinhança de Zé Pretinho também batem ponto no bar, como William Douglas e Eduardo Maximiliano, que trabalham no sacolão Serra Verde, onde Zé Pretinho e a filha Rafaela fazem compras.

Um dos maiores desafios que se apresentam a Zé Pretinho é o de reverter a baixa frequência nas noites do meio de semana, de terça a sexta. “Um bar e restaurante não se viabiliza só com sábados e domingos”, admite ele.

O que Zé Pretinho e a filha Rafaela mensalmente sacam do caixa para pagar as despesas pessoais, inclusive as do aluguel de sua moradia e o abastecimento do carro, não chega a um salário mínimo e meio. “E há quem diga que estou ficando rico, porque vê o bar com grande movimento aos sábados e domingos. Cai do cavalo o sujeito que achar que vai ficar rico montando um bar. Só existe dono de bar rico se o sujeito, antes de ter o bar, já era rico”. Entre ser empregado e empreendedor, diz que é muito mais fácil ser empregado. “Para receber o salário mensalmente, é só trabalhar, com a roupa e a caneta”.

Está arrependido? “De jeito nenhum. Não me arrependo nem um pouco. Era o meu sonho ter esse bar e restaurante. Faço uma coisa que gosto. E, além do mais, o bar dá sequência ao nome que tenho. Agora, estou atravessando um momento mais difícil. Todos estão passando por isso. Quando olho a crise em volta, chego à conclusão de que meu negócio está dando certo. Essa questão de cair o movimento é relativa. Há altos e baixos. É o normal da vida. Quanto a não ter muito dinheiro, não é o mais importante pra mim. Importante é não ficar com boleto pendente. No mais, uma casa para morar, um carrinho para se deslocar, um pedacinho de terra pra ir no fim de semana. Isso já é o máximo”.

Quem cuida das contas do bar e restaurante, como informou, é a contadora Lúcia. O controle do caixa é feito pela Rafaela. Indagado sobre a eventualidade de um sócio que tenha bastante traquejo administrativo- financeiro, ele responde: “Sócio pode ser bom, desde que também arregace as mangas e ajude a tocar o dia-a-dia. Se a pessoa não tem esse espírito, o bar fica sem alma. Todos têm de ter o dom de servir. É preciso ter a alma de garçom. É isso que me move”.

 

Fonte: Revista Bares & Restaurantes - edição 112. A matéria na íntegra está disponível na versão impressa.

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