02/12/2016 - Sem garantias, pequeno empresário nem pensa em pedir crédito nos bancos

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Levantamento do Sebrae e do Banco Central aponta que apenas 17% dos empreendedores recorreram ao sistema financeiro em busca de financiamento no primeiro semestre de 2016

 

Quando o assunto é crédito, os bancos e os pequenos empresários brasileiros tradicionalmente não se misturam. Neste ano, essa cisão está ainda mais evidente. Apenas 17% dos empreeendedores recorreram ao sistema financeiro em busca de financiamento no primeiro semestre de 2016. Em volume de tomadores de empréstimo, a queda é de quase 30% na comparação com 2015. Os dados fazem parte de uma pesquisa, divulgada no final de novembro, em Brasília, pelo Sebrae e pelo Banco Central, realizada com cerca de 7 mil microempreendedores individuais (MEIs), micro e pequenas empresas em todo o Brasil.

Segundo o levantamento, a maioria dos empresários nem consideram bater na porta dos bancos quando sentem a necessidade de dinheiro extra para, por exemplo, engrossar o capital de giro, que na primeira parte de 2016 motivou 1 em cada 2 pedidos de crédito direcionados às instituições financeiras. As taxas de juros cobradas, numa média de 4,5% ao mês, e a falta de garantias para oferecer como contrapartidas aos empréstimos são os pontos que mais afugentam os empresários dos bancos. Dos que procuraram as instituições, 27% (um em cada quatro) tiveram o empréstimo negado, registrando um crescimento de 59% no volume de recusas em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Para o presidente do Sebrae, Guilherme de Afif Domingos, o resultado reflete a crise, mas não se explica apenas por isso. "Mais do que conjuntural, o mercado tem uma falha estrutural. O banco ainda não é uma alternativa viável para o pequeno empresário", diz. "Enquanto os Estados Unidos têm um infinidade de bancos, no Brasil são cinco que concentram 80% das operações", destaca. Segundo o banco central dos Estados Unidos (Fed, da sigla em inglês), existem existem 5.340 bancos no pais.

 

Ciclo maior

Sem contar com o banco, o empresário recorre a fontes paralelas de financiamento. Segundo a pesquisa, no primeiro semestre de 2016, 52% dos empreendedores negociram prorrogações de prazos de pagamento junto aos fornecedores e 27% utilizaram cheques pré-datados, práticas que, na opinião de Afif Domingos, estende a dificuldade de caixa para toda a cadeia envolvida com as pequenas empresas. "Ao vender com prazo maior, o fornecedor também se endivida", afirma.

Um outro ponto captado é que, enquanto caiu o volume de empréstismo concedidos aos empresários, cresceu de 23% para 35% os financiamentos tomados nas pessoas físicas. Seguindo a pesquisa, Segundo o levantamento, o empresário acha mais fácil pedir financiamento no seu banco de relacionamento pessoal, mesmo que com taxas superiores. Foi o que aconteceu com Newton Marchioni, dono de uma distribuidora de alimentos congelados em São Paulo. No começo do ano, ele procurou os bancos para levantar R$ 40 mil a ser investido na expansão da empresa. Não conseguiu. "Ouvi que não tenho perfil para a captaçao porque meu faturamento de R$ 60 mil por ano é baixo" diz. Para não perder a oportunidade, ele pegou o dinheiro como pessoa física. "Estou pagando uma taxa muito maior e vou demorar mais para quitar, mas não tinha alternativa", ele conta.

 

Fonte: Estadão