20/09/2016 - Aos 97 anos, o grego Thrasso está no comando o dia todo

CLIPPING - NOTÍCIAS DOS PRINCIPAIS VEÍCULOS DO PAÍS

 

Chegou ao Brasil em 1961, e logo se empregou em um restaurante, no bairro do Bom Retiro, que se tornou o seu negócio e a sua vida

 

 

O nome dele: Thrassyvoulos Georgios Petrakis. Imigrou com a mulher e a filha. Partiu do porto Pireus, próximo a Atenas, em um navio de  bandeira italiana. Tomou a decisão de trocar a Grécia pelo Brasil por insistência da irmã, Ana, que já morava em São Paulo. Ana tinha uma lojinha de miudezas e material escolar, no bairro do Tremembé. Thrasso, como é chamado por fregueses e amigos, decidiu ajudá-la. Além de arrumar uma ocupação e auxiliar a irmã, desejava aprender a língua do seu novo país, dialogando com os clientes.

Ele havia sido pescador e agricultor. Quando tinha 21 anos, eclodiu a Segunda Guerra. Foi convocado. Serviu como enfermeiro na frente norte-africana, no Egito. Em 1943, voltou à Grécia, mais precisamente à casa de seus pais, na ilha montanhosa de Ios, no Mar Egeu. Trabalhou, então, em vários ofícios. Entre eles os de cozinheiro e garçom.

Com o domínio básico do português, agradeceu o apoio da irmã e foi em busca de um novo serviço. Constantino Dellaporta, o dono do Cantinho Grego, no bairro do Bom Retiro, acolheu-o prontamente. Foi assim que o imigrante, na época com 43 anos de idade, voltou ao ofício de outrora, como cozinheiro e, principalmente, garçom. O seu legado na pesca, na agricultura e no pastoreio credenciou-o a incumbir-se também das compras. Constantino morreu em 1970. O senhor Thrasso tornou-se o dono do Cantinho Grego, mudando o nome da casa para Acrópolis.

O restaurante já completou 57 anos de existência, tendo sido fundado em 1959. O aspecto geral do Acrópolis permanece tal qual era o Cantinho Grego. Thrassos só agregou mais pratos à cozinha e fotos às paredes, entre elas as da acrópole, a parte mais alta da capital grega, onde está o Partenon, templo em honra à deusa Atena. E, ainda, pôsteres do seu time, o Corinthians.

O cardápio é extenso: ensopado de polvo, lula recheada, carneiro assado, vitela, torta de berinjela com carne moída, e moussaka, prato que faz, duplamente, parte da culinária grega e turca. É constituído de carne de carneiro, berinjelas e tomate, com azeite, cebola e ervas. No mais, os apreciados produtos da mesa grega: azeite, conhaque, vinho e o “ouzo”, uma bebida feita à base de especiarias, entre elas o anis, que deve ser consumida com gelo, equivalente que é ao Arak, do Oriente Médio.

O que se percebe do senhor Thrasso é que ele ilumina seus passos por meio do farol do amanhã, embora cultive o zelo pelas tradições. Um sintoma dessa visão prospectiva é que, aos 98 de idade, a serem celebrados no próximo 15 de agosto, tem como braço direito da administração de seus negócios uma filha de trinta anos de idade: Niqui. Ela entrou de corpo e alma no Acrópolis em 2009. Como pode um homem quase centenário ter uma filha tão jovem? Niqui é fruto do terceiro casamento. A vida familiar do senhor Thrasso ficou marcada por uma tragédia, ocorrida em 1967. A mulher e a filha morreram no incêndio de uma casa, à qual foram passar um fim de semana de praia, em Santos. O patriarca havia ficado em São Paulo, trabalhando. Houve vazamento de gás à noite. Ao se acender uma das lâmpadas, a explosão e o fogo.

Aos 49 anos, o imigrante sentiu-se muito abalado. O que fazer? Entrou ainda mais fundo nas suas tarefas de garçom e de encarregado das compras do Cantinho Grego. “A sua vitalidade é incrível. Movimenta-se o dia todo. Recebe os clientes, um a um, na porta do restaurante, indicando-lhe as mesas. Conhece todo mundo do Bom Retiro. É muito bom no relacionamento e nas contas. Sua cabeça é uma calculadora. Sempre foi regrado. Toma uma taça de vinho no almoço”, diz Niqui. Ela mesma não bebe.

A labuta de Thrassyvoulos Georgios Petrakis estende-se, diariamente, das 7h30 às 20h, abrindo e fechando o Acrópolis. De manhã, na parte da frente e na calçada do restaurante servem-se , aos comerciários e fregueses da região, o café, leite, sucos e salgados. O Bom Retiro forma um trançado de ruas em que há, uma depois da outra, lojas de confecções, e, também, farmácias, lotéricas, lanchonetes, bancas de jornais.

Após o incêndio de Santos, o senhor Thrasso conheceu uma mulher que, sozinha, cuidava de duas filhas. Resolveu ajudá-la. Acabou envolvendo-se afetivamente, daí nascendo Cláudia, hoje com 42 anos. Mas o relacionamento não prosperou. Ele virou a página. Em 1986, do casamento com a pernambucana Fátima, nasceram Niqui e Katherine, 28 anos. Depois de visitar a Grécia com o marido, Fátima resolveu ficar por lá. “Eles mudaram de alma. Meu pai tem a alma brasileira; minha mãe, a grega”, comentou Niqui, sorrindo.

 

 

O Acrópolis sintetiza a simplicidade, a cortesia e a fatura das lojas espalhadas no trançado das ruas do Bom Retiro, que abrigaram diversos grupos de imigrantes do pós-Guerra, entre eles os judeus. A vitalidade do bairro está sendo vigorosamente retomada por uma nova leva de imigrantes, agora a dos coreanos. O restaurante é exaltado pela colunista da Folha de S. Paulo, Mônica Bergamo, e por blogs e sites, como o do TripAdvisor. “Muitos e muitos afirmam que a minha cozinha é a melhor do que a que se encontra na Grécia”, comenta o senhor Thrasso Petrakis. Ao lado do pai, Niqui reforça, balançando a cabeça positivamente: “todos dizem”.

A inevitável pergunta ao mais antigo e ativo dono e gestor de um restaurante, no país: qual é o segredo? “É ter amor pelo que faz. Só assim vem a dedicação. É o prazer de ver as pessoas entrando aqui e sentindo-se em casa. Vou ao Mercado todos os dias. Faço as compras. Quero o melhor para os fregueses. Aprendi a ser garçom, cozinheiro, dono de restaurante. Gosto muito. Há uma crise, sim. Vem do governo. Nunca vi tanta loja fechando. Mas o Brasil é maravilhoso, vai superar isso. É preciso ter confiança, fé na vida. Os brasileiros têm. Em nenhum lugar do mundo, recebe-se um estrangeiro tão bem. Assim fui recebido. Sou brasileiro”.

No dia 29 de julho deste ano, quando a edição 111 da revista Bares & Restaurantes estava entrando em gráfica, veio a notícia do falecimento do senhor Thrasso.

 

Fonte: Bares & Restaurantes, edição 111.