09/09/2016 - Eleições: Abrasel defende urbanismo qualificado

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Associação põe a condição em Termo proposto para assinatura dos candidatos a prefeito

 

A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) tem cinquenta escritórios espalhados pelo país.  Em cada um deles, postulantes às prefeituras municipais serão convidados a assinar um Termo de Compromisso, sob pena de não contarem com o apoio da entidade. O que se quer é que as candidatas e os candidatos coloquem o urbanismo como prioridade dos seus programas de governo.

“Isso requer que os arquitetos e urbanistas estejam na linha de frente das gestões municipais. É o que está  assinalado no Termo de Compromisso dos candidatos”, diz Paulo Solmucci, presidente executivo da Abrasel.  A ação nacional durante o período das campanhas eleitorais foi referendada no Congresso da Abrasel, realizado entre 16 e 18 de agosto, em Brasília.

A defesa da cidade caminhável,  orientada para a mescla funcional e social, passou a fazer parte do planejamento da estratégico da Abrasel em meados de 2014. Há um ano, a entidade divulgou o manifesto intitulado “A partir das ruas, simplifica Brasil”, no qual condena o espraiamento territorial das cidades, decorrente da falta de administrações urbanisticamente qualificadas.

O presidente da Abrasel afirma são coincidentes os objetivos de um dono de bar e de um urbanista.  Por isso, a entidade procura difundir os conceitos do urbanismo da escala humana. “A Abrasel não tem o mínimo receio de ser tachada de lobista dos arquitetos e urbanistas.  É claro que somos.  Do mesmo modo que somos lobistas da cidade plural, heterogênea, com as pessoas se encontrando mais, usando menos carro, lançando menos gás carbônico ao ar, destituída de preconceitos sociais, etários, raciais, de gênero”.

 

 

Por que a Abrasel tem destacado o tema do urbanismo nos seus congressos, feiras e circuitos gastronômicos?

Paulo Solmucci (PS)– Os bares, cafés, bistrôs e restaurantes têm como interface imediata a rua.  Há aí uma estreita relação de causa e efeito.  Eles ajudam a dar qualidade às ruas, e, no sentido inverso, as ruas bem cuidadas melhoram a dinâmica dos bares, cafés e restaurantes.  A plataforma dos nossos negócios é a rua. Isso vale, também, para o comércio lojista em geral, seja o supermercado, a loja de material de construção, farmácia, livraria, floricultura ou a loja de confecções. Vale para o hotel, o chaveiro, a galeria de arte, a casa lotérica, a banca de jornal.  Mesmo quando todo o comércio baixa as portas, os bares, bistrôs e cafés funcionam abertos até mais tarde, estendendo o movimento nas calçadas. Eles dão vida às ruas, por mais tempo.

 

E onde entra o urbanista?

PS – As coisas não podem ser feitas improvisadamente.   É preciso que haja projetos de qualidade e competente execução desses projetos.  É como surgem boas calçadas, a iluminação adequada, a arborização, os pontos de ônibus, as ciclovias, a aproximação entre os locais de moradia, trabalho e entretenimento. Esse conjunto de coisas não acontece por acaso. Há uma ciência por detrás da engrenagem urbana que funciona bem.  O nome dessa ciência das cidades é o urbanismo.

 

Esse urbanismo vem sendo aplicado nas cidades brasileiras?

PS – Não, salvo uma ou outra exceção. Continuamos muito atrasados. Temos ouvido arquitetos e urbanistas pelo país afora.  Aprendemos com eles que a cidade com vida requer  pessoas morando perto de onde trabalham, estudam, cuidam de sua saúde ou se divertem.  A moradia, o comércio, os parques e praças, e os serviços em geral, aí incluídas as ciclovias e, também, os pontos e as estações do transporte coletivo, têm de estar entrelaçados nos mesmos espaços das vizinhanças, criando uma densidade de convivência diária entre as pessoas.

 

De que modo os donos de bares e restaurantes têm tomado conhecimento desses conceitos tão pouco propagados no Brasil?

PS – Desde o início de 2014, iniciamos um intenso debate interno na Abrasel.  Passamos, também, a convidar os urbanistas para que apontassem os principais erros e equívocos que ainda persistem na gestão das cidades brasileiras.  Ouvimos mais de quinze urbanistas de diferentes estados.  Estivemos com o ex-prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, e com o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad.   O presidente do CAU, Haroldo Pinheiro, foi palestrante no Congresso Nacional da Abrasel, em 2015.  Neste ano, o palestrante foi o arquiteto/urbanista Carlos Leite.

 

E qual o ponto que vocês consideraram mais importantes nesses painéis?

PS - Os dois palestrantes, Haroldo Pinheiro e Carlos Leite, mostraram, claramente, que a cidade dos automóveis está ultrapassada.  A grande maioria das cidades brasileiras continua praticando o antiurbanismo, distanciando a moradia do trabalho, o trabalho da educação, a educação dos locais de cuidados à saúde.  Vivemos mal em grande parcela do dia, geralmente estressados, dentro de um carro ou gastando um tempão dentro do ônibus, ou no ponto, esperando por ele.  Precisamos espalhar a cultura do urbanismo de qualidade.  O que prevalece, em qualquer cidade brasileira, é a visão voluntarista, eleitoreira, porque o tocador de obras, que subitamente tira do colete o viaduto ou o túnel, ainda é entendido, no senso comum, como o sujeito fazedor, portanto como a pessoa ideal para se tornar prefeito ou governador.

 

O que a associação dos bares e restaurantes tem feito para difundir essa gestão urbana de qualidade?

PS – Acabamos de aprovar, no Congresso Abrasel, que promovemos em Brasília, em meados de agosto, uma ação nacional para que convoquemos as candidatas e os candidatos  às prefeituras do Brasil afora a assinarem o termo de compromisso com a cidade orientada para as ruas, as calçadas, o pedestre e, como diz o urbanista Jaime Lerner, para a sóciodiversidade, dando-se ênfase à moradia de interesse social e à habitação nas áreas centrais.  Seria uma grande ingenuidade a gente achar que a Abrasel conseguirá, sozinha, mobilizar a opinião pública para a pacífica revolução urbana nas cidades brasileiras. O que realisticamente almejamos é dar início a um processo.  Os bares e restaurantes são das ruas.  Temos a legitimidade para, junto com os arquitetos e urbanistas, levarmos adiante a empreitada.  Já temos um bom portfólio de realizações. Na área gastronômica fomos, nos últimos vintes, os principais protagonistas de um extraordinário avanço nos hábitos brasileiros.

 

Como assim?

PS – Graças, sobretudo, aos bares, cafés e restaurantes, demos um salto de qualidade na apreciação do café, por exemplo.  Do mesmo modo, a cultura do vinho, entre nós, avançou bastante.  E, também, a da cerveja artesanal, do azeite extra virgem.  O mesmo se pode dizer da alimentação mais saudável. É claro que estamos falando aí de produtos acessíveis, principalmente, aos extratos de maior renda. Já a cidade é para todos, independentemente da classe social e econômica.  A pedagogia das cidades é a pedagogia da democracia.  E é só por meio da cidade democrática que vamos elevar o padrão geral do país, derrubando as paredes da segregação.  Os orçamentos públicos têm de ser canalizados para este objetivo.

 

De que modo vocês pretendem ligar os prefeituráveis  ao compromisso da cidade caminhável?

PS – Temos diretorias, com equipes bem ajustadas, em  27 unidades da federação.  Muitas das seccionais criaram estruturas no interior.  O resultado é uma extensa capilaridade nacional.  Ao todo, são 50 unidades  representando, sob um comando nacional, um milhão de estabelecimentos da alimentação fora do lar: bares, restaurantes à carte e selfservices,  bistrôs, lanchonetes, cafés, quiosques.  Sem que os candidatos e as candidatas se comprometam com os pressupostos da cidade viva, não terão o nosso apoio.  Os que aderem ao Termo de Compromisso assinam o documento publicamente, diante dos nossos associados.

 

O que faz vocês acreditarem que podem alcançar o objetivo pretendido?

PS – Uma experiência pioneira do termo de compromisso foi adotada em Curitiba, na eleição passada, com resultados extraordinários. Com base nessa experiência, a direção nacional da Abrasel resolveu estender a ação ao conjunto de suas seccionais e regionais. Um dos pontos da carta de compromisso, que já começamos a apresentar  às candidatas e aos candidatos das eleições municipais, é a efetiva participação dos arquitetos e urbanistas na linha de frente da gestão das cidades.

 

O que justifica essa condicionante que a Abrasel coloca aos candidatos?

PS – Decorreu do nosso aprendizado de que as mais bem-sucedidas experiências de transformações em cidades de diversas partes do mundo somente foram possíveis com a institucionalização de núcleos de planejamento urbano, liderados por arquitetos/urbanistas, mas envolvendo, necessariamente, um amplo leque de lideranças comunitárias e de profissionais de diversas áreas do conhecimento.  Foi o que vários urbanistas nos mostraram.  E um entendimento que a gente absorve muito facilmente.

 

Por quê?

PS - O bar e o restaurante são, também, aglutinadores da heterogeneidade.  São, de certo modo, uma síntese das ruas.   E não é por acaso que os arquitetos são assíduos frequentadores dos bares, do mesmo modo que os músicos, artistas plásticos, escritores e jornalistas.  Mas não é só a dita intelectualidade.  Há os desportistas, comerciários, bancários.

 

No passado, os bares eram muito masculinos.

PS– Desde a virada para os anos 1990, ampliou-se consideravelmente a presença feminina.  O bar é o primeiro território da inclusão.  É o termômetro das mudanças sociais, refletindo o que se passa nas ruas, ao mesmo tempo em que as ruas refletem o que se passa nos bares.  Quem vai a um bairro em que haja maior concentração de bares, percebe muito nitidamente essa simbiose, seja em Copacabana, nos bairros da Vila Madalena, em São Paulo, de Lourdes, em Belo Horizonte, no Rio Vermelho, em Salvador, ou no Moinho de Ventos, em Porto Alegre.

 

No 15 de dezembro do ano passado, Dia do Arquiteto, o CAU, em parceria com a Abrasel, fez uma celebração em 25 bares e restaurantes de cinco capitais.

PS – Foi um enorme sucesso, que refletiu exatamente essa afinidade orgânica entre o arquiteto e a rua, e, portanto, entre o arquiteto e o bar.  A Abrasel não tem o mínimo receio de ser tachada de lobista dos arquitetos e urbanistas.  É claro que somos.  Do mesmo modo que somos lobistas da cidade plural, heterogênea, com as pessoas se encontrando mais, usando menos carro, lançando menos gás carbônico ao ar, destituída de preconceitos sociais, etários, raciais, de gênero.  Estamos no negócio do bar porque gostamos de gente, do encontro, da conversa.  É pelo mesmo motivo que o arquiteto/ urbanista também gosta do bar. É porque gosta de gente, da rua, da cidade. Temos muito em comum. A começar pela missão – que é intrínseca às nossas atividades profissionais –  de continuamente estender as redes dos encontros, das conversações, dos compartilhamentos da vida cotidiana.

 

Fonte: CAU/BR