10/08/2016 - Não nos deixe cair na tentação do complexo de vira lata

ARTIGO

 

 

Por Percival Maricato, presidente da Abrasel em São Paulo

 

Vivamos com alegria e entusiasmo as olimpíadas; todo respeito e carinho aos turistas e aos clientes; todo apoio aos nossos atletas e aos demais que vierem ao país

 

O Brasil talvez não devesse ter disputado ser sede dos maiores jogos esportivos promovidos pelo homem em toda sua história: as Olimpíadas.  Isso implica em conseguir espaços para convivência e disputas para 10.500 atletas, de mais de 200 países, sem contar hospedagem, transporte, alimentação, para mais de meio milhão de turistas internacionais e outro tanto de domésticos. Não bastasse isso, os brasileiros que residem nas cidades são contaminados pelo clima e acabam saindo para os bares, restaurantes, praças, clubes, para assistir em telão e ao lado da namorada ou dos amigos, os jogos do evento. Dezenas de milhões de pessoas se movimentam, gastam, se divertem.

Que mais poderiam querer os brasileiros, além de cidades mais alegres, nossos atletas disputando, aprendendo, crescendo, que há de melhor para os empresários, trabalhadores, fornecedores de hotéis, agencias de viagens, bares e restaurantes, taxistas e etc? Que há de melhor para o Banco Central, desesperado por divisas, o fisco combalido precisando fazer caixa com impostos.

Existe um ponto negativo, como aconteceu na Copa do Mundo: os cartolas sempre querem disputas grandiosas, caras, atraentes também pela aparência, confortáveis, midiáticas, chamando a atenção do mundo. E isso exige recursos, que sempre faltam a países em desenvolvimento, poderiam ser usados em educação e etc.

Mas quando nos candidatamos, estávamos em outro tempo, de pleno emprego, superávits, elevadíssima autoestima. E, certo ou errado, assumimos a realização e temos que cumprir o compromisso. Temos que lutar no futuro para que esses eventos sejam mais simples, possíveis em estádios menores, principalmente em época com TV. Interessa a disputa, o jogo, a festa, competência dos atletas e alegria do povo. Mas no momento nós o hospedamos.

Façamos, pois, a festa que nos comprometemos, da melhor forma possível, recebamos com todo carinho os turistas domésticos e internacionais, os moradores de nossa própria cidade, que quando ela fica mais alegre e movimentada também sai de casa para participar, que gosta de ver as disputas na TV ao lado da turma,  ou mesmo no estádio, mas depois passando pelo bar ou restaurante. Não nos deixemos cair na tentação do complexo do vira lata divulgado pela mídia, pelo prefeito do Rio e outros agentes do pessimismo. Lembremos que na Copa do Mundo foi a mesma coisa, os brasileiros suportaram galhardamente o maior dos desastres, os 1 x 7, trataram bem a todos que vieram nos visitar e que voltaram satisfeitos para seus países. Os vira latas diziam até que não haveria Copa do Mundo. Houve.

Evidente que a incompetência ou corrupção nos gastos com a realização dos jogos terão que ser investigadas e punidas. Não significa que tem que ser agora, ou então que se faça de forma discreta, barulho mesmo é para a disputa e a festa. É momento de comemorar os jogos, elogiar quem acertou, quem tem mérito, quem pode honrar o esporte brasileiro, e o que foi feito de bom.

É hora de vencer os adversários e vencer o complexo de vira lata, fazer o que for possível, receber bem os estrangeiros, atletas ou turistas, deixá-los confortáveis, à vontade para circularem pelas cidades e pelo país, conhecerem nossas incomparáveis atrações naturais, nossa espetacular gastronomia, nosso povo trabalhador, mostrando que ele não é composto apenas de vira latas, pessimistas, arautos do baixo astral. É um povo acolhedor e alegre. A Copa já provou. As Olimpíadas vão confirmar. Façamos nossa parte.