28/06/2016 - Comemore a vida

ARTIGO

 

 

Por Percival Maricato, presidente da Abrasel em São Paulo

 

Empresários do setor de Alimentação Fora do Lar (AFL) devem estar sintonizados com a sociabilidade e a celebração da vida

 

O empresário do setor de bares e restaurantes está entre os que menos tem direito a ser pessimista ou conservador. O país foi tomado por uma onda de pessimismo e não faltam fundamentalistas que querem fechar bar mais cedo, perto de escolas, etc. A Abrasel procura evitar essas ondas e tendências, fazendo campanhas contra o pessimismo, pela valorização dos bares e pelo direito ao chopinho, que tanto como o vinho, tomados moderadamente, só podem fazer bem. Mas se alguém quer tomar um a mais, pode lembrar a filósofa Hannah Arendt: eu não vim a mundo para ter saúde, vim para viver.

O pessimista é o sujeito para quem tudo vai mal e não existe saída, o mundo vai acabar. E tanto fala mal que a cada mês tudo fica pior, as expectativas se tornam realidade. Nem poderia ser diferente, pois com a disseminação do pessimismo, mais pessoas não empregam, não investem, não compram, não se divertem, etc. Em economia, expectativas reforçam tendências.

Quanto ao conservador, referimo-nos ao tipo que quer proibir que a juventude se divirta, que as pessoas bebam tranquilamente sua cachaça ou seu chopinho, querem que os bares fechem mais cedo, que a feijoada seja proibida, etc. O lúdico, o amor liberto de amarras, a bebida e o bar, são inspiração do demônio, fazem mal à saúde, etc.

O dono de bar ou restaurante deve resistir a tudo isso, fazer campanha no sentido contrário.

Há uma crise, sim; parte de fato, parte criada pela irresponsabilidade política e o pessimismo das notícias da mídia, que em economia e política - tanto como em futebol, comentários sobre restaurantes, crime e mundo artístico - falam sempre de coisas bombásticas, ruins, o que infelizmente vende bem mais jornais do que notícias boas. Adoram quando o jogador xinga o técnico, o ator trai a atriz, um político é acusado de corrupção, o dólar explode, o cliente é maltratado no restaurante, etc.

Todo país tem crise, é normal; difícil não tê-las a cada dez anos. O capitalismo é cíclico, não há racionalidade que permita completa harmonia entre oferta e procura. O mundo não acaba; as crises sim, sempre terminam, e os bons tempos voltam.

O ano de 2016 chega com muito pessimismo. Isso é prejuízo certo para o comércio, consequentemente, para todos os demais setores da economia. Entre os mais prejudicados está o setor de bares e restaurantes, que trabalha com o que se considera “supérfluo” - conclusão irresponsável, pois é fundamental para a sociabilidade, o prazer, lazer, a saúde mental. Todas as atividades ligadas ao turismo são prejudicadas, pois ninguém viaja para uma cidade triste, onde as pessoas andam de cabeça baixa, braços cruzados, derrotadas.

Nosso setor deve, pois, lutar sempre contra o baixo astral, para mudar o clima para melhor, enxotar o pessimismo, tornar a vida mais agradável, fazer as pessoas pensarem nas coisas boas. Devemos mudar, começando por nós mesmos.

Ninguém está falando que a crise vai acabar só por isso, imediatamente. Estamos falando que é contraproducente só falar de crise, só ver as coisas ruins, ficar chorando, cruzar os braços. Temos que dizer “nós podemos”, e ir à luta.

Com ou sem crise, não há porque não comemorar a vida. Solidariedade, bondade, alegria, amizade, convivência, comemorações, poesia, crianças, namorados e admirar coisas bonitas em nosso caminho não exigem capital ou remuneração elevada. São todos pensamentos e ações gratificantes. Elevam o astral quando valorizados.

Com certeza sairemos desta crise, como de tantas outras, como tantos países saem de tantas crises.

Programe passeios e eventos, planeje, ligue e reúna os amigos, selecione roupas que não usa e leve até um abrigo, cumprimente com mais ênfase as pessoas que trabalham com você, transmita esperança e entusiasmo para quem está a sua volta. A vida é para ser comemorada, com intensidade, emoção, alegria - e isso não tem custo. Principalmente, lembre-se que mesinhas de bares e restaurantes são os locais mais acessíveis comemorar a vida.