31/05/2016 - Um setor de oportunidades

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Bares e restaurantes abrem suas portas para pessoas que chegam ao Brasil em busca de melhores condições de vida

 

 

Desde a Segunda Guerra Mundial, o mundo não tem um número tão grande de pessoas forçadas a deixar seu país de origem. É o que apontam os últimos dados divulgados pela Agência da ONU para Refugiados (Acnur), que em 2014 registrou quase 60 milhões de expatriados. No Brasil, são cerca de 7.700 refugiados de 81 nacionalidades que, segundo o Ministério do Trabalho, têm entre as maiores dificuldades conseguir um emprego. Neste contexto, em diferentes cantos do país, bares e restaurantes abrem suas portas para dar oportunidades a essas pessoas. Uma vez que a contratação de asilados no Brasil pode ser considerada um processo simples - já que, ao chegarem ao país, eles recebem a Carteira de Trabalho e passam a ter os mesmos direitos e deveres dos brasileiros -, a nacionalidade não é empecilho para que os bares e restaurantes ofereçam oportunidades para recomeços.

 

Chances em terras mineiras

Em Belo Horizonte, o proprietário da Cafeteria da Fazenda, Ivagner Ferreira, emprega um sírio e dois haitianos, que atuam, respectivamente, como assistente de cozinha e atendentes. “Prezo por dar oportunidades para as pessoas, independente de onde sejam”, diz o empresário. Segundo dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), em 2014 o Brasil recebeu número recorde pedidos de refúgio (8302), tendo também alcançado uma marca histórica no volume de concessões: 2.320 refugiados foram autorizados a viver no país, sendo mais da metade deles vindos da Síria, que atualmente responde pelo maior número de refugiados em terras brasileiras. Para Ferreira, a maior barreira é o idioma, especialmente pela dificuldade do falante nativo de árabe em aprender a língua portuguesa. “Para contornar a situação, tenho oferecido cursos de capacitação e de idioma”, conta. Em contrapartida, ele afirma que percebe mais comprometimento e dedicação por parte de seus funcionários estrangeiros. “Acredito que isso se dá pela maior necessidade. Além disso, aqui eles aprendem ofícios que poderão utilizar em qualquer lugar do mundo”.

 

No Amazonas, haitianos estão em grande número

Porta de entrada para imigrantes, o Amazonas é uma das unidades federativas que mais recebe imigrantes do Haiti. Em Manaus, o empresário Mario Valle, do restaurante Tambaqui de Banda, afirmou que o haitiano Jean Mercure é seu melhor garçom. “Apesar de ter algumas dificuldades com o português, ele conversa bem e está sempre sorrindo. Com isso ele consegue fidelizar os clientes, é elogiado e recebe bilhetes agradecendo. Tem gente que volta e quer ficar na mesa que ele está atendendo”, conta. Para auxiliar no aprendizado do português, Mário Valle iniciou o projeto Tambaqui de Letras em seus dois restaurantes, onde disponibiliza duas pequenas bibliotecas com livros de romance, para ajudar no aprimoramento do vocabulário, das formas de se expressar e dos conhecimentos gerais. Por receber turistas internacionais, Valle decidiu contratar um funcionário estrangeiro. “Assim os clientes se sentem em um ambiente que, ao mesmo tempo em que é regional, é multicultural”. Satisfeito com o trabalho de Mercure, ele conta que não acertou a contratação de um imigrante na primeira tentativa. “Ele é o terceiro haitiano que passa pelo restaurante. Mas esse problema também acontece com os brasileiros, então acredito que não é uma questão de nacionalidade, mas sim pessoal”, afirma.

Falante de inglês, francês, espanhol e língua crioula, o haitiano fez um curso profissionalizante de garçom no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e foi contratado pouco antes da Copa do Mundo de 2014. “Apesar de o cardápio ser bilíngue, alguns nomes de pratos, como pastel, não têm tradução. Sabendo outros idiomas ele contribui tanto para a interação com os clientes quanto para a apresentação dos pratos”, diz Valle, que contratou Mercure inicialmente como auxiliar de garçom, mas rapidamente o promoveu.

O garçom, que veio para o Brasil em 2013 após morar cinco anos no Equador, onde deixou seus filhos, diz que se sentiu bem acolhido no restaurante. “Aqui eu recebo muitas pessoas e isso me ajuda a aprender e a ficar bem. Além disso, me fez enxergar diferentes opções. Estou fazendo um curso de Hotelaria e Turismo, e pretendo seguir carreira na área”. Agora que está estabelecido, Jean pretende trazer primeiro as filhas, depois os filhos para o Brasil. “A de nove anos está apenas aguardando o visto na Embaixada”, conta.

 

São Paulo possui o maior fluxo de imigrantes

 

 

O estado de São Paulo é o que mais recebe pedidos de refúgio no país. Segundo dados da Acnur, somente em 2014, foram 3.614 solicitações, número quase 12 vezes maior do que o de 2010, quando foram 310. Na Vila Buarque, bairro localizado entre o centro e a zona oeste da capital paulista, está o restaurante Esquina Grill, onde trabalham Caramó Sane e Malan Sanha, ambos nativos da Guiné-Bissau, país da África ocidental. Atuando há pouco mais de seis meses como auxiliar de serviços gerais e ajudante de cozinha, respectivamente, ambos estão aprendendo o ofício de cozinheiro.

“Eles já sabem fazer pratos mais simples, como salada e pastel”, conta a proprietária Lilian Salum. Comovida com a foto que correu o mundo em setembro de 2015, de um menino sírio de 3 anos, Aylan Kurdi, encontrado morto em uma praia da Turquia após o barco em que estava com a família naufragar, ela resolveu contratar os guineenses, que chegaram a ela por indicações de um amigo. “Várias pessoas ficaram sensibilizadas com a situação de pessoas que estão fugindo de condições extremas, como a guerra, e que querem um lugar para viver”, diz.

Com isso, ela afirma que os clientes de sua casa sempre estão interessados em conhecer Sane e Sanha, intensificando as trocas culturais no espaço. “Eles trabalham com prazer e interagem bem. Como eles ainda não estão com a família, percebe-se que o trabalho é tudo o que têm aqui, e por isso se dedicam muito. Além de serem pontuais, têm disponibilidade maior”, diz. Falantes de português lusitano, eles não tiveram maiores dificuldades com o idioma, exceto pelas gírias. “A expressão ‘fazer um extra’, por exemplo, teve que ser explicada pelo menos três vezes.”

 

Fonte: Revista Meu Negócio Minha Vida - Edição 19.