26/04/2016 - Nova York recria cinemas de ruas com bares e restaurantes

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Nova experiência para espectadores vira saída para salas de exibição não fecharem as portas

 

 

Durante uma noite tranquila de domingo em Bushwick, no Brooklyn, algumas dúzias de homens mal vestidos e mulheres magras de 20 e poucos anos se reuniram no interior de um galpão convertido, pedindo canecas de cerveja artesanal em torno de um bar com balcão de mármore.

Essa mesma cena se repetia em incontáveis bares deste bairro pós-industrial. Mas, de repente, o garçom gritou: “Escolham seus lugares para a sessão de 19h de ‘Spring Breakers – Garotas Perigosas’”.

Inaugurado em janeiro, o bar se chama Syndicated e fica ao lado da pizzaria Roberta’s. Ele não é um cinema típico, nem uma galeria de arte independente. Escondido no fundo, depois do bar e do restaurante cavernoso, encontra-se a sala de cinema de 50 lugares, com tela de 711 centímetros onde são exibidos filmes clássicos e os garçons oferecem comida e bebida.

— Cada vez há menos motivos para sair e assistir um filme. Dá pra ver qualquer coisa em qualquer lugar o tempo todo. Por isso, estamos tentando oferecer às pessoas mais razões para que saiam do conforto do sofá de casa — afirmou Tim Chung, de 28 anos, gerente do Syndicated.

Depois que cinemas tradicionais com uma única sala de exibição como o Ziegfeld em Manhattan e o Beekman original fecharam as portas, novos donos de salas como Chung procuram oferecer uma nova experiência para os espectadores, incluindo coquetéis, refeições artesanais e conversas animadas. Ao contrário dos cinemas de shopping, essas salas especiais oferecem um certo senso de comunidade.

— As salas comerciais têm aquela luz fluorescente de hospital. Aqui a iluminação é melhor. É mais relaxado e tem mais comidas e drinques. Além de ser mais barato também — afirmou Kent Johnson, de 35 anos, que estava comemorando o aniversário no Syndicated com amigos.

O Syndicated não é a única opção. Muitos cinemas-butique que oferecem uma atmosfera social estão surgindo em Nova York.

Em março, o Metrograph, com duas salas de exibição, abriu as portas na Ludlow Street, em Chinatown, exibindo um repertório de filmes clássicos, com mais Jean-Luc Godard que “Os Goonies”, além de novos títulos independentes. No aspecto socialização, o cinema conta com um restaurante completo chamado Commissary, que será inaugurado no fim de abril, além de um bar e de uma livraria especializada em cinema e que pode ser usada para eventos especiais.

— Trata-se de fazer mais do que apenas assistir filmes. Existem muitas razões para vir e passar a noite toda se divertindo aqui — afirmou Alexander Olch, de 38 anos, diretor criativo do Metrograph.

A partir do segundo semestre deste ano, o Metrograph ganhará a companhia da Alamo Drafthouse Cinema, um complexo de sete salas no centro do Brooklyn que será parte do conjunto arquitetônico City Point.

A Alamo é uma rede popular com sede no Texas que combina estreias (e alguns filmes clássicos) com um restaurante e um bar, servindo comida e bebida em uma mesa estreita e longa que fica na frente de cada fileira de assentos.

Depois de abrir uma filial em Yonkers, em 2013, a Alamo queria fazer parte do lucrativo mercado nova-iorquino, com sua experiência diferenciada de jantar no cinema e, por isso, escolheu abrir as salas no Brooklyn.

— O centro do Brooklyn era o lugar ideal para nós — afirmou Cristina Cacioppo, de 37 anos, gestora criativa da empresa em Nova York.

A Alamo Drafthouse foi a inspiração por trás do primeiro experimento com cinemas com jantar da cidade. O Nitehawk Cinema, com três salas onde são exibidas estreias de filmes independentes, abriu as portas em Williamsburg, Brooklyn, em 2011. Seu fundador, Matthew Viragh, de 37 anos, era cliente regular do Alamo de Austin e queria trazer essa experiência para Nova York quando se mudou para a cidade há 15 anos.

— Acho que estando em Nova York, as pessoas querem sair de casa. Não querem ficar enfurnadas em apartamentos pequenos. Querem sair e ter experiências especiais cercadas de muita gente — afirmou Viragh.

Ele precisou de algum tempo para concretizar sua visão, em parte por conta de uma lei do tempo da proibição do álcool que impedia a venda de bebidas alcoólicas em cinemas. Ele contratou um lobista, que o ajudou a reverter a lei em 2011.

Com o conceito de beber no cinema ganhando força, novos espaços como o Syndicated começaram a ter novas ideias. Com uma entrada de apenas US$3 e áreas coletivas, a experiência se parece menos com ir a um cinema tradicional, e mais com se reunir com amigos em salas grandes e superchiques.

— Todo mundo bebe e se diverte aqui — afirmou Chung, que estudou cinema na Escola de Artes Visuais e trabalhou como acompanhante em locações de filmagem. A programação do cinema é um reflexo de suas preferências, como a exibição de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” e “Ressaca de Amor” no Dia dos Namorados.

 

Fonte: O Globo *Para ler na íntegra, acesse o site d'O Globo