11/04/2016 - O valor do diálogo em tempos de dificuldades

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MATÉRIA DE CAPA

 

Os quatro exemplos de lideranças que ajudam a superar desafios como o abastecimento de água e o impacto da crise nos negócios

 

Em vez de litígio e de desavenças políticas, é hora de uma grande cooperação mútua. Foi o que afirmou o governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), quando selou com os seus pares – os governadores de São Paulo e de Minas Gerais, o acordo de compartilhamento do uso das águas do Rio Paraíba do Sul. A grande crise da água acelerou o entendimento, que decorreu da iniciativa conduzida por Luiz Fux, ministro do Supremo Tribunal Federal. “O ministro Fux reforçou algo de que o Brasil precisa para superar suas dificuldades, que é o exercício da pactuação”, disse, a propósito, José Carlos Carvalho, que comandou a pasta nacional do Meio Ambiente, em 2002, no último ano do governo Fernando Henrique Cardoso.

Em uma conjuntura de acentuada retração da demanda, de aumento de impostos e de elevadas taxas de juros, os empresários procuram cortar despesas e buscar oxigênio financeiro para tocar o dia a dia de seus negócios. Ao prospectar na Caixa Econômica Federal (CEF) recursos de capital de giro com custos menores, objetivando repassá-los aos associados da Abrasel na Paraíba, Paulo Amaral, presidente da seccional, acabou criando um Arranjo Produtivo Local para todo o setor turístico de seu Estado.

“O balcão é a essência de nossa entidade. Isso significa conversa, entendimento, barganha, combinação”, definiu Amaral. Quanto mais um detentor de cargo público se mostrar aberto ao diálogo, mais valor tem ele para quem convive, diariamente, com o desafio de liderar uma coalizão de empreendedores. Há prefeitos, pelo país afora, que acompanham de perto as programações da Abrasel e do setor de bares e restaurantes. Entre eles, destacam-se, por exemplo, Marcio Lacerda (PSB), em Belo Horizonte, e Gustavo Fruet (PDT), em Curitiba.

 

O avanço dos restaurantes de Curitiba no recuo predial

Gustavo Fruet honrou o compromisso firmado com a Abrasel, durante as eleições, legalizando a ocupação de áreas frontais

Qualquer bar ou restaurante de Curitiba pode utilizar a área de recuo. Basta que o proprietário do estabelecimento faça, junto à prefeitura, a regularização das obras relativas à sua ocupação. Admitem-se a cobertura e o fechamento do recuo, resguardada a livre circulação de pedestres na calçada limítrofe. O decreto em que se estabelecem os valores cobrados pelo uso do recuo dos estabelecimentos foi assinado pelo prefeito Gustavo Fruet (PDT) em 26 de fevereiro de 2015.

Acapital paranaense tornou-se a primeira cidade do país a regulamentar a ocupação do recuo, segundo Marcelo Pereira, conselheiro da Abrasel. Alcançou-se, assim, um objetivo por ele estabelecido em 2008, quando presidia a seccional paranaense da entidade, portanto há sete anos. Desde então, priorizou a meta de remover os embaraços de, aproximadamente, 1,2 mil bares e restaurantes, que anualmente se defrontavam com dificuldades na renovação dos alvarás, uma vez que já utilizavam a área frontal.

Ele realizou sucessivas reuniões internas para debater o assunto. Às vésperas das eleições municipais de 2012, promoveu sabatinas individuais com os quatro candidatos que lideravam as pesquisas de votos. Cada um dos candidatos assinou um termo de compromisso de que levaria adiante pautas pré-definidas pelos associados da Abrasel, presentes à série de sabatinas. Vitorioso no segundo turno, em coligação com o PT, Fruet reafirmou a Pereira, logo que tomou posse, o seu compromisso com a Abrasel.

Mesmo com a boa vontade demonstrada pelo novo prefeito, a Abrasel no Paraná diariamente exerceu, por meio do seu diretor executivo, Luciano Bartolomeu, a tarefa de manter os associados mobilizados em torno da causa, e, também, de manter aceso um permanente diálogo com a secretaria municipal de Urbanismo. Em maio de 2014, foram divulgados os valores de referência para o uso das áreas de recuo dos estabelecimentos.

“Eram cifras astronômicas”, diz Bartolomeu. A Abrasel protestou. O ambiente tornou-se tenso. A imprensa paranaense noticiou o impasse. O prefeito acabou intervindo, manifestando-se surpreso, pois, como comentou na ocasião, achava que o assunto já havia sido resolvido.

No dia 26 de fevereiro, Gustavo Fruet assinava o decreto 179/15, em solenidade realizada na prefeitura. Na comparação entre a última e a primeira tabela, o valor da utilização do recuo, na Zona Central (ZC), da cidade teve uma redução de 83%. Na Zona Residencial 4 (ZR4), caiu de R$ 60,00 para R$ 7,50/m², o que resultou em uma queda de 87,5%. Em termos gerais, os valores incluídos no decreto variam, hoje, de R$ 5,00/m² a R$ 12,50/m².

Marcelo Pereira diz que, com o decreto que regulamentou as áreas de recuo, Curitiba mostra que é uma cidade sempre inovadora. A decisão do prefeito contribui, a seu ver, para tornar a capital paranaense uma cidade ainda mais viva e segura, voltada ao convívio em suas calçadas e ruas.

Gustavo Fruet fez à Bares & Restaurantes esta declaração: “A regulamentação proporciona mais segurança e conforto aos clientes e empresários, e o valor arrecadado é aplicado diretamente no Fundo Municipal de Calçadas. A utilização desse fundo é específica para requalificar as calçadas da cidade. O decreto traz mais segurança para a população em geral e aos empreendedores. Agradeço às entidades representativas do setor, no caso a Abrasel, pela parceria e disposição de diálogo”.

 

O legado da conciliação em conversas na mesa de um bar

A capital mineira é comandada por um frequentador dos bares, considerando-os essenciais à vitalidade e à segurança urbana

O prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), diz que tem conseguido conciliar a presença de bares e restaurantes com as suas vizinhanças, preservando assim um dos mais tradicionais traços de identidade da capital mineira. “Os bares e restaurantes agregam um valor intangível no jeito de ser de nossa gente”, afirma Lacerda, que, neste ano, conclui o segundo mandato consecutivo de gestor da cidade.

Ele é reconhecido por empresários do setor da Alimentação Fora do Lar como um dos prefeitos que, desde a década de 1960, mais valorizaram os bares e restaurantes como pontos irradiadores da vida social e cultural de Belo Horizonte.

Marcio Lacerda sublinha que os bares e restaurantes funcionam como os territórios das conversas e, portanto, do entendimento. “São espaços de convivência, essenciais à manutenção do espírito de diálogo, que marca a cultura mineira”, diz.

 

Nos botecos, a consolidação de amizades

“Em especial em Belo Horizonte, os botecos, bares e restaurantes não se restringem apenas ao consumo gastronômico e ao lazer. Vão bem mais além do que isso. São espaços de convivência, onde o mineiro pode fazer uma das coisas que mais gosta: conversar. Nos botecos a gente consolida amizades, conhece pessoas, troca ideias sobre o trabalho, resolve problemas pessoais com o conselho de amigos, reforça os laços familiares, aprecia uma boa música, discute a cidade. Às vezes, o comer e o beber são apenas o pano de fundo para uma série de outras coisas que fazem bem à alma e ao coração. Além da importância na economia da nossa cidade, da marca turística que ajuda a divulgar Belo Horizonte, este setor agrega um valor intangível no jeito de ser da nossa gente, uma forte presença em nossa identidade cultural. Torna Belo Horizonte uma cidade mais viva, mais humana, mais amiga.”

 

O efeito multiplicador de uma conversa de balcão

Uma ousada ação da Abrasel melhora o ambiente de negócios de pequenas e médias empresas do extenso setor turístico paraibano

Em julho, a Paraíba “ganhou” da Abrasel um Arranjo Produtivo Local (APL) para o seu setor turístico. O mentor dessa dádiva aos paraibanos foi, como disse o presidente estadual da entidade, Paulo Amaral, o espírito de parlamentação e negociação que move toda a Abrasel. “O balcão é a essência de nossa entidade. E isso significa conversa, entendimento, barganha, combinação. O país vai encontrar a trajetória de um desenvolvimento contínuo e seguro se habitualmente praticar o exercício do ajustamento e do acordo. O potencial do Brasil é enorme. Temos de nos coligar de ponta a ponta”, exortou.

Paulo Amaral começou a confeccionar o APL do turismo paraibano em abril de 2015. Ele travou a primeira conversa, neste sentido, com um cliente fiel à sua casa de sanduíches “gourmet” e pratos regionais, o restaurante Fina Fatia, em João Pessoa. O freguês e interlocutor era o gerente regional da Caixa Econômica Federal (CEF), Fábio Uchoa.

“Como é que eu faço para dar aos associados paraibanos da Abrasel o acesso a uma linha de crédito para capital de giro, a custos positivamente diferenciados?”, indagou-lhe Paulo. Entre tantas questões que rondavam a sua agenda de propósitos para Abrasel na Paraíba, em 2015, estava o nó das elevadas taxas de juros no Brasil, particularmente as que fragilizam o setor de bares e restaurantes. A partir da conversa com o cliente e amigo, Amaral traçou um plano de prospecção, com o qual poderia desvendar, sem afobação, o mistério do dinheiro menos caro. “A persistência tem de estar aliada à serenidade. Assim, sempre que podia, mas sem afobação, cumpria mais uma etapa do meu roteiro”, comentou.

O fato é que, ao procurar financiamentos menos indigestos para os bares e restaurantes, Paulo Amaral acabou construindo o APL do turismo paraibano, contemplando um fieira de outros segmentos do setor, como o de hotéis e pousadas, agências de viagens, guias, feiras e eventos, artesanato, transportes de excursões. “Ao resolver uma pendência que atingia os filiados da Abrasel, a nossa associação criou um programa estruturante para todo o Estado, cujas perspectivas econômicas estão assentadas, sobretudo, no turismo”, relatou.

Entabulando conversações e preenchendo as papeladas, conseguiu com que o desejado APL chegasse a bom termo. A Abrasel ficou incumbida de realizar a governança do setor de alimentação. Isso quer dizer que qualquer associado da entidade, desde que adimplente, pode se candidatar ao empréstimo da CEF, no limite de R$ 100 mil para um contrato de 24 meses, a 0,83% ao mês, sem a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) e o Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF). De bandeja, a Abrasel acabou, assim, oferecendo a cada uma das associações especializadas nos diversos segmentos do turismo da Paraíba a possibilidade de, individualmente, se credenciar a exercer a respectiva governança do APL.

Desde setembro, quando o banco acendeu o sinal verde, 33 associados da Abrasel sacaram o financiamento. Agora, é só aguardar a liberação dos novos recursos da Caixa para 2016.

 

Fonte: Revista Bares & Restaurantes nº108 *Matéria na íntegra disponível na versão impressa. Para assinar a revista, Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. .