10/02/2016 - Artistas brasilienses continuam resistindo à censura da Lei do Silêncio

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Fechamento de bares e pressão de alguns moradores não intimidam músicos da cidade

 

 

Há mais de 10 anos no cenário musical de Brasília, o grupo Bejazz tem o bar Pinella como a principal casa de shows, onde toca todas as terças há dois anos e meio. Com a aplicação da Lei do Silêncio, a trupe teve de adaptar as apresentações para atender às reclamações dos moradores, que alegavam ultrapassagem do limite sonoro.

“Nosso repertório é muito tranquilo e sempre tocamos relativamente baixo, até para não incomodar quem está querendo conversar nas mesas”, explica o baterista, Gafanhoto. Mesmo assim, não foi o suficiente para a vizinhança. O bar está isolado acusticamente, as caixas de som foram redirecionadas e o BeJazz não utiliza amplificadores. “A qualidade do som fica horrível e toda semana o público reclama que não consegue ouvir direito”, ressalta. “Mas melhor assim que não poder tocar”, suspira.

Além da restrição à liberdade para fazer boa música, as mudanças trouxeram prejuízos financeiros, porque a arrecadação de couvert diminuiu com a baixa rotatividade de clientes no bar. É o que também aconteceu com o grupo de samba Filhos de Dona Maria, que perdeu metade da renda mensal com o fechamento do Balaio Café, na 201 Norte. O grupo tocava todas as quintas antes de a casa ser fechada por não conseguir arcar com as multas.

Atualmente, grupo se apresenta no Círculo Operário, no Cruzeiro, “o único lugar que sobrou”, lamenta Khalil Santarém, vocalista do Filhos de Dona Maria. Uma alternativa que funciona para eles, que têm certa estrada no samba em Brasília, mas que o vocalista não considera a mais viável. “Nós tiramos o dinheiro do próprio bolso para organizar os eventos e arcamos com todas as perdas”, explica.

 

Carência de espaço

Separadamente, os integrantes também sofreram com as mudanças. Khalil tocava com frequência no Café da Rua 8, no Senhoritas e no bar Tartaruga, na Asa Norte. Todos fechados. “Isso me afetou muito profissionalmente, porque foram os lugares onde aprendi a tocar, onde tive a vivência da rua, que é essencial”, queixa-se.

O Feitiço Mineiro, o Bar Brahma e o Bar do Ferreira, onde o percussionista Vinícius costumava se apresentar, tiveram de retirar as caixas de som após terem as programações musicais temporariamente suspensas. “Você toca acústico em um ambiente que não é propício a esse tipo de show”, expõe.

Mais recente no cenário e com dois discos lançados, a banda de rock Marrakitá teve perspicácia e um pouco de sorte para ganhar o reconhecimento que alcançou em dois anos de estrada. O grupo gravou o primeiro álbum ao vivo e o lançou no YouTube para facilitar a divulgação do trabalho autoral.

Hoje, eles costumam fazer shows em teatros, porque “é onde funciona melhor”, como explica João Pedro Mansur, vocalista e guitarrista da banda.Ele também é guitarrista e compositor da banda caloura CineMondatta, de rock alternativo. A bordo das duas, tocou nos extintos pub 10 0 13 e no Balaio, e lamenta a atual situação: “A música autoral não encontra mais espaço em Brasília”.

 

Fonte: Correio Braziliense * Para ler a matéria na íntegra, acesse o site.