27/04/12 - Sua excelência, o mercado interno

Mais rico e exigente, o consumidor brasileiro gasta R$ 400 bilhões por ano em alimentos e leva o agronegócio a adotá-lo como cliente preferencial

O produtor Richard Franke Dijkstra, do Paraná, trocou parte de sua lavoura transgênica por variedades convencionais de grãos, de olho na forte expansão do consumo interno de bebidas à base de soja. Em Pernambuco, o agricultor Edis Ken Matsumoto, que cultiva uvas de mesa, chegou a exportar 80% de sua produção, mas neste ano deve vender pelo menos 50% da safra por aqui. Para dar conta da demanda, ampliou o plantio em 7,5 hectares.

Rubens Sales, do Ceará, montou uma empresa de pescados para abastecer as principais cidades brasileiras. O Frigorífico JBS/Friboi, com sede em São Paulo, lançou uma campanha na TV para ampliar o consumo de cortes nobres de carne bovina nas classes populares. Ações como essas se espalharam pelo país nos últimos anos e são consequência da explosão do consumo de alimentos.

Com mais dinheiro no bolso, o consumidor nacional sofisticou seu cardápio, fazendo com que a agroindústria brasileira deixasse de mirar somente a clientela internacional para valorizar mais o mercado interno. Não é para menos: somente em alimentos, o mercado brasileiro gerou negócios de R$ 300 bilhões em 2011, com crescimento de 96% nos últimos cinco anos, segundo números da Associação Brasileira da Indústria de Alimentação (Abia).

Para 2012, a expectativa é chegar a R$ 400 bilhões. O bom desempenho das vendas internas não afetará as exportações do agronegócio, que devem alcançar US$ 100 bilhões neste ano, com destaque para o complexo soja, açúcar, carnes e produtos florestais. Mas o mercado doméstico está crescendo como nunca se viu antes, o que obriga as agroindústrias a rever suas estratégias de venda, que agora obrigatoriamente precisam considerar o que está acontecendo dentro de casa.

Produtos à base de soja e com baixa lactose roubam espaço de sucos e refrigerantes. Vale lembrar que, até pouco tempo atrás, por conta principalmente da valorização do dólar em relação ao real, a maior parte das empresas do setor de alimentos se dedicava a entender e atender aos hábitos dos grandes clientes mundiais, vendendo lá fora desde commodities até produtos sofisticados para nichos de mercado.

Esse cenário começou a ser redesenhado ao longo da última década, impulsionado pelo êxito de programas sociais que estimularam a distribuição de renda e a interiorização do consumo. Com isso, nos últimos dez anos, a renda dos 50% mais pobres do Brasil cresceu 68%, enquanto a dos 10% mais ricos subiu apenas 10%. Isso fez com que um contigente de 40 milhões de pessoas – o equivalente a mais de uma Argentina (37 milhões de habitantes) – ascendesse das classes D e E para a classe C, fortalecendo ainda mais o comércio interno.

A explosão da demanda não poderia ter ocorrido em momento mais oportuno, quando os clientes externos, descapitalizados pela crise financeira internacional de 2008, reduziam suas compras e o dólar perdia sua competitividade no mercado mundial.

Estudos mostram que a expansão da classe C – constituída por famílias que detêm renda mensal entre R$ 1.500 e R$ 4.500 e que atualmente corresponde a mais da metade da população – criou um novo comércio no Brasil. São as famílias Silva, Santos, Souza, Ferreira, Pereira, Nascimento, Gonçalves, entre tantas outras, um contingente de 102 milhões de pessoas que provocou uma revolução no mercado nacional, ao ampliar as compras de carnes, peixes, lácteos, frutas, bebidas – e até cigarros. “Hoje, a classe C já tem um poder de compra maior que os mais ricos”, diz o professor da Fundação Getúlio Vargas Marcelo Neri, um estudioso dos temas sociais há 25 anos.

 

Fonte: Revista Globo Rural