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No Rio de Janeiro, lei estadual com a norma vale desde 1995

 

 

Um projeto de lei da vereadora Séfora Mota (PRB) quer obrigar bares, restaurantes e lanchonetes de Porto Alegre a oferecer, como opção aos clientes, água filtrada gratuita. Muito comum nos Estados Unidos e em países da Europa, a prática já é realidade em alguns estabelecimentos da Capital, mas é vista com certa resistência por empresários do setor, que temem reduzir o faturamento.

O PL 167/15 já foi encaminhado para a Comissão de Constituição e Justiça. A vereadora justifica a proposta pelo cunho nutricional que apresenta:

— Queremos induzir que as pessoas consumam mais água. Às vezes, a pessoa deixa de tomar porque a água tem o mesmo preço de uma cerveja ou refrigerante, por exemplo. A lei quer dar mais uma opção ao cliente. E sempre vai ter quem prefira a água engarrafada.

Estados como Rio de Janeiro e São Paulo também se mobilizaram para tornar a oferta gratuita. No Rio de Janeiro, a lei que obriga o fornecimento de água filtrada grátis data de 1995. Neste ano, foi aprovada multa – com valor mínimo de R$ 542. São Paulo caminha na mesma direção: um projeto similar ao de Porto Alegre tramita na Assembleia Legislativa. O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de São Paulo, Percival Maricato, é contra:

— A água vista isoladamente é natural e justa, mas, no conjunto, contraria um sistema capitalista. Cada um sobrevive vendendo o que tem.

 

Uma questão de proposta

Porto Alegre, ainda que de forma incipiente, já conta com alguns bares, restaurantes e cafeterias que aderiram ao serviço. Um deles é o Quintal Orgânico, no bairro Petrópolis. Desde que abriu as portas, em maio de 2013, o estabelecimento serve água filtrada a todos os clientes.

— A gente pega água filtrada, coloca dentro de garrafas que poderiam ir para o lixo, mas que não vão, e põe o rótulo para informar o cliente que essa é uma água pura. E a coisa vem dando certo desde então — garante o proprietário e chef do restaurante, Cesar Sperotto.

Com experiência de trabalho nos EUA, Sperotto trouxe a ideia para Porto Alegre ainda na fase de planejamento do restaurante. Para ele, o ganho conceitual é muito maior do que o financeiro.

— Os gaúchos não estão acostumados, mas isso vai se multiplicar de forma positiva — diz o empresário, que nunca colocou na ponta do lápis o valor que a gentileza lhe custa.

— É uma questão de proposta — define, ressaltando que, apesar da cortesia, o público frequentador não deixa de pedir outros itens do cardápio:

— Suco é a bebida que mais sai no almoço.

 

Queda nas vendas não desanimou empresário

Diferentemente do Quintal Orgânico, que já nasceu com a cultura da água grátis, o Vermelho Grill a implementou quando já tinha oito anos de funcionamento do restaurante, no bairro Jardim Europa. Seu proprietário, Tiago Graeff Fornari, teve a ideia depois de viajar para a Austrália, em 2014. Em fevereiro de 2015, aproveitou a troca de endereço do estabelecimento para inserir a prática. Já na entrada, o cliente é convidado a observar um nicho dedicado às charmosas garrafas de água filtrada que são colocadas à mesa dos consumidores tão logo eles sentam.

— Depois da viagem, pensei: por que os brasileiros demoram tanto para implementar esses serviços? Pelo medo de perder venda. E isso acontece. Mas a pessoa vai ficar feliz e vai voltar aqui mais vezes. Essa é minha linha de raciocínio — explica.

A tal perda de dinheiro foi sentida em uma velocidade acelerada: Fornari viu as vendas de água mineral sem gás despencarem 90% e as de água com gás e refrigerantes, 10%. Nem mesmo esses números desanimam o empresário, que comemora o retorno positivo dos clientes – muitos passaram a comprar a garrafa estilizada.

— Olha que legal: a minha marca está dentro da geladeira das pessoas — celebra Fornari.

No Vermelho Grill, são servidos, por dia, cerca de 80 litros de água a um custo aproximado de R$ 0,15, valor considerado irrisório pelo empresário. A medida agrada aos frequentadores.

 

Entidades do setor fazem ressalvas ao PL

Ainda tramitando na Câmara de Vereadores, o projeto de lei é visto com receio por empresários do ramo. Para a diretora- executiva da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes do Rio Grande no Sul (Abrasel), Thais Kapp, o setor não é de todo contra a ideia, mas está assustado com as muitas leis e o aumento nos custos que elas implicam:

— É muita adaptação para o momento. Os custos estão elevados, a exigência dos clientes também.

Segundo ela, a aprovação traria um impacto financeiro imediato em função da novidade, o que estimularia as pessoas a consumirem somente a água gratuita. Entretanto, com o passar do tempo, esse movimento se tornaria menor:

— A longo prazo, a água filtrada não substitui outro pedido.

Uma das grandes críticas ao texto é o fato de ser unilateral e de não considerar a diversidade do setor. O presidente do Sindicato de Hospedagem e Alimentação de Porto Alegre e Região (Sindha) — entidade que atende desde a bares de rua até restaurantes sofisticados — , Henry Chmelnitsky, considera injusto impor uma regra sem levar isso em consideração.

— Não podemos legislar como se tudo fosse igual. Nós não participamos, não fomos convocados para discutir a questão — explica o presidente.

Chmelnitsky diz que o sindicato não fez um estudo dos possíveis impactos econômicos, mas destaca que seriam muito grandes.

— Número 1: tem de adequar, comprar, instalar e cuidar da manutenção do filtro da água. Depois, tem o abalo na própria receita em decorrência da gratuidade do produto — complementa

O consumidor deve se perguntar: quanto isso vai pesar no meu bolso?

Quanto a atribuir mais valor à comida devido à cortesia, o presidente do Sindha discorda. No entanto, ele acredita que esta talvez seja uma opção para os pequenos comerciantes, por exemplo, que precisarão recuperar a perda de alguma forma.

 

Fonte: ZH