14/12/2015 - Restaurantes de shoppings disputam clientes com descontos e promoções, em São Paulo

CLIPPING - NOTÍCIAS DOS PRINCIPAIS VEÍCULOS DO PAÍS

 

Entre as estratégias de marketing estão raspadinhas com prêmios, sorteios de celulares, cupons de desconto e campanhas de fidelização

 

Neste período de compras natalinas, escolher o que comer nas praças de alimentação dos shoppings está mais difícil. Para contornar a crise, a maioria das redes de restaurantes afiou suas estratégias de marketing, que incluem descontos, sorteios e "pratos de combate".

Em novembro, o custo de comer fora subiu menos que o de se alimentar em casa em São Paulo. Enquanto a alimentação doméstica ficou 1.87% mais cara, a conta nos restaurantes teve alta de 0,45% no mês, segundo o IPCA. No entanto, houve uma inversão: o gasto para comer fora subiu mais do que o de preparar algo em casa em 19 dos últimos 24 meses.

De acordo com pesquisa Datafolha, os paulistanos estão saindo menos para comer fora a lazer. Entre os entrevistados, 60% reduziram o número de visitas a restaurantes neste ano em relação a 2014, enquanto 25% aumentaram a frequência e 14% mantiveram o mesmo ritmo. A redução foi maior entre pessoas com renda de até dois salários mínimos (R$ 1.576) e entre moradores da zona oeste.

Apesar da diminuição na frequência, sair para comer como opção de lazer continua sendo um hábito forte. Segundo a pesquisa, 67% dos moradores da capital paulista mantém a prática e 81% preferem fazer isso aos fins de semana.

A associação entre comida e diversão é mais comum entre quem tem entre 16 e 24 anos (80%) e renda acima de R$ 7.880 (90%).

 

MARKETING AGRESSIVO

"As casas mais afetadas pela crise foram aquelas com tíquete médio entre R$ 30 e R$ 70, que atendem a classe média. Esse público passou a procurar locais com preço mais baixo", diz Percival Maricato, presidente da Abrasel em SP (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes).

De acordo com um levantamento da entidade, um em cada quatro restaurantes do país está com as contas no vermelho. "Para compensar, proprietários trocam produtos do cardápio e investem em marketing mais agressivo", conta Maricato.

Esse reforço no marketing se traduz em praças de alimentação repletas de banners com fotos de pratos, raspadinhas com prêmios, sorteios de celulares, cupons de desconto e campanhas de fidelização.

O McDonald's, por exemplo, lançou uma cartela que soma R$ 180 em descontos. Dá para comprar um Big Mac por R$ 15,50, cerca de R$ 7 abaixo do preço oficial. A Pizza Hut lançou um tamanho menor de fatia que custa R$ 7,90 (veja dicas de pratos abaixo).

No Arabia dos shoppings Iguatemi e JK Iguatemi, de segunda a sexta, é servido um combinado diferente por dia, a R$ 27,90 no almoço. Um deles vem com tabule, homus e kafta. No America do shopping Villa-Lobos, há menu-executivo a partir de R$ 39,90, com fettuccine, suco e sobremesa.

Na churrascaria Fogo de Chão, que tem filial no Center Norte, clientes que forem ao rodízio em grupos de 15 pessoas ou mais ganham um vale de R$ 50 cada um para gastar no local em 2016.

No Big X-Picanha, o hambúrguer de 110 gramas sai por R$ 9,90 e o cliente pode concorrer a um iPhone. Se for quatro vezes na mesma loja e preencher uma cartela, o cliente ganha uma sobremesa de cortesia. Com dez visitas, o prêmio é um voucher de R$ 15.

"A partir do meio do ano, a venda caiu bastante. Você tem que ser muito mais criativo, ter uma boa negociação de custo e margem mais apertada", resume Rita Poli, diretora do Big X-Picanha. "Cada cliente do shopping só come uma vez".

 

UM BANNER POR HORÁRIO

No Seletti, cujos pratos apostam na busca por comida saudável, a estratégia de comunicação foi dividida em quatro períodos: almoço, tarde, noite e fim de semana. No primeiro, as lojas dão destaque para refeições com preço em torno de R$ 16. De tarde, o foco está nos lanches, como combos com wrap.

À noite e no fim de semana, em vez do preço, o destaque vai para produtos mais sofisticados. "Nesses momentos, as pessoas tendem a gastar um pouco mais e oferecemos 'sugestões do chef'. Não é porque há crise que tudo precisa ter desconto", diz Luis Felipe Campos, diretor do Seletti.

Segundo a pesquisa Datafolha, o preço é apenas o quinto item que os paulistanos mais levam em conta ao escolher um restaurante. Limpeza (38%) e qualidade da comida (21%) foram mais citados.

Nas praças onde há concorrência acirrada, o Seletti lança o "prato de combate", que custa R$ 14,90 e traz arroz, hambúrguer e salada. Para baixar o preço, a saída foi trocar produtos e negociar com fornecedores. "Fechamos a compra de grandes quantidades por um preço determinado", explica Campos. "No cardápio, damos destaque ao preço com melhor custo."

A estratégia do Seletti deu certo e várias unidades da rede registraram crescimento de dois dígitos em novembro após viver meses difíceis. A do Tietê Plaza, em Pirituba, zona norte, aumentou seu faturamento em 56% e a do shopping Bourbon, em Perdizes, zona oeste, em 52%, na comparação com o mesmo mês de 2014.

 

ALHO E FEIJÃO

Para o professor Clemens Nunes, doutor em economia pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), o custo de comer fora têm subido menos devido a questões trabalhistas. "Até 2014, os salários cresciam acima da inflação e da produtividade, o que era repassado aos preços. A partir dali, os salários perderam fôlego e as pressões por aumento estão contidas", analisa.

De acordo com a Abrasel, 25% do custo dos restaurantes tem como origem a mão de obra e 40% com os alimentos e bebidas. Esses produtos tiveram alta considerável ao longo do ano. Item comum nas receitas, a batata ficou 30% mais cara em 2015 na cidade. O feijão (17%) e o alho (47%) também tiveram fortes altas.

"Vários cereais têm os preços cotados em dólar. Com a desvalorização do real, eles ficam mais caros", explica Nunes, da FGV. Transportar os produtos também ficou mais caro com o aumento dos combustíveis.

Há também o "custo São Paulo". A cidade possui salários mais altos que a média do país e as restrições de trânsito, como o veto a caminhões durante o dia, encarecem o frete.

"Como o Estado enfrenta falta de chuvas, agricultores tiveram de investir em irrigação, que demanda uso maior de energia elétrica", explica Júlia Ximenes, analista econômica da Fecomércio.

Para 2016, há risco de que mudanças climáticas diminuam a produção agrícola dos EUA. Se isso ocorrer, a expectativa é que haja novo aumento no preço da comida, pois parte da produção daqui seria vendida para o mercado externo. Com marmita ou bandeja, agradar o estômago sem ignorar o bolso continuará sendo um desafio nos próximos meses.

 

Fonte: FOLHA DE SÃO PAULO