07/12/2015 - Água mineral: uma preciosidade pouco valorizada no Brasil

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O crescimento do mercado nacional foi de 15% no ano passado, atingindo um volume de 14 bilhões de litros

 

 

No ranking dos países consumidores de águas minerais, o Brasil está em sexto lugar, com uma demanda per capita de 70 litros/ano. É muito pouco, tendo em vista que a média europeia se situa na faixa de 250 litros por habitante. O generalizado desconhecimento acerca dos sais minerais presentes em suas composições, com reflexos positivos para a saúde e para a experiência gastronômica, leva os brasileiros a considerá-las como uma commodity. Ou seja, não há diferença entre uma ou outra água mineral. E, tampouco, executando-se as questões de segurança dos alimentos, há diferença entre a água de torneira e a água mineral.

O habitual é que se opte por uma água envasada apenas por temer que haja contaminação na água da torneira. Se tal ocorrer, não se deve à qualidade da água fornecida pelas companhias estaduais, mas ao grau de limpeza das caixas d’água ou ao envelhecimento das tubulações dos imóveis residenciais e comerciais, diz o geólogo Carlos Alberto Lancia, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Águas Minerais (Abinam). Quem perde com a desinformação do consumidor sobre as águas minerais é o país, por três motivos, como acrescenta ele.

“O primeiro motivo é que a população perde a oportunidade de ter uma vida mais prazerosa e saudável. Em segundo lugar, é que se deixa de fortalecer o mercado interno, com a geração de empregos e renda. E, em terceiro lugar, porque um produto nobre, do qual dispomos em quantidade e qualidade, fica ausente da nossa pauta de exportações”, discorreu o presidente da Abinam. O que se requer é o envolvimento dos parlamentares e governantes, além dos diversos influenciadores da opinião pública, como os comunicadores, publicitários e jornalistas, os grandes cozinheiros e sommeliers, e, principalmente, os donos de bares e restaurantes.

O Brasil, diz Lancia, precisa dar valor às qualidades intrínsecas de seu extenso leque de águas minerais, para que o consumidor não considere normal que uma Voss, norueguesa, custe R$14,00 no supermercado, ao passo que uma garrafa da água mineral brasileira, de R$ 2,00, seja tida como cara. A despeito da indiferença do consumidor em relação à água mineral brasileira, ele pondera que, embora lentamente, os seus atributos positivos vêm se disseminando, especialmente junto aos públicos que se ligam nos programas televisivos e nas publicações editoriais focados no tema da vida saudável.

O crescimento do mercado nacional foi de 15% no ano passado, atingindo um volume de 14 bilhões de litros. No primeiro semestre deste ano, a expansão foi de 19%. Os maiores mercados mundiais são, por ordem decrescente, a China, os Emirados Árabes, os Estados Unidos, a Itália e a França. O setor de água envolve, no país, cerca de 600 empresas, sendo que 60% do mercado nacional estão concentrados na venda de galões de 20 litros.

 

O mercado vai emergir da degustação

A água premium ainda terá de fazer, no Brasil, o longo percurso já trilhado por outros produtos gourmets, como o azeite, o vinho e a cerveja. O consumidor brasileiro habitualmente não considera, entre suas escolhas, a água de alta qualidade. Quando pede uma garrafa de mineral, é quase sempre na base do com gás ou sem gás, com gelo ou sem gelo. A indiferença cristalizou-se no país durante as muitas décadas de deformação escolar, com professores do ensino básico incorretamente repetindo que toda a água potável é incolor, insípida e inodora.

“A água de elevada qualidade não terá o seu valor reconhecido enquanto seus atributos continuarem sendo ignorados. As características da água somente serão percebidas e difundidas por meio da degustação”, diz Júlia Fortini Souza, gestora da Academia do Café, de Belo Horizonte. Henrique Bandeira de Melo, ou simplesmente Bandeira, como é mais conhecido em Belo Horizonte, onde, até recentemente, exerceu a função superintendente de Comunicação da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), reforça o que diz Júlia Souza: “a água mineral é, no Brasil, uma commodity, uma vez que a maioria dos brasileiros desconhece as marcantes peculiaridades que as diferenciam umas das outras”. E arremata: “o senso comum é de que água é água; é tudo igual”.

A ciência refuta o pressuposto de que a água seja incolor. A água pura - sobretudo quando em grande quantidade - é azulada, conforme as medições da escala Hazen, criada pelo engenheiro hidráulico americano, Allen Hazen (1869-1930). As águas potáveis (portanto, bebíveis) também não são insípidas (isto é, destituídas de sabor) e inodoras (sem cheiro). É o que demonstram os sommeliers das águas minerais (‘sommelier de l’eau’), ao despertarem as sensibilidades individuais para as propriedades da bebida, sejam elas as organolépticas (brilho, odor, sabor, textura), as químicas e, até mesmo, as terapêuticas.

Tanto Júlia Souza quanto Bandeira dizem que a apreciação das qualidades das águas minerais desenvolve-se com o treino de identificar sabores diferentes, decifrando-se as sensações emanadas pelas papilas gustativas. “Acho que os restaurantes, os bares e as cafeterias é que podem fazer com que as pessoas ingressem em uma era de valorização desse riquíssimo patrimônio nacional, que são as águas minerais, uma vez que o Brasil delas possui as maiores reservas mundiais. São as cafeterias, os bares e os restaurantes os principais vetores do necessário avanço da cultura gastronômica entre nós”, discorre Bandeira.

 

Fonte: Revista Bares & Restaurantes nº 106 *Matéria na íntegra disponível na versão impressa