22/10/2015 - Elite paulistana mantém hábitos e faz de estabelecimentos ilhas sem crise

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O empresário Antônio Thamer Butros, 72, passa ao menos 30 horas por semana em um dos restaurantes mais caros de São Paulo.

Um dos clientes mais antigos do A Figueira Rubaiyat, ele tem seu nome gravado em taças, baldes de gelo e facas de carne usadas durante as refeições. Um mimo oferecido apenas aos "habitués" da casa.

"Depende de quantas companhias eu tenho, mas costumo beber de seis a 12 garrafas por dia", diz ele, que prefere a Dom Pérignon, vendida a R$ 1.028 no local.

A fidelidade de clientes da classe alta ajuda a equilibrar as contas de vários estabelecimentos voltados para a elite paulistana, que conseguem manter bons números apesar do mau momento econômico do país.

Dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes apontam para uma queda média de 13% no faturamento do setor em São Paulo no primeiro trimestre de 2015, ante o mesmo período do ano anterior. Mas a agenda de reservas do A Figueira Rubaiyat, lotada até janeiro, indica que por ali tudo anda muito bem, obrigada.

Mesmo quem se diz afetado pelo sentimento de incerteza percebe menos mudanças. Nas casas do Grupo Fasano, por exemplo, o faturamento ficou só 2% abaixo do previsto em 2015. "Não é uma queda brusca, mas sim, algo positivo em um momento de crise forte", diz Rogério Fasano.

Para o diretor operacional do Grupo Rubaiyat, Gerson Meneses, a situação é pior do que a de 2008, "mas quem tem dinheiro sempre vai ter". "É impressionante como a casa trabalha, olha como está", diz, apontando para o salão lotado na tarde de sábado (10). Todos os dias, cerca de 700 pessoas passam por ali. Essa média, diz Meneses, se mantém mesmo nesta fase.

 

'ILHAS SEM CRISE'

A matemática se repete em outras "ilhas sem crise" na cidade. Aos fins de semana, o restaurante Spot, na Bela Vista, já abre as portas com fila de 40 minutos para reservas. Nas noites mais cheias, a espera por uma mesa pode levar até duas horas e meia.

"A crise não chegou ao Spot e nem vai chegar", diz Sérgio Kalil, um dos proprietários. "Em um sábado normal, já não conseguimos atender todo mundo, por isso perder alguns clientes não nos afeta." No Dia dos Namorados, as reservas se esgotaram três meses antes da data.

Cliente assídua do restaurante há seis anos, Maria Alcina dos Santos, 67, empresária, diz estar vivendo um modo de vida mais "espartano" devido à crise. "Se eu venho todos os sábados ao Spot, não dá para ir dez ou oito vezes por mês ao Due Cuochi [restaurante italiano no Itaim Bibi], um lugar que também adoro."

A mesma lógica é usada por Fernando Sommer, sócio da Casa 92, balada da zona oeste. Segundo ele, o local não sente o mau momento "de forma alguma" e o gasto médio é o mesmo.

"[Nossos clientes] são profissionais estabelecidos no mercado que deixaram de realizar compras de roupa, de carro e, por isso, se permitem pelo menos se divertir. A Casa 92 vende alegria e, neste momento, é tudo o que as pessoas procuram."

A análise de Sommer parece valer para outros espaços ocupados pela elite paulistana na capital.

Inaugurado em maio na zona oeste, o Eataly atrai 3.500 pessoas diariamente, número que chega a dobrar nos fins de semana e segue crescendo. "O fator novidade ajuda, mas não é determinante. Acreditamos que não existe crise para qualidade", diz Luigi Testa, um dos gerentes gerais.

"Não há crise nesse mercado. Esse vocabulário não existe no Rodeio. Aqui é o lugar do 'sim'", diz Francisco Chagas, 58, gerente de operação da churrascaria Rodeio. No restaurante, cujo gasto médio dos clientes é de R$ 162, o prato mais pedido é a picanha fatiada: R$ 228 para duas pessoas.

 

CRESCIMENTO

Há quem, além de manter bons números, ainda registre crescimento.

No shopping Cidade Jardim, que abriga grifes de luxo como Ralph Lauren, Giorgio Armani e Hermès, as vendas aumentaram 17% no primeiro trimestre, em comparação com o mesmo período de 2014.

Satisfeito com os resultados do restaurante Piselli, nos Jardins, o empresário Juscelino Pereira, 46, inaugurou há cerca de 20 dias uma unidade da casa no shopping Iguatemi. "Toda crise passa. A ideia é investir e se preparar porque daqui a pouco o Brasil toma o seu rumo de novo", explica.

A Padoca do Maní, em Pinheiros, também apostou em mudanças. A criação de um menu para o almoço ajudou o local a "surfar na onda da crise", segundo a chef Papoula Ribeiro, 44. O café da manhã já era concorrido. Na manhã do sábado (10), não havia mesas para todos e o tempo de espera, nos finais de semana, pode chegar a 45 minutos.

Quem passa pelas lojas Nespresso vê filas para comprar cápsulas de café, cujo conjunto pode custar até R$ 475. Para um dos vendedores, por ser um bem alimentício, as pessoas não vão deixar de comprar o produto.

O casal Gil Rodrigues, 63, e Regina Maria Rodrigues, 61, donos de uma administradora, gastou R$ 200 na loja de Higienópolis. "É um supérfluo, um gosto, que podemos reduzir se a crise chegar." Por enquanto, estão imunes.

 

Fonte: Folha de São Paulo *Para ler na íntegra, visite o site da Folha