20/10/2015 - Eles chegaram para ficar

CLIPPING - NOTÍCIAS DOS PRINCIPAIS VEÍCULOS DO PAÍS

 

Os parklets, minipraças que ocupam vagas de estacionamento, estão se espalhando país afora e levando benefícios também para bares e restaurantes

 

Parklet criado pelo escritório Sobreurbana, em Goiânia

 

Pense em um executivo, entre o stress do dia a dia, se espreguiçando em uma rede para descansar após o almoço em um espaço arborizado em meio à selva de concreto. Se a ideia parece agradável, imagine também que esse local de descanso e lazer estivesse onde antes havia apenas uma vaga de estacionamento para automóveis. Assim são os parklets: extensões de calçada que promovem o uso do espaço público de forma democrática, permitindo à comunidade construir seu próprio lugar de convívio, resgatando as narrativas locais, melhorando a paisagem urbana e transformando espaços em lugares melhores para se viver e conviver.

O conceito surgiu em 2005, na cidade de São Francisco, costa oeste dos Estados Unidos, e já foi adotado por diversas metrópoles norte-americanas. Chicago, Boston e Nova York, por exemplo, já possuem políticas públicas que regulamentam a criação do projeto. O nome faz trocadilho com o ato de estacionar (parking, em inglês) e parques (parks). No Brasil, onde a ideia foi trazida pelo Instituto Mobilidade Verde, os parklets podem ser de iniciativa pública ou de qualquer pessoa física e jurídica. Os custos da instalação, manutenção e remoção são de responsabilidade do mantenedor e os espaços precisam atender normas técnicas de acessibilidade estabelecidas pelos órgãos responsáveis de cada prefeitura. Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia, Fortaleza, Belo Horizonte, Recife, Canoas (RS), Rio Branco, Sorocaba (SP), Juiz de Fora (MG) e Curitiba já possuem um decreto que regulamenta a instalação destes espaços.

De acordo com Lincoln Paiva, presidente do Mobilidade Verde, os esforços para trazer o conceito de extensão da calçada para uso público para São Paulo se iniciaram em 2010, mas apenas em abril de 2014 o prefeito Fernando Haddad (PT) assinou o decreto que regulamenta as instalações. Um levantamento feito pelo caderno Guia, do jornal Folha de S. Paulo, mostra que, na capital paulista, 42 parklets estão abertos. Outras 92 solicitações da iniciativa privada esperam a aprovação da prefeitura, que irá construir, até o final de 2015, 32 parklets públicos, um por subprefeitura do município.

 

Mobilidade e segurança

Em seu manifesto “A partir das ruas, simplifica Brasil”, a Abrasel elenca dez pontos de transformação do país a partir de bares e restaurantes, grandes responsáveis por manterem as cidades vivas. Nesse quesito, segurança e mobilidade são valores fundamentais. Quanto mais bares, restaurantes e comércio lojista, melhor é a segurança das ruas. Mesmo quando as lojas se fecham, nos fins de tarde, os bares e restaurantes ainda permanecem abertos, irradiando pontos de luz, mantendo acesos e voltados para o entorno os olhares de seus frequentadores. A melhor mobilidade urbana, por sua vez,  começa nas ruas, na qualidade das calçadas e na disponibilidade de transporte público de qualidade.

O aumento do fluxo de pessoas é o principal aspecto que contribui para a melhora nos rendimentos de lojas, bares, restaurantes, lanchonetes e demais empreendimentos. “Com maior movimentação, mais pessoas vão ver os estabelecimentos próximos e mais clientes vão entrar para consumir”, afirma Lincoln. Outro ponto destacado por ele é a melhoria na segurança destes locais. “Onde há maior concentração de pessoas, há menos violência”, diz.

Vale lembrar que por se tratar de um espaço público, a utilização comercial dos parklets, mesmo quando não impede o acesso ao público em geral, configura uso indevido do equipamento. Em cada parklet regularizado, há uma placa com o seguinte aviso: “Este é um espaço público acessível a todos. É vedada, em qualquer hipótese, sua utilização exclusiva, inclusive por seu mantenedor”.

Piero Mazzamati, proprietário do bar Pita Kebab, na região do bairro Pinheiros, em São Paulo, é um dos vários empresários responsáveis pela manutenção do parklet em frente ao seu estabelecimento. Na hora do almoço e no jantar, o espaço em frente ao restaurante é disputado. Os garçons não podem servir quem estiver no espaço, mas o usuário do parklet pode buscar a comida e depois se acomodar a céu aberto. “Temos o reconhecimento dos clientes de que o Pita fez algo de bom para o bairro”, destaca Piero, que não revela o investimento gasto para a praça.

 

Rio segue exemplo paulista

Já no Rio de Janeiro, onde a prefeitura regularizou o uso dos parklets em abril desse ano, o projeto foi batizado de Paradas Cariocas, e coordenado pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH). O primeiro projeto carioca a ser aprovado é o do restaurante Pe’ahi, sushi bar de influência havaiana, frequentado por surfistas e com vista para o mar da Barra da Tijuca. Segundo Alexandre Serrado, sócio do bar, a cidade precisa de mais áreas de convívio social. “A Parada Carioca traz um equilíbrio das calçadas roubadas pelos carros, onde as pessoas ficam espremidas e crianças não conseguem transitar”. Após a instalação, o empresário calcula um aumento de fluxo de 10 a 15% no bar, além do ganho urbanístico.

Na Filadélfia, uma pesquisa da University City District, chamada “O Caso dos parklets: mensurando o impacto na vitalidade do passeio do bairro e das empresas” mostra que, nos Estados Unidos, os parklets impactam substancialmente nas vendas, crescendo em média 20% nos estabelecimentos próximos ao equipamento.

 

Em BH

Em Belo Horizonte, a Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL-BH) assinou termo de cooperação com a prefeitura e começou, em maio, a montar um espaço na Rua Goitacazes, no centro da capital, batizado de “Varanda Urbana”. Um segundo parklet permanente foi montado na Avenida Bandeirantes, no Bairro Mangabeiras, Região Centro-Sul. Outros dois parklets também foram instalados, no bairro Floresta. Um quinto foi aberto na região da Savassi, iniciativa da Cervejaria Backer e do restaurante Rokkon, e oferece, além deste espaço de convívio, estacionamento de bicicletas, Wi-Fi gratuito, pontos de energia para utilização de notebooks e celulares. Em outras cidades brasileiras, os projetos estão em fase de aprovação das respectivas prefeituras.

 

Fonte: Revista Bares & Restaurantes nº 105 *Matéria na íntegra disponível na versão impressa