10/06/2015 - Sofisticação e conforto à base de luz natural

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Bares e restaurantes investem no verde, em iluminação e ventilação espontânea, definindo uma identidade refinada

 

 

Com a forte concorrência do mercado, empreendimentos do setor de alimentação fora do lar precisam encontrar diferenciais para que o negócio tenha destaque e obtenha sucesso. Para isso, é preciso pensar além da qualidade do cardápio e dos serviços prestados. Muitos empresários vão em busca de conceitos que acrescentem valores ao estabelecimento. A adoção de práticas sustentáveis como iluminação e ventilação natural é um deles. O aproveitamento da iluminação e da ventilação natural são pontos importantes para se construir a identidade do local. O Restaurante Lilló, na Vila Clementino, zona sul de São Paulo, é considerado um exemplo quando se fala no assunto. Os sócios Luís de Almeida e Eliana Freire seguem o conceito em suas vidas privadas e, ao inaugurarem o empreendimento, decidiram incorporar ao estabelecimento o que já praticavam.

O imóvel foi reformado em 2012 com o objetivo de modernizar o restaurante e criar um amplo salão de eventos. “A arquiteta Christine Calabró, responsável pelo projeto, manteve a originalidade do espaço e acrescentou os elementos que nos tornaram mais sustentáveis, como a ventilação e a iluminação natural, a utilização de lâmpadas LED (onde foi necessária a luz artificial), a presença da vegetação e o reaproveitamento da água”, explica Eliana.

O teto do restaurante possui painéis de vidro e um telhado retrátil, que permitem a entrada de luz durante o dia e a ventilação natural. As lâmpadas foram trocadas por LED, com filtros na cor âmbar (laranja-amarelo), que diminui a intensidade da luz, tornando o ambiente mais agradável e confortável. A iluminação e ventilação do local foram criadas também com a preocupação de manter e preservar as árvores e as demais plantas que ficam no interior do restaurante. Um centenário pé de Cambuci que ocupa o centro do salão principal, por exemplo, está entre os destaques do restaurante. Com o teto retrátil, a iluminação do sol permite que as plantas continuem crescendo saudáveis.

Outro objetivo da iluminação foi valorizar a decoração, composta por materiais naturais ou reaproveitados. O balcão, construído com madeira de demolição, ganhou destaque com fitas de LED também na cor âmbar, acompanhando as demais luzes do ambiente. Eliana afirma que essas e outras práticas fizeram com que o Restaurante Liló fosse considerado pioneiro em preservação ambiental em sua região. “Hoje somos reconhecidos tanto por isso como pela nossa gastronomia variada”.

A arquiteta Beti Font, especialista em projetos sustentáveis, explica que as soluções de cunho ambiental propiciam, além de um ambiente mais atraente e convidativo, um ganho adicional para o estabelecimento que as adotou. “É possível ter uma redução significativa nos custos do negócio com a economia de água e de energia”, diz.

No Restaurante Mata Nativa, na cidade de Rio Branco, capital do Acre, os recursos naturais também foram aproveitados ao máximo. O estabelecimento é cercado de árvores nativas da região amazônica transmitindo aos seus frequentadores a clara percepção de que, de fato, estão no ambiente da floresta tropical. As laterais são abertas, sem janelas, para que a luz natural prevaleça. O telhado é feito de uma palha muito utilizada na região, denominada palha jasi, com o objetivo de tornar o ambiente mais fresco e arejado, além de funcionar como um elemento acústico.

O proprietário Wiverson de Oliveira conta que optou pelo rústico para caracterizar o aspecto local do empreendimento, ao mesmo tempo em que se pretendeu transmitir a sensação de aconchego. Do ponto de vista da gestão do negócio, houve também significativa redução no custo de energia elétrica. “Com o telhado de palha e a ventilação natural eu não preciso usar o ar condicionado, e nos dias mais quentes nós ligamos apenas os ventiladores. Isso me dá uma economia de cerca de 30% na conta de luz”. Essas características constroem a identidade do restaurante. Na região, o Mata Nativa é o único que adotou o estilo verde e é elogiado pelos clientes.

De acordo com a arquiteta Beti Font, muitos são os pontos que devem ser levados em consideração na hora de se criar um projeto baseado na iluminação e ventilação sustentáveis. O primeiro passo é verificar os fatores naturais que incidem no imóvel, como o sol, os ventos e a temperatura da região. “A ideia é tornar o ambiente mais agradável de forma que seja possível aproveitar ao máximo os recursos naturais”, afirma.

A arquiteta foi a responsável pelo projeto do Restaurante Ibérico, do chef Jan Santos e seu sócio Antônio Alcaraz. A casa de dois andares, localizada no bairro Jardim Botânico, região sul do Rio de Janeiro, também inclui soluções voltadas ao meio ambiente e à racionalização de gastos. O espaço foi reformado e reaberto em 2014. Para facilitar a entrada da luz natural, retiraram-se algumas paredes do interior do imóvel e parte de fachada foi demolida. Onde é necessário o uso de iluminação artificial são usadas lâmpadas LED (com redução substancial do consumo de energia). Instalaram-se circuitos independentes e sensores de presença, igualmente com o propósito de aumentar a eficiência energética.

 

Sustentabilidade vale benefícios na capital carioca

A Prefeitura do Rio de Janeiro lançou em 2012 um conjunto de incentivos para as edificações que contemplem soluções ambientais. Ela criou o selo Qualiverde, por meio do qual, são concedidos benefícios fiscais, como descontos ou até isenção nos impostos municipais, para empresas que incluam em seus projetos de construção e reforma providências voltada a redução de impactos ambientais.

O Restaurante Ibérico foi o primeiro estabelecimento comercial contemplado com o selo Qualiverde de construção. Além de outras inovações, o projeto arquitetônico privilegiou a iluminação e ventilação natural no interior do local.

No projeto contemplou-se o telhado verde, permitindo o reaproveitamento da água da chuva e proporcionando maior conforto térmico ao edifício, além de ser um enriquecimento visual para a vizinhança. O recurso faz com que o ar condicionado seja utilizado em uma potência mais baixa, gerando uma redução no consumo de luz, além de reduzir os custos com manutenção e aumentar a vida útil do equipamento.

A água também ganhou atenção especial. Um sistema de captação pluvial armazena e filtra a água para que seja reutilizada, por exemplo, na rega dos jardins e na lavagem de áreas externas. Para racionalizar o uso da água, foram instaladas torneiras com dispositivos de redução da vazão, e também, vasos sanitários com o sistema ecoflush (que oferece opção de descarga de 3 ou de 6 litros de água).

A decoração do ambiente também ganhou um toque natural. Tintas à base de terra, isolamento acústico utilizando materiais reciclados, madeiras e metais reaproveitados de demolição conferiram originalidade ao ambiente em sua proposta de que fosse enquadrado no conceito de ecologicamente correto. Em uma horta no terceiro piso da casa passaram a ser cultivados temperos orgânicos, utilizáveis nos pratos inspirados na culinária espanhola. Criou-se ainda um jardim de espécies nativas, em linha com a decoração e o ambiente geral do restaurante.

Para o empresário Antônio Alcaraz, a iniciativa de reunir diversas técnicas e ideias voltadas a um projeto sustentável acaba, no entanto, tendo um custo elevado, uma vez que no país não se oferecem incentivos ficais que dêem sustentação as estas iniciativas pioneiras. Ele diz que o conceito de sustentabilidade ultrapassa as barreiras do ecologicamente correto. “A sustentabilidade vai além das questões ambientais e por isso fomos ao caminho do que consideramos sustentabilidade integral: econômica, ambiental e social”. Os empreendedores apostam também em projetos de transformação social, que promovam a capacitação de jovens de famílias de baixa renda. “Os benefícios virão com o tempo, quando conseguirmos amortizar o investimento”, afirma Antônio.

 

Fonte: Revista Bares & Restaurantes nº 103 *Matéria na íntegra disponível na versão impressa