04/03/2015 - O que esperar de 2015?

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O ano promete mudanças importantes para o setor e pode contribuir para impulsionar a energia empreendedora dos proprietários de bares e restaurantes

 

Depois de um ano de estagnação e incertezas, a expectativa é que em 2015 algumas questões-chave para o desenvolvimento de bares e restaurantes sejam resolvidas. A possibilidade de avanço com relação às demandas que envolvem esse setor, como a regulamentação da gorjeta e a criação de um cenário mais competitivo entre as operadoras de cartões, em consonância com a nova política econômica que será apresentada pelo governo federal, levam a crer que o setor contará com alicerces mais sólidos para um crescimento estruturado nos próximos doze meses. Alguns desafios antigos ainda precisam de soluções para soltar amarras atravancando a prosperidade dos um milhão de bares e restaurantes que impulsionam a economia do país. Neste sentido, a Abrasel continuará com sua missão de representar e desenvolver o setor de alimentação fora do lar e enxerga 2015 como um ano auspicioso para entidade.

Em Curitiba, o Ernesto Ristorante, cozinha italiana, por exemplo, trabalha com diversos produtos importados como queijos e vinhos europeus. A alta do dólar é uma das preocupações em 2015. “Nos últimos três anos, o preço que eu pagava por uma garrafa de vinho importado aumentou cerca de 70%. É impossível não repassar isso ao cliente, que passou a consumir vinhos mais comuns. O jeito é compensar esses reajustes com bom atendimento e qualidade nas refeições”, afirma o proprietário da casa, Dudu Sperandio.

Além da reeleição de Dilma Rousseff, as últimas eleições também acarretaram mudanças no Congresso Nacional que podem ter impactos para o setor de bares e restaurantes. Segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), a bancada sindical sofreu grave revés nas urnas, com uma queda dos 83 representantes atuais para 46 nos próximos anos. Algumas questões importantes como a regulamentação da gorjeta e a formalização do trabalho intermitente dependem de aprovação e a nova composição do Congresso pode acelerar esse processo.

“Acreditamos que essa redução da bancada sindical, sinalizada nas últimas eleições, pode dar mais espaço para o empresariado no Congresso Nacional. Espero que tenhamos mais condições de resolver questões inadiáveis, sobretudo com relação à legislação do trabalho intermitente no país. Todos reclamam da competitividade do setor e, agora, poderemos debater esses temas com mais celeridade”, afirma Solmucci.

Os avanços na legislação trabalhista são fundamentais para modernizar as formas de contratação no Brasil, proporcionando maior inserção no mercado de trabalho e adequação às demandas dos empregadores. O trabalho intermitente (jornada por hora com escala móvel) é um exemplo disso. Aceito em diversos países da Europa e das Américas, inclusive na do Sul, e boa opção para os estudantes, possibilita que o contratado trabalhe em horas e períodos que melhor atendam as suas necessidades e as da empresa. “Precisamos modernizar a legislação trabalhista, contemplando o trabalho intermitente como acontece no exterior. Essa rigidez na contratação dificulta muito a vida do empregador e de quem precisa de mais flexibilidade de horários para trabalhar. A regularização do trabalho intermitente traria uma nova e disposta mão de obra, com universitários que estudam e trabalhariam três horas por dia nos horários de pico dos estabelecimentos comerciais”, avalia o presidente do Conselho de Administração Nacional da Abrasel, Pedro Hoffmann.

Outro entrave ainda pendente de aprovação no Congresso é a regulamentação da gorjeta. O Projeto de Lei (PLC 57/2010) integra a gorjeta à remuneração dos empregados e permite que a empresa retenha até 20% do valor para arcar com os custos de encargos sociais e previdenciários. Entre os motivos de impasse está a criação de uma alíquota especial a ser descontada da gorjeta bruta para empresas que não se enquadram no Simples Nacional. Os 20% descontados são suficientes apenas para empresas inseridas no regime do Simples, sendo que as demais têm custos adicionais estimados em 35% do valor da gorjeta. Como as novas faixas do Simples estão em estudo pela presidenta Dilma é possível que saia um acordo.

A Abrasel entende que tal medida significaria grande avanço para o setor, trazendo maior segurança jurídica na relação empregado-empregador. “A falta de regulamentação da gorjeta resulta em muitos prejuízos às empresas na Justiça do Trabalho, com decisões estranhas e desproporcionais. Outro ponto a ser analisado com urgência é que a gorjeta é uma das principais fontes de desgaste do trabalhador com o patrão. Resolver esse problema é importantíssimo em 2015”, ressalta Paulo Solmucci.

 

Ampliação do Simples

Um recente avanço legislativo para o setor de bares e restaurantes foi a aprovação da lei que “universaliza” o Simples Nacional. Sancionada em agosto de 2014, entre outras melhorias, a medida atualiza a Lei Geral da Micro e Pequena Empresa e deve facilitar o recolhimento de contribuições desses empreendimentos, bem como reduzir a burocracia na abertura e fechamento de empresas. A estimativa do governo federal é que a ampliação do Simples alcance mais de 450 mil empreendimentos. As modificações tributárias passam a valer a partir de janeiro de 2015.

Um ponto relevante da nova lei é o tratamento diferenciado para as micro e pequenas empresas. Agora, toda norma precisará discriminar como esses negócios serão tratados. Se uma medida não esclarece isso, não é válida para as micro e pequenas empresas. Além disso, passa a valer o princípio da dupla visita nos momentos de fiscalização. Primeiramente, o fiscal precisa orientar o empresário para que ele faça as mudanças necessárias. Caso a irregularidade persista, se torna passível de multa.

“Ao ser do Simples, a empresa passa a ser vista pelo porte, e não pela atividade. Aumenta o potencial de criação e formalização de empresas. Estamos buscando, na simplicidade, a eficiência. Hoje, somos nove milhões de unidades de negócios (no Simples). Se cada um puder gerar mais um empreguinho, são mais nove milhões de empregos”, disse à época da mudança o ministro da Secretaria da Micro e Pequena Empresa, Guilherme Afif Domingos.

A formalização é um dos grandes desafios do setor de bares e restaurantes. Dentre os um milhão de negócios que compõem o setor de alimentação fora do lar no Brasil, 65% são informais e não possuem CNPJ. Segundo o Sebrae, cerca de um milhão de microempreendedores individuais têm sido formalizados a cada ano e a tendência é que em 2015 esse número continue avançando. Um ganho recente nesse sentido ocorreu na última quinta-feira (26), quando a presidente lançou em Brasília o programa "Bem Mais Simples", cujo objetivo é simplificar processos para quem quer empreender no País.

Outra preocupação quanto ao Simples é a de não penalizar os empreendimentos que estão crescendo. Isso porque para aderir ao programa, o teto de faturamento anual é de R$3,6 milhões. Na prática, empresas que estão próximas a esse limite acabam optando por não crescer para não serem obrigadas a abandonar o sistema de tributação do Simples. “O governo está estudando uma alternativa de escalonamento para amenizar essa tributação aos empresários que estão deixando o Simples por ultrapassarem o teto. Fazendo uma comparação, essa saída seria por meio de uma ‘rampa’ ao invés de um degrau brusco, estimulando o crescimento dos negócios”, explica Paulo Solmucci.

Uma das medidas analisadas é o aumento desse teto, que poderia chegar a R$7,2 milhões para o setor de serviços. “O governo está acenando com o aumento do limite do Simples, o que seria um ganho importante. Alguns especialistas sugerem até dobrar o teto (passando de R$3,6 a R$7,2 milhões de faturamento anual). Quem sai do Simples, hoje, tem um grande baque e esse aumento do teto ajudaria muito os empresários”, avalia Pedro Hoffmann.|

No entanto, apesar dos esforços do ministro Afif, a aprovação das novas tabelas do Simples Nacional pode ser adiada para 2015. O clima tenso que tomou conta do Congresso Nacional, com as tentativas do governo de fechar as contas de 2014, dificultou a votação das tabelas.

Embora tenha condicionado o encaminhamento das tabelas ao posicionamento dos seus futuros colegas de governo, Afif disse que não deve haver resistência do Congresso às modificações no regime tributário. “Os parlamentares aprovaram, por unanimidade, a atualização do Simples Nacional. Não deve mudar o posicionamento agora para esse novo aperfeiçoamento”, disse.

 

Concorrência positiva

Um dos cenários mais animadores para o setor, em 2015, diz respeito aos meios de pagamento. A revisão das abusivas taxas de administração praticadas pelas operadoras de cartões no país, com o surgimento de um mercado mais competitivo, é uma das principais causas da Abrasel. Ao longo de 2013, a entidade participou ativamente da luta para aumentar a competição entre as operadoras de cartões no país, que cobram, em média, 4% do valor de cada operação nos cartões de crédito e de 6% nos vales-refeição – na França, por exemplo, a taxa é de 0,5% e em outros países na Europa e Estados Unidos gira em torno de 1%.

Com a aprovação da Lei 12.865/2013, o mercado está diante de regras mais claras, ampliando a segurança jurídica das empresas, sobretudo ao conferir maior poder ao Banco Central. Após a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) anunciar que foram assinados acordos para ampliar a aceitação de determinadas bandeiras no país, o diretor de política monetária do Banco Central (BC), Aldo Mendes, lançou o que considera um próximo desafio para as empresas do segmento: que credenciadoras e bandeiras consigam costurar um modelo de captura plena das compras em cartões (“full acquirer”, em inglês). “Nossa percepção é que esse é um modelo que permite que as empresas concorram plenamente”, afirmou Mendes em evento do setor realizado em novembro, em São Paulo.

“O ano de 2015 chega com muita concorrência nesse setor de pagamentos. Vamos ter um ano histórico nesse sentido, com expectativa de redução de 20% das taxas cobradas pelas operadoras de cartão de crédito. O fim da exclusividade das bandeiras nas máquinas também ajuda muito nesse cenário, com várias empresas oferecendo seus serviços. Antes, um restaurante era obrigado a ter quatro máquinas, agora uma pode ser suficiente. Isso gera redução de custos. Os proprietários de bares e restaurantes economizam e acabam não repassando essas despesas aos clientes”, ressalta o presidente executivo da Abrasel.

Estabilização do aluguel Um dos vilões no orçamento de bares e restaurantes é o aluguel. Nos últimos anos, o país passou por gradativos aumentos para a locação do ponto comercial, com reajustes que quase dobraram o valor do aluguel e muito acima dos índices de inflação do período. Para 2015, a tendência é que esse cenário tenha melhoras. “Deve haver uma freada nos reajustes do valor do aluguel. Aumentaram as placas de ‘aluga-se’ pelas ruas das grandes cidades, o que já é um sinal de maior disponibilidade de imóveis. Isso já passou do limite do suportável para os estabelecimentos e imagino que, no ano que vem, não tenhamos reajustes tão pesados”, sinaliza Pedro Hoffmann.

O VivaReal, portal com mais 2,5 milhões de anúncios para compra e locação, desenvolveu uma pesquisa depois das últimas eleições com corretores, imobiliárias e incorporadoras para entender as principais expectativas sobre o mercado imobiliário para 2015. Questionados, de maneira geral, se o mercado imobiliário deve piorar, melhorar ou permanecer estável, 56% dos entrevistados optaram com a perspectiva de estabilização de preços.

 

Soluções criativas para atrair o cliente

Para aumentar o faturamento em 2015, a criatividade pode ser uma grande aliada. O Armazém Medeiros, em Belo Horizonte, é conhecido pelo tradicional “happy hour” em um dos bairros com maior concentração de bares da capital mineira. No ano que vem, passará também a servir almoço para aumentar a receita. “Já estou me estruturando para servir almoço em 2015. Minha região possui muitos escritórios e vejo um potencial público-alvo para esse horário. Isso sem deixar a qualidade do bar pela noite cair, obviamente. A alternativa é enxugar as despesas e encontrar soluções para continuar crescendo”, afirma o proprietário Marcílio Diniz.

Apostar na qualidade dos produtos, bem como em um atendimento diferenciado, pode ser uma boa solução. É o que ressalta Nelson Tubino, proprietário do Santa Breja, em Manaus. O estabelecimento funciona desde setembro e já ganhou público cativo. “Apesar das especulações de crise, conseguimos registrar bons resultados. Em Manaus, há demanda e espaço para o crescimento do setor de alimentação fora do lar”, avalia.

Para 2015, a expectativa do empresário se mantém positiva. A ideia é investir em ações e eventos que possam atrair o cliente. “O festival Bar em Bar, da Abrasel, é um bom exemplo, visto que eleva o movimento e a visibilidade do estabelecimento, o que reflete positivamente na receita do negócio.”

Participar de festivais também é uma aposta de Claudio Corrêa, proprietário do Claudius Grill, em São Paulo. “Esses eventos podem ajudar a melhorar o movimento e a fidelizar os clientes”, ressalta. Em 2015, ele também pretende repensar seu cardápio. “Estou planejando mudanças no menu. Tenho mais de 20 anos de funcionamento e não posso descaracterizar meus pratos, mas é possível inovar”, conclui.

 

Fonte: Revista Bares & Restaurantes nº101 *Matéria na íntegra disponível na versão impressa