Varejo prevê perda de R$ 36,5 milhões por dia com crise da água na Grande SP

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O varejo da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) pode perder cerca de R$ 36,5 milhões por dia em razão da crise da água – basta que a escassez obrigue 5% dos estabelecimentos a fecharem as portas a cada dia. Para a capital, o prejuízo é de R$ 21 milhões.

A projeção faz parte de um estudo ainda inédito da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (FecomercioSP). Os dados serão apresentados nesta sexta-feira (6) ao secretário de Recursos Hídricos, Benedito Braga, e ao presidente da Sabesp, Jerson Kelman, em evento na sede da instituição.

"[A estimativa] está bastante conservadora", diz Jaime Vasconcellos, assessor econômico da FecomercioSP. "Algumas atividades do setor de varejo e comércio são mais afetadas, como bares e restaurantes. O impacto pode ser pior."

Um bar, por exemplo, consome 40 litos de água por dia por metro quadrado de área, ante os 6 a 10 litros necessários numa loja de roupas, calcula a FecomercioSP.

Por ora, sabe-se que os empresários têm gastado cada vez mais com copos e pratos descartáveis e água engarrafada para evitar prejuízos à atividade.

"Em 2014, o preço da água mineral subiu 13,3% em São Paulo e 8,8% no Brasil. Quer dizer, no fundo, as pessoas já estão se preparando para o racionamento. Estão usando mais água mineral ou estocando", diz José Goldemberg, presidente do Conselho de Sustentabilidade da FecomercioSP.

Num setor em que 97% são micro e pequenos empresários, entretanto, muitos não possuem espaço ou dinheiro para colocar os reservatórios extras, afirma Vasconcellos.

E eles serão indeficazes se a Sabesp colocar em prática um rodízio de cinco dias sem água por semana – projeção feita por um de seus diretores na semana passada. A medida tornaria real a ameaça de fechamento de portas.

"Nem com caixa d'água [um restaurante consegue ficar cinco dias sem água]", afirma Goldemberg. "Esse tipo de proposta não vai vingar. Tenho a impressão de que as medidas que estão sendo tomadas pelo governo vão impedir que cheguemos a uma situação tão dramática."

Para o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes - São Paulo (Abrasel-SP), Percival Maricato, é "muito difícil" que algum estabelecimento consiga operar cinco dias sem água.

"Um bar ou restaurante esgota o estoque de água num único dia. Colocando cisternas e segunda caixa d'água, como estamos fazendo, pode aguentar no máximo três. Cinco dias, jamais", diz.

A associação tem recebido relatos "pontuais" de estabelecimentos que tiveram de suspender o atendimento em razão da falta de água, diz Maricato.

"Teve quem fechou um dia ou dois porque, sem água, não tinha como continuar a servir o cliente. Mas são casos isolados."

Dono de um restaurante na zona sul de São Paulo, João Souza Vital, de 67 anos, diz ter perdido dois dias de atendimento desde o início do ano neste mês em razão da falta de água, e tem recolhido a mais copos e pratos de plástico para evitar prejuízos.

"O talher eu uso o meu [de metal], porque ninguém quer fatiar um filé com faca de plástico", conta.

Situação é de guerra, diz Skaf

Na indústria, a dependência de água da Sabesp – ou de outras companhias de abastecimento – é menor, pois muitas captam o recurso diretamente dos rios ou por meio de poços artesianos.

Quatro em cada dez empresas do Estado possuem fontes alternativas de água, segundo estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) concluído em maio do ano passado – uma nova versão será divulgada em breve.

Ainda assim, o setor produtivo pode ser afetado indiretamente, pois a captação de água dos rios – uma das fontes alternativas da indústria – terá de ser reduzida caso o sistema Cantareira caia abaixo de um determinado nível.

Além disso, a abertura de poços artesianos está mais restrita desde meados do ano passado, por determinação dos governos federal e estadual. A Fiesp realiza um mapeamento dos locais onde ainda é possível fazer a perfuração.

Presidente da Fiesp, Paulo Skaf evita fazer cálculos sobre o impacto da crise hídrica sobre o setor produtivo, mas projeta um cenário alarmante.

"Nós estamos agora numa situação de guerra, numa situação de busca de solução, numa situação de bomba estourada", diz. "Nesta região de São Paulo e Campinas [abastecidas pelo sistema Cantareira] é onde estão mais de 50% do PIB industrial de São Paulo. São mais ou menos 40 mil estabelecimentos que empregam aproximadamente 2 milhões de trabalhadores. Então na realidade é bastante grave. Nós vamos tentar tomar todas as providências, mas pegando uma situação realmente gravíssima."