27/03/12 - Empresas americanas se preparam para disputar o mercado brasileiro de cartões

Interessadas em um negócio que cresce 20% ao ano, companhias como Tsys, First Data, Elavon e Global Payments podem tomar “fatia importante” do mercado, diz Abecs

O rentável mercado brasileiro de cartões vem atraindo não apenas investimentos de grandes bancos brasileiros, mas também de gigantes norte-americanos. Por aqui, Itau Unibanco e o Santander vêm mostrando que apostam forte no segmento de adquirência (credenciamento de lojistas). Nos Estados Unidos, companhias como Elavon, Tsys, Global Payments e First Data se preparam para abocanhar uma fatia do faturamento do setor no Brasil.

Não é a toa que gigantes internacionais estejam de olho no negócio de cartões no Brasil. O crescimento de 20% últimos anos salta aos olhos das companhias de meios de pagamento, principalmente em um momento de incertezas em relação ao crescimento global. Em 2011, o faturamento das companhias do setor cresceu 24% no país. Neste ano, o avanço deve ser de 20%, na projeção considerada pela Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Credito e Serviços (Abecs) como “conservadora”.

No serviço de adquirência, o mercado local é praticamente dominado pela Cielo e pela Redecard, com mais de 90% de participação. Em 2011, quando a bolsa de valores brasileira viu seu principal índice derreter 18%, as ações da Cielo avançaram 53,3% e as da Redecard avançaram 49,2%. Enquanto isso, nos Estados Unidos, mais de 200 companhias disputam a preferência dos lojistas, em um mercado já desenvolvido. De dois anos para cá, algumas dessas empresas vêm manifestando interesse em participar do crescimento brasileiro, onde o setor de cartões ainda corresponde por apenas 26,8% do consumo das famílias (nos EUA, são 45%) e deve atingir 36% em até cinco anos, na estimativa da Abecs.

Ainda que dificilmente consigam rachar o mercado brasileiro de adquirência em três no curto prazo, essas companhias devem tomar uma “fatia importante” do mercado local, na opinião de Claudio Yamagutti, presidente da Abecs. Entre as principais barreiras estão a dificuldade de montar uma infraestrutura de grande abrangência para atuar no Brasil – o que exigirá grandes investimentos - e as parcerias com grandes bancos – o que facilita aceitação entre as bandeiras, já que a capacidade de emissão de cartões e crédito é maior.

De toda forma, ele acredita que "há, sem dúvidas, espaço para as norte-americanas atuarem aqui”. “Não é trivial montar uma rede de distribuição, mas acho que podem conseguir espaço atuando, por exemplo, em regiões ou nichos específicos,” afirma o executivo, que também é presidente da Redecard.

Mas, a princípio, não é este o objetivo da Elavon, a primeira a detalhar sua entrada no mercado brasileiro, anunciada no ano passado por meio de uma joint-venture om o Citibank. A companhia afirma que pretende ter uma “presença forte em todo o território nacional” e uma atuação “no mercado como um todo.” Apenas no início, a Elavon priorizará as regiões metropolitanas do sudeste e clientes de setores nos quais já é líder no exterior, como turismo, supermercado, automotivo e saúde.

A meta ambiciosa da companhia, que já está atuando em fase de testes no país, é atingir cerca de mil adesões por parte das redes de estabelecimentos já no começo do segundo semestre, e chegar a 15% do mercado brasileiro nos primeiros cinco de atuação. A estratégia da Elavon para conseguir seu objetivo envolve preços competitivos no aluguel das maquininhas e o uso de tecnologias inovadoras, que pretende importar do exterior, afirma a empresa. Nos EUA, a companhia é a segunda em número de empresas afiliadas e realiza em torno de 2,8 bilhões de transações no mundo por ano.

Diferentemente da Elavon, a First Data, que já atua no Brasil desde 2002 oferecendo processamento de pagamentos e soluções para correspondentes não bancários, não detalha suas pretensões para o mercado brasileiro. Mas, segundo fontes, também está de olho no ramo de credenciamento de cartões. A empresa afirmou ao iG que ainda não está preparada para falar sobre sua estratégia em adquirência no Brasil.

“Preferimos não falar sobre nossa estratégia para o mercado de adquirência, mas temos experiência global neste tipo de solução e estamos ansiosos para ajudar este serviço no mercado brasileiro,” disse a companhia, que tem 40 anos de experiência em serviços de pagamentos no mundo, com mais de seis milhões de estabelecimentos comerciais atendidos.

Outras companhias norte-americanas atentas ao crescimento do mercado brasileiro de credenciamento de cartões são a TSYS e a Global Payments. A TSYS, que já atua no processamento de cartões no Brasil, onde começou a operar em 2008, está se expandindo no país aos poucos e também busca um espaço ao lado da Cielo e da Redecard. A empresa se diz “inteiramente comprometida com o Brasil” e, no ano passado, nomeou David Duncan, que antes era gerente da empresa para a China e o Sudeste Asiático, seu gerente geral no país.

A Tsys pretende começar a atuar como adquirente em nichos específicos e ainda pouco explorados, como o de transportes públicos e de saúde. A empresa já está em estágio avançado na montagem de uma infraestrutura para operar no Brasil, e procura um banco para ser seu parceiro.

Procurada pelo iG, a Global Payments afirmou que está em período de silêncio e não pode comentar o assunto. A companhia anunciou em janeiro do ano passado seu interesse no mercado brasileiro de adquirência. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, há dois meses, o presidente da companhia no Brasil, Edson Luiz dos Santos, afirmou que o maior obstáculo para as estrangeiras vem sendo a parceria com os bancos.

 

Gigantes brasileiros

O Santander, que entrou na briga pelo mercado brasileiro de adquirência em 2010 por meio de sua parceria com a GetNet, faturou R$ 11 bilhões o negócio em 2011. Atualmente, tem cerca de 2,6% do mercado e com 240 mil estabelecimentos credenciados. O Itau Unibanco, por sua vez, optou por comprar a totalidade das ações da Redecard há dois meses. Detentor de 50% das ações da credenciadora, o banco anunciou em fevereiro que irá comprar outros 49,9% no mercado e fechar o capital da empresa.

 

Fonte: IG