23/12/2014 - Seguro-desemprego vira abono de férias

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Vendedores provocam desligamento para embolsar benefícios e passar o verão descansando; alguns só voltam ao mercado depois do carnaval

 

Mesmo com os índices de desocupação nos menores níveis da história, o seguro-desemprego não para de crescer. Nos últimos 12 meses encerrados em outubro, as despesas do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) cresceram 15,5%, acima do dobro da média anual verificada nos últimos três anos. O ônus não é apenas para os cofres públicos. Para empresas do varejo, que têm concentrado boa parte das demissões, o pagamento de multas rescisórias tem sido um peso cada vez maior.

A proximidade do Natal faz as vendas atingirem o melhor patamar do ano. Mas, por incrível que pareça, a necessidade de dispensar funcionários também aumenta. E os responsáveis por isso são os próprios trabalhadores. Alguns esperam janeiro para cavar uma demissão e aproveitar férias de vários meses. Outros se dão por satisfeitos antes mesmo de o Papai Noel chegar. Há, ainda, os que buscam embolsar os abonos pela saída para reforçar o caixa, mas, em afronta à lei, continuam atuando em vendas sem carteira assinada.

“Trabalho há oito anos no varejo e é sempre a mesma coisa. Muitos se aproveitam da experiência profissional para sair e retornar ao mercado de trabalho depois das festas de fim de ano e do carnaval. Geralmente, eles começam a fazer ‘corpo mole’ pouco depois da metade do ano”, conta um vendedor de uma loja de eletrodomésticos, que não quis ser identificado. Ele afirma que, somente neste mês, três funcionários foram mandados embora da loja onde trabalha por esse motivo. “E parece que outros dois estão querendo a mesma coisa”, acrescenta.

Se dezembro já registra aumento das dispensas, em nenhum outro mês do ano o gasto com rescisões cresce tanto quanto em janeiro. Levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) aponta que, desde 2007, as demissões sem justa causa cresceram na passagem de dezembro para janeiro em cerca de 25%. Mas, em janeiro passado, houve uma explosão: o aumento foi de 42% em relação ao último mês de 2013. “E não se podem culpar as contratações temporárias, que são encerradas sem multa”, destaca o economista da CNC Fábio Bentes.

O presidente executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci Júnior, avalia que, no seu setor, o problema é até mais grave. “O trabalhador pressiona a demissão não para ficar em casa ou para viajar, mas sim para conseguir outra posição. O aquecimento da demanda de fim de ano leva muitos empresários ao desespero. Por isso, aceitam contratar alguém que está no seguro-desemprego sem assinar a carteira”, explica. Segundo ele, o empresário sente-se refém tanto na dispensa quanto na contratação. “Se não demite, corre até o risco de o funcionário colocar alguma coisa na comida do cliente de forma proposital”, emenda.

Solmucci nota que isso representa um custo pago por toda a sociedade. “Em tempos de denúncias de corrupção, as pessoas precisam ter consciência de que o mau uso do dinheiro público retarda investimentos na educação, na segurança pública e na saúde. E isso pode até tirar vidas”, diz. E chama atenção para as implicações jurídicas dessa atitude: “É algo tão grave quanto qualquer ato criminoso”.

No varejo, 63% dos trabalhadores têm até dois anos no corrente emprego. O número de trabalhadores atuando há mais de dois anos para o mesmo patrão não chega a 15%. Das atividades de alta rotatividade, 49,9% dos almoxarifes e armazenistas têm menos de 12 meses no emprego atual. Entre os operadores de caixa, 48,6% estão há menos de um ano, seguidos por vendedores (46,4%) e escriturários, agentes, assistentes e auxiliares administrativos (41,6%). Juntas, essas ocupações respondem por 53% da força de trabalho do setor. Nessas profissões, 44% têm entre 18 a 24 anos. Cerca de 70% têm o nível médio completo e, em 2013, recebiam um salário médio de R$ 1.097.

 

Fonte: Correio Braziliense *Matéria na íntegra disponível no site