23/03/12 - Restaurantes rumo à Copa

Estabelecimentos, longe ou perto do centro da cidade, começam a treinar funcionários com cursos de idiomas, adaptar os cardápios e ampliar os espaços. Empresários acreditam que durante o Mudial de 2014 será possível dobrar o faturamento

O anúncio de Brasília como sede de grandes eventos esportivos parece ter despertado empresários do setor gastronômico. Tendo a Copa do Mundo de 2014 como justificativa, o mercado local começa a se mexer na intenção de melhorar a qualidade do serviço. Até o início dos jogos, a estimativa é que os restaurantes da capital do país contratem pelo menos 600 pessoas. Para atender os milhares de estrangeiros aguardados durante o Mundial, cardápios ganham versão em inglês e garçons se apressam para aprender a segunda língua.

Apesar de ser uma capital administrativa e de abrigar 116 embaixadas - além de organismos e empresas de outros países -, é raro encontrar nos restaurantes da cidade gente preparada para lidar com estrangeiros. A dificuldade ocorre até mesmo nos estabelecimentos do Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, onde 40 aviões chegam do exterior toda semana. Brasília receberá a abertura da Copa das Confederações, no ano que vem, e sete jogos da Copa do Mundo, em 2014. Ao lado do Rio de Janeiro, será a sede com o maior número de partidas.

Representantes do setor gastronômico creditam a deficiência na prestação de serviço ao histórico gargalo da falta de mão de obra qualificada. Ainda que o impacto das competições nos negócios seja uma incógnita, eles confessam que o fenômeno Copa serviu para impulsionar investimentos exigidos pelo mercado. Donos de restaurantes, sobretudo aqueles instalados próximos a pontos de movimentação turística, esperam dobrar o faturamento durante a Copa. Para o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) do DF, Jaime Recena, mais do que a pretensão de engordar o caixa, a preocupação do setor deve ser com a qualidade do atendimento. "Esse será o grande marco para a cidade. O que estamos buscando, desde já, é aproveitar a Copa para oferecer melhores serviços aos clientes".

A gastronomia é um dos segmentos identificados pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do DF (Sebrae-DF) como oportunidade de negócio durante o Mundial. Cerca de130 estabelecimentos participarão, ainda este semestre, de um programa de capacitação em parceria com a Abrasel, com foco no treinamento de funcionários.

Aulas de inglês – Um quarto dos 38 funcionários de um restaurante localizado em um shopping próximo ao Estádio Nacional Mané Garrincha mostrou interesse em começar um curso básico de inglês. O estabelecimento pagará metade do valor cobrado. "Se o movimento aumentar e a gente não estiver preparado, não vai adiantar muita coisa", afirma a gerente, Elisa Reis. Antes da Copa, pelo menos mais quatro garçons passarão a fazer parte do quadro de funcionários da unidade. A rede pretende inaugurar três franquias até 2014. Serão, por baixo, mais 50 empregados.

A proximidade do Setor Hoteleiro Norte faz com que o restaurante receba estrangeiros com certa frequência. O garçom Marcus Vinicius Guimarães Silva, 39 anos, encara o contato com os gringos como treinamento para a Copa. E se diz ansioso pelo início das aulas de inglês. "Queira aprender tudo em um mês", afirma. Por enquanto, se vira com as mímicas e a ajuda dos cardápios em língua inglesa. "Já levei o prato errado mais de uma vez, porque eles falam muito rápido. Aí tem que pedir um "I´m sorry" e trazer de novo, não tem jeito", conta.

O maranhense Nilson de Matos, 25 anos, e a portuguesa Marlene Eunice Gomes, 20, se conhecerem na Suíça, se casaram e há um mês chegaram a Brasília. Ele é garçom. Ela, hostess. Cada um fala quatro línguas e arranha uma quinta. Não tiveram a mínima dificuldade em conseguir emprego em um restaurante no mesmo shopping bem perto do estádio. "A gente está pronto para o que der e vier. Que venham os estrangeiros", diz ele, animado com a Copa. "É um privilégio poder receber as pessoas e ajudá-las a se comunicar", emenda a mulher.

No ano passado, parte da equipe que agora Nilson e Marlene integram fez aulas de inglês no próprio restaurante. A demanda natural já seria suficiente para esse investimento, mas a Copa, confessa um dos sócios, Igor de França, acabou impulsionando o treinamento. "Todos os dias, recebemos estrangeiros, mas na época dos jogos, está sendo esperado um boom", justifica, antes de ponderar que as melhorias beneficiarão todos os clientes. "A gente tem de prestar um serviço de excelência para o Joseph Blatter (presidente da FIFA) e para um cidadão comum."

Os cardápios do restaurante de um hotel no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA) estão sendo adaptados para o inglês. Apesar de não estar em zona turística, o estabelecimento pegou carona no fenômeno Copa para investir em capacitação e infraestrutura. A ampliação do espaço em 43% da capacidade custará R$ 110 mil e deve ficar pronta até julho. Ao longo do ano, outros R$ 40 mil serão aplicados em treinamento dos 30 funcionários. "As mudanças era necessárias, mas foi a Copa quem nos motivou a concretizá-las", diz a gerente do hotel, Verônica Lacerda.

 

Fonte: Correio Braziliense