22/03/12 - Salvaguarda pode acabar com diversidade de vinhos

Intenção do governo brasileiro de proteger a indústria vinícola nacional ao impor cotas para as importações vai afetar diretamente a oferta e os preços para o consumidor

Com o argumento de que a cadeia produtiva nacional de vinicultura está sofrendo uma concorrência desleal com os produtos importados, o governo brasileiro decidiu abrir uma investigação para pedir salvaguarda ao vinho fino brasileiro, ou seja, criar medidas de defesa ao produto produzido no Brasil.

Se confirmada a concorrência desleal pelo governo, a medida comercial prevista pela Organização Mundial de Comércio (OMC) pode estabelecer aumento dos tributos cobrados na aduana ou a imposição de cotas à bebida. Essa ação, segundo entidades do setor ouvidas pelo BRASIL ECONÔMICO, pode ser prejudicial ao consumidor já que reduzirá o acesso a vinhos cultivados em longa data—considerados os melhores ao paladar.

“Ou seja, a salvaguarda pode acabar com a grande diversidade dessa bebida no país, nos levando novamente à época antecedente a abertura do mercado nos anos 1990”, diz o presidente da importadora Mistral, Ciro Lilla, lembrando de uma época em que a oferta de vinhos no Brasil é restrita e muito cara.

Lilla aponta ainda que o argumento para a imposição da salvaguarda não se sustenta quando confrontado com os resultados positivos obtidos pela vinicultura nacional nos últimos anos. Segundo dados do Ministério de Desenvolvimento e Comércio Exterior (MDIC), em 2011, o consumo de vinho nacional subiu 7,6%, enquanto que o consumo de vinhos estrangeiros teve alta de 3%. “Ou seja, vedemos 249,6 milhões de litros de vinhos nacionais, o terceiro maior volume dos últimos dez anos”, comenta Lilla.

 

No entanto, o presidente do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Carlos Paviani, aponta que o aumento da renda dos brasileiros e a ascensão da classe média na economia estão colaborando para uma maior demanda por vinhos estrangeiros, principalmente os de origem europeia.“Países em crise na Europa veem o Brasil como grande mercado. Isso nos leva a procurar meios para garantir a nossa sobrevivência”, justifica Paviani, lembrando que o pedido de salvaguarda não é em si uma cortesia do governo, mas uma medida que exigirá contrapartidas.

O governo brasileiro exigirá que os vinicultores invistam para melhorar a competitividade de sua produção — só os do Rio Grande do Sul, região em que está concentrada a maior parte da produção brasileira de vinho, se comprometeram em investir R$ 18 milhões na compra de áreas novas para plantio.

Isso permitirá ampliar em 49% o total de hectares de cultivo em comparação a 2010. Outros R$ 69 milhões serão aplicados em novas técnicas de plantio e R$ 5 milhões em publicidade, com a objetivo de estimular o consumo do vinho nacional.

 

Lobby

Apesar dos argumentos da Ibravin para justificar a implantação da salvaguarda, a Associação Brasileira de Exportadores e Importadores de Bebidas e Alimentos (Abba) e a importadora Mistral afirmam que a medida anunciada não passa de formação de lobby para beneficiar o próprio setor com objetivo de aumentar seus lucros e tirar do consumidor acesso aos vinhos importados de boa qualidade.

Eles são unanimes ao apontar que a qualidade e o sabor dessa bebida são proporcionados pelo clima e pelo solo de cada país — ou seja, o Brasil, país tropical, pode até produzir vinhos de qualidade, mas não com as mesmas características de vinhos vindos da Itália ou da França,por exemplo. “É aí que entra a graça dessa bebida, a grande variedade de paladar que ela oferece, diferente da cerveja e do whisky que têm praticamente, em todos os países, o mesmo sabor”, defende o presidente da Mistral, Ciro Lilla.

Hoje, o consumo per capita de vinho no Brasil é de 2,4 litros por ano, dos quais 0,4 litro é de produto importado. Nos anos 1990, esse consumo era 1,8 litro, de acordo com a Abba. Chile e Argentina são responsáveis por mais de 60% do vinho importado que entra no Brasil. Em seguida estão Portugal, Itália, França e Espanha, com 30%. África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, EUA, Áustria e Alemanha são os 10% restantes.

 

Fonte: Brasil Econômico