01°/10/2014 - Repleto de poesia

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Aliado a uma proposta diferenciada, projeto arquitetônico e identidade visual compatível com o público-alvo deram vida e personalidade a um dos bares mais poéticos de São Paulo

Um boteco com a personalidade de um poeta e que transpira cultura. Parece improvável? Imagina então se o poeta em questão for ninguém menos que o gaúcho Mario Quintana? Pois foi exatamente “o poeta das coisas simples” a fonte de inspiração do chef de cozinha Marcos Livi para continuar o projeto de cultura e gastronomia iniciado por ele com o Veríssimo Bar, que homenageia o escritor Luis Fernando Veríssimo.

 

Esse é um desafio que foi superado e hoje é o Quintana Bar, localizado na Vila Sofia, Zona Sul de São Paulo (SP). Além de bela, a casa é um exemplo ímpar de como um projeto arquitetônico bem estruturado é capaz de contribuir com a marca e atrair o perfil de público pretendido por um estabelecimento.

 

O ponto de partida foi conseguir arquitetar algo que exprimisse a personalidade do poeta em um estabelecimento comercial, assegurando, também, a funcionalidade do espaço. A tarefa foi encarada pelos profissionais do Estúdio Vitor Penha, também em São Paulo. Em conjunto, Livi, Vitor Penha (direção criativa), Veronica Molina (coordenação) e Gabriela Hipólito (colaboradora) aliaram marca e identidade visual para transmitir o exato conceito do negócio. “Foi um desafio mais de criação. Tentar expressar a questão da língua portuguesa, da palavra, no ambiente. Tanto é que fizemos referência nos azulejos portugueses da fachada e no grande caça palavras logo na entrada e que também estampa o jogo americano das mesas e o papel de embrulho. No degrau, simulamos lombadas de livros com frases do poeta. A marca foi sendo construída em cima da palavra”, explica Penha. E completa: “Todos os projetos são desafiadores. Mas esse foi especial, porque foi um desafio cheio de poesia”.

 

A decoração ainda é complementada por objetos patchwork e portas de madeira colorida, resgatadas por Marcos Livi em ferros velhos e transformadas em divertidas paredes – um detalhe são as inscrições “Guri” e “Guria” indicando os banheiros, ideia do escritório Off.

 

Outra característica do projeto está na comunicação visual, assinada por Andrei e Caline Ivanoff, da Agência Off. Eles criaram a identidade do bar a partir do logotipo que inclui um passarinho em menção ao Poeminha do Contra. “A comunicação visual foi fundamental à construção da marca, do DNA do nosso negócio. Ela separa um trabalho comum de um trabalho pensado, detalhado e com valor agregado”, destaca Livi.

 

Sensorial

 

Quem chega ao Quintana, provavelmente, fica encantado a ponto de não se ater ao minucioso trabalho de arquitetura executado para dar vida à ousada e criativa proposta de Livi. Ponto para os arquitetos. Segundo Penha, um dos objetivos era estimular os sentidos de forma harmônica, leve, compondo os elementos de maneira que nenhum deles se sobressaísse, exatamente, para que o sentido, no caso, o paladar, fosse preparado para uma percepção mais sutil. “O espaço arquitetônico precisa ser pensado como um espaço de estímulo sensorial, porque, entre os sentidos, o paladar não é o dos mais fortes. Procuramos formar uma cama de bem-estar para que as pessoas possam experimentar o sabor de forma adequada”, observa.

 

Para isso, os arquitetos do Estúdio apostaram no conceito de “belezas imperfeitas”, uma marca registrada em suas criações e que consiste em encontrar soluções alternativas por meio da reutilização de materiais garimpados em lojas de demolição, ferros-velhos e antiquários. “As marcas do tempo formam a história por trás da imperfeição. Defendemos essa teoria, pois na imperfeição nos sentimos mais acolhidos. É como se o espaço te abraçasse”, explica.

 

Penha destaca que essa é uma maneira de aguçar o paladar e outros sentidos. “Se você cria um desconforto visual, causa um cansaço físico. Lógico que a pessoa não identifica isso, mas sente o desconforto. Para a acústica, por exemplo, cobrimos todo o teto com caixas de ovos. Tudo é feito com a preocupação de que os sentidos fiquem preparados para receber a comida.”

 

Poesia por todos os cantos

 

Questionado sobre as motivações para investir em restaurantes que contemplam gastronomia e cultura e que, para isso, se ancoram na figura de dois ícones da literatura brasileira Marcos Livi explica: “Acredito que por estar na capital paulista, bom serviço, boa comida e boa bebida não são suficientes. É necessário algo a mais. No nosso caso, a cultura traz conteúdo e dá ao estabelecimento uma identidade mais completa. Além, claro, de despertar o interesse pela leitura”, avalia.

 

A escolha por Veríssimo e Quintana não foi ocasional. Assim como ambos os poetas, Marcos Livi é gaúcho. Foi de Porto Alegre que ele trouxe o aval da família Quintana para o nome da nova casa. Lá, também encontrou a conexão com a diversificada cultura gastronômica do Sul, iniciando um intenso trabalho de pesquisa – o cardápio do novo bar foi elaborado para valorizar os sabores da culinária do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

 

Tudo acertado, para abrigar o Quintana Bar foi escolhido um imóvel em uma esquina do bairro de Vila Sofia, um lugar tranquilo e longe dos grandes centros. Ao todo, foram concebidos quatro ambientes (térreo com varanda, balcão, mezanino e lounge) com capacidade de acomodar cerca de 160 pessoas.

 

A poesia e os elementos “imperfeitos” estão por toda a parte. No mezanino, por exemplo, as mesas possuem decoração rústica. No andar superior, o lounge a céu aberto divide espaço com a horta urbana, que abastece a cozinha com ervas e pimentas frescas.

 

A luz adequada

 

Marcos Livi explica que a escolha do arquiteto se deu após uma viagem pela Espanha, onde ele percebeu a importância da luz em um projeto de bar. “E o Vitor é um dos craques nesse assunto”, ressalta. Vitor Penha, que também é professor de Luminotécnica da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), afirma que o cuidado com a iluminação é outra marca registrada nos projetos de sua equipe. “Ela está diretamente ligada ao emocional. Se não for bem trabalhada, pode causar um grande desconforto, como o ofuscamento.”

 

No caso do Quintana, ao invés de um projeto de luz, optou-se por um projeto de sombra, o que, naturalmente, torna o trabalho mais difícil, já que requer domínio do resultado. “A ideia foi criar uma luz com contraste. Não muito varrida, mas que pudesse ter desenhos e, ao mesmo tempo, dar um bom efeito e não estourar. Mais uma vez, entra o processo criativo, que precisa ser muito bem feito e articulado”, explica. Como exemplo, Penha cita as arandelas, cujos desenhos da luz são visto na parede. Também há a ausência de sobreposição de luz. Já as luzes de destaque foram colocadas nas áreas de circulação e em locais onde as pessoas não têm acesso.

 

 

Fonte: Revista Bares & Restaurantes nº98 *Matéria na íntegra disponível na versão impressa