18/07/2014 - Os riscos das franquias

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O panorama do segmento que cresce acima do PIB, mas esconde fracassos e desilusões que podem gerar prejuízos ao empresário

Estruturar um negócio é um desafio que todo empreendedor enfrenta. É preciso resolver questões burocráticas, lidar com o planejamento estratégico, articular ações de marketing e fazer as mais diversas escolhas, que podem determinar o sucesso ou a derrocada do empreendimento. Por tudo isso, se for possível contar com a experiência de quem conhece o caminho das pedras, por que não recorrer a ela? É pensando assim e de olho em números impressionantes que empresários acabam optando pelas franquias – um atalho tentador, mas que não afasta grandes riscos.

Os principais atrativos podem ser compreendidos com a leitura dos resultados apresentados, ano após ano, pela Associação Brasileira de Franchising (ABF). Há mais de uma década, por exemplo, o setor alcança no Brasil crescimento bem acima do PIB. Apenas em 2013, o faturamento das empresas que adotam esse modelo de administração bateu em R$ 115,5 bilhões, 11,9% maior do que o registrado no período anterior. Na mesma base de comparação, segundo o IBGE, a economia do país patinou para crescer 2,3%. Outra medida do tamanho da adesão às franquias é a evolução do número de redes constituídas no país, hoje são 2.704, com 114.409 unidades franqueadas, quatro vezes mais que dez anos atrás.

O grupo de alimentação, dos bares e restaurantes, está entre os mais consolidados e expressivos. No ano passado, o faturamento desse segmento experimentou expansão de 16,6%. Foram quase R$ 24 bilhões, 21% da soma alcançada por todas as franquias registradas no país. E não é só. No ranking das dez redes com mais unidades franqueadas, três estão voltadas para a alimentação fora de casa (McDonald´s, Subway e Bob’s). E “o potencial latente ainda é grande”, garante João Batista Junior, coordenador do comitê de alimentação da ABF. Segundo ele, “do gasto com alimentação das famílias, mais de 30% foram feitos fora do lar no ano passado. E isso deve aumentar, porque as mulheres estão ganhando novas responsabilidades fora de casa, inclusive no interior”.

A taxa de mortalidade das franquias é outro atrativo arrebatador. Com esse modelo de gestão, apenas cerca de 5% das empresas fecham, em média, as portas durante os primeiros anos, resultado pelo menos cinco vezes melhor que o dos empreendimentos de marca própria. É um passo certeiro rumo ao sucesso. Será? “Não há como garantir”, é a resposta do doutor em administração Ângelo Pepe Agulha.

Esse não é só o depoimento de um especialista, mas também de quem enxergou as armadilhas por trás da frieza dos números. Depois de começar a operar uma unidade de uma rede de supermercados, investindo um milhão de reais, e sair com quatro milhões em dívidas, Ângelo Agulha se juntou a outros empreendedores para criar o Sindicado dos Franqueados do Estado de São Paulo, constituído no final do ano passado. É atualmente o vice-presidente da entidade.

O aumento do número de franqueados insatisfeitos com o rumo de seus negócios tem estimulado a formação de outras associações pelo país. De acordo com o sindicato de São Paulo, estão sendo abertas entidades representativas dos franqueados no Nordeste, no Sul e outras duas no Sudeste (no Rio de Janeiro e em Minas Gerais). “Até hoje, esse empresário poderia recorrer à Justiça por meio de um processo civil. A partir de agora, além dessa possibilidade, ele pode recorrer a nós para que possamos estabelecer uma negociação mais equilibrada, em pé de igualdade de forças (com a franqueadora)”, explica o presidente do Sindicato dos Franqueados do Estado de São Paulo, Jamil Georges Soufia.

Um grande risco das franquias está no modismo e nas marcas novas ainda pouco estruturadas. No segmento de alimentação fora do lar, há hoje a proliferação de sorveterias, temakerias (comida japonesa), hamburguerias e pizzarias delivery. Algumas sem sequer ter qualquer know-how para oferecer. Isso, explicam os especialistas, faz crescer a concorrência, às vezes seguida da guerra de preços e promoções.

“E o que há de inovador em uma pizza quadrada que justifique uma rede de franquias? A fôrma. Mas isso todo mundo imita”, alerta Ângelo Agulha. E você pode até gostar ou se identificar com o ramo e estar convencido de que precisará trabalhar muito, mas se não houver um suporte administrativo adequado do franqueador, pode “acabar passando o dia contando centavos atrás do balcão”, revela.

 

Riscos compartilhados

Os desafios que se apresentam às marcas próprias também precisam ser bem estudados. As franquias não estão livres deles. É o caso da tributação e o valor que deve ser despendido com ocupação, como aluguel do ponto, condomínios de shoppings e IPTU. João Batista Junior chama a atenção para as barreiras tributárias criadas em cada estado. Elas comprometem a rentabilidade e o ganho em escala. No custo da mão de obra, “também não fomos incluídos entre os setores contemplados com a desoneração da folha de pagamento”, afirma. Reclamação carreada por ele na esteira das desonerações pontuais promovidas, nos últimos anos, por medidas provisórias editadas pelo governo federal.

As responsabilidades sobre uma franquia são divididas entre franqueador e franqueadas, mas o maior prejuízo da unidade de uma rede fica com o seu franqueado, que pode vir a ser substituído. Por isso, não se pode negligenciar a capacidade financeira da operação e o fluxo de caixa. Além dos recursos para abrir o estabelecimento, existe a necessidade de reservar parte do investimento para usá-lo como capital de giro.

E para o setor de bares e restaurantes, de acordo com Ana Vecchi, diretora de uma consultoria em gestão de empresas especializada em franquias, é preciso também que “o investidor tenha uma percepção correta da complexidade do negócio, de como fazer o abastecimento, da gestão de estoque e da manipulação de alimentos”. É imprescindível saber gerir bem a equipe e evitar o desperdício. O custo de mercadoria vendida (CVM) alto também pode inviabilizar a lucratividade. Outra dica, ela acrescenta, é “uma equipe qualificada, engajada e que faça a diferença”.

 

Fonte: Revista Bares & Restaurantes nº97 - Matéria na íntegra disponível na versão impressa