17/07/2014 - Shopping a céu aberto: uma tendência global

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Realidade nos Estados Unidos, o open mall ou shopping a céu aberto pode chegar ao Brasil e modificar as atividades no setor

Eles são amplos, ficam a céu aberto e convidam o consumidor a uma série de experiências prazerosas, que vão de lazer e entretenimento à interação com a natureza e o ambiente. Quem já esteve nos Estados Unidos a passeio ou a trabalho e se propôs umas compras (o que é quase redundante), certamente se deparou ou ouviu falar de um espaço assim.

No país onde, desde 2006, não se constroem shoppings fechados, os open malls, como são chamados, estão por toda parte. Nos EUA, mesmo os empreendimentos mais antigos estão sendo remodelados para se tornarem centros comerciais ao ar livre e integrados à comunidade.

Mas se ao que tudo indica na terra do Tio Sam os shoppings fechados vêm encerrando o seu ciclo de vida, no Brasil a construção de empreendimentos abertos ainda têm um longo caminho à frente. De acordo com o Censo Abrasce 2012-2013, levantamento realizado pela Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) com a Gismarket Estudos de Mercado, apenas 13% dos shoppings brasileiros se enquadram no quesito especializado (outlet, lifestyle ou open mall e temáticos).

“Tudo que existe de shopping center no Brasil, seja aberto ou fechado, é influência americana. É assim desde a chegada dos chamados ‘caixotões’ – por fora, uma tremenda construção, mas que só é vivenciada quando se está lá dentro – que marcaram o início dessa indústria no país”, afirma Luiz Fernando Veiga, presidente da Abrasce. Ele explica que, dos 40 novos shoppings previstos para 2014, apenas oito seguem a linha open mall.

Ainda que a construção de centros comerciais abertos no Brasil seja incipiente, é possível afirmar que esse também é um modelo viável para quem está no ramo da alimentação fora do lar. Isso porque, respeitados os estudos necessários à abertura de qualquer empreendimento (como mostrou a matéria Riscos e oportunidades de estar no shopping, da edição 96 de Bares & Restaurantes), esses espaços vão ao encontro de algumas necessidades do setor.

Uma delas diz respeito à alimentação fora do lar, terceiro fator de ida a um shopping – são 12% delas, seja para um lanche rápido, um almoço, jantar ou mesmo um happy hour. “Já não basta ter apenas a praça de alimentação e seus característicos fast foods. Hoje, as pessoas estão mais exigentes e primam por uma refeição mais elaborada”, explica Veiga.

Proposta que casa bem com o mall aberto, onde, geralmente, as pessoas ficam mais tempo do que nos convencionais, o que amplia a demanda pela slow food. “Neles, os restaurantes são colocados em posições estratégicas. Normalmente, nas entradas, há uma concentração maior e muitos exploram bem o ambiente interno. No open mall há menos operações rápidas e mais à la carte, além de choperias, pizzarias e demais ambientes propícios a reunião de familiares e amigos”, afirma a arquiteta Vera Zaffari, do VZA Arquitetura, especializado em projetos comerciais.

 

Bom negócio

Os empresários Francisco de Assis Bezerra de Menezes e Luiz Cezar Cardoso Gomes apostaram nesse conceito de descontração e boa gastronomia ao escolherem o Jardins Open Mall, em Fortaleza (CE) (confira no box) para abrigar três empreendimentos. O restaurante Geppos, voltado ao público das classes A e B, foi o primeiro deles. Com o sucesso, vieram o Cabaña del Primo, especializado em carnes, e o mais recente, o Misaki, um restaurante japonês contemporâneo, lançado em 2009.

Segundo a gerente de Marketing do grupo Andrea Nery, as três casas recebem uma média de 20 mil clientes por mês. “Eles apreciam a sensação de estar em um mall aberto e no centro da cidade. A questão da liberdade e segurança é sempre citada. Esses fatores, aliados à nossa proposta de gastronomia, conferem ao shopping o requinte ideal para atingirmos o público desejado”, explica.

Outro empreendimento bem sucedido e localizado em open mall é o Spazzio, complexo de três restaurantes (o buteco Jurê; o Second Floor, que mistura gastronomia e entretenimento; e a pizzaria Spazzio Forneria) e um loja de roupas, localizado no Jurerê Open Shopping, em Jurerê Internacional – empreendimento imobiliário, residencial e resort desenvolvido pelo Grupo Habitasul, ao lado da praia de Jurerê Tradicional, em Florianópolis (SC).

“Além de ter uma ótima localização, o fato de ser aberto faz com que o mall combine bem com o ambiente de praia e o perfil das pessoas, geralmente, turistas. Além de proporcionar maior interação entre elas”, destaca o gestor do Spazzio, Fabrício Zanghelini.

 

Diferenciais

Maior integração dos projetos com a paisagem, racionalização da construção e economia de energia – muito em função da ausência de climatização, necessária aos shoppings fechados. Esses são os principais diferenciais de um open mall citados pelo arquiteto urbanista Norberto Sganzerla. Para ele, o grande atributo de uma construção com esse formato é oferecer ao público a sensação de continuidade da rua, porém, com um nível de organização diferenciado e um mix de atividades que consiga despertar o interesse nas pessoas de permanecerem no local.

“Aproxima-se muito do conceito de praça pública, onde as pessoas costumam ir para se encontrar e desfrutar do verde. Como as cidades brasileiras, em geral, são carentes desses espaços, o empreendimento comercial acaba cumprindo essa missão também”, explica.

 

Gargalos à expansão

A justificativa para a timidez da indústria especializada pode estar na série de dificuldades que a realidade brasileira apresenta. Conciliar a principal característica desses empreendimentos, que é a não verticalização (eles são mais ‘esparramados’, em uma linguagem popular, o que requer grandes extensões de áreas para a construção) com a questão da mobilidade urbana, por exemplo, é um dos principais desafios à expansão dos malls abertos, já que essas áreas, até por uma questão de custos, ficam mais afastadas dos grandes centros.

“Acredito muito nesse formato. Tem muita gente que gosta de estar na rua, uma fatia da população que não quer ir para um shopping tradicional, pois já passa a maior parte da semana em áreas fechadas, em seus escritórios ou presos em engarrafamentos. No entanto, penso que o setor público e a iniciativa privada têm que se unir para contornar o problema de infraestrutura urbana e oferecer mais qualidade de vida à população. Open mall, aliás, está muito associado à qualidade de vida”, enfatiza a arquiteta Vera Zaffari.

 

Fonte: Revista Bares & Restaurantes nº97 - Matéria na íntegra disponível na versão impressa